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Jornal de Piracicaba

Estudo mostra impacto da mudança climática em ecossistemas de águadoce

Publicado em 13 agosto 2020

Por Governo do Estado de São Paulo

Com o objetivo de entender como as mudanças climáticas podem impactar diferentes ecossistemas, 27 pesquisadores do Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Guiana Francesa e Porto Rico realizaram, em sete locais, experimentos envolvendo o ambiente aquático existente no interior das bromélias, que serve de habitat para larvas de insetos e outros pequenos organismos. Eles descobriram que, ao contrário do que se poderia pensar, não são os organismos do topo da cadeia alimentar que mais sofrem com a instabilidade de chuvas, um dos efeitos esperados das mudanças climáticas, mas sim os organismos da base, os menores.

Os resultados da pesquisa, apoiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foram publicados na revista Nature Communications. Segundo o ecólogo Gustavo Quevedo Romero, primeiro autor do artigo, estudos replicados geograficamente para entender como as mudanças climáticas podem afetar os ecossistemas são raros. Porém, necessários para melhor entender como cada região geográfica e cada ecossistema serão impactados. E os resultados observados nos experimentos com as bromélias contradizem parte dos estudos de ecologia com foco em mudanças climáticas e resiliência das espécies já publicados.

“Manipulamos quantidade e frequência das chuvas nos microcosmos (interior de bromélias) seguindo modelos que preveem mudanças climáticas para as próximas décadas. No mesmo experimento, criamos tanto condições de seca quanto de enchente e um índice de estabilidade hidrológica dentro de cada bromélia. Assim, na amostragem, havia bromélias com condições hidrológicas mais estáveis, cujo volume de água variava pouco ao longo do tempo, e com condições mais instáveis”, conta Romero, professor do Departamento de Biologia Animal da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Verificamos que a instabilidade afetou negativamente os organismos menores. Eles ocorreram em maior quantidade nos microcosmos com condições mais estáveis. Já os predadores maiores ocorreram nas bromélias expostas a períodos de maior seca”, completa.

CADEIA ALIMENTAR

Pela literatura, acrescenta o docente, sabe-se que animais maiores sofrem mais com as mudanças climáticas, especialmente porque têm menos espaço para se alimentar. “Mas mostramos que, neste caso, a base da cadeia alimentar pode ser mais sensível, e mudanças nela podem modificar o restante dos níveis tróficos acima”, explica o pesquisador. O cientista afirma que, apesar de haver variações locais de suscetibilidade das espécies às mudanças climáticas, chamou a atenção dos pesquisadores o fato de encontrarem um padrão único, consistente, em todos os sete locais estudados: predadores são sempre beneficiados em ambientes mais secos, e organismos pequenos são prejudicados em ambientes pequenos e mais favorecidos em ambientes maiores, onde chove mais. “Fizemos experimentos em regiões mais áridas, como a de Santa Fé, na Argentina, e em regiões onde dificilmente ocorre aridez, como a Costa Rica e a Guiana Francesa. E esse padrão se manteve”, ressalta. Ele ressalta que o grupo encontrou consistência geográfica nos resultados do trabalho.

“A razão da biomassa de predadores em relação à biomassa de presas, que representa pirâmides ecológicas de biomassa, se repetiu para todas as áreas nas plantas estudadas, sendo consistente ao longo do espaço geográfico, independentemente do pool de espécies e do fato de os organismos estarem mais ou menos adaptados à seca”, pontua. A pesquisa mostra que as mudanças climáticas, principalmente quando associadas à seca, causam instabilidade nas redes alimentares.

“Quando mais predadores ocorrem em uma bromélia com menos volume de água, maior o efeito de predação, de cima para baixo, nas comunidades das presas. Assim, as redes alimentares se desestabilizam, o que pode gerar extinções locais das espécies, tanto de presas quanto de predadores”, enfatiza. Em resumo, apesar de os predadores se beneficiarem nos ambientes pequenos causados pela seca, esses ambientes são mais instáveis, mais propensos ao risco de extinção e colapsos das redes ecológicas.