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Estudo: mamíferos sofrem estresse oxidativo ao despertar de hibernação

Publicado em 18 março 2009

Uma pesquisa realizada por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos mostrou, pela primeira vez, que mamíferos hibernantes, ao despertar do estado letárgico, sofrem um processo de estresse oxidativo, levando a danos nos tecidos. O estudo pode ajudar em investigações sobre doenças, em humanos, causadas por radicais livres.

O estudo, publicado na revista canadense Comparative Biochemistry and Physiology, foi feito por Marcelo Hermes-Lima, professor do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB), em colaboração com Kelly Drew, professora do Instituto de Biologia do Ártico da Universidade do Alasca em Fairbanks, e suas alunas Adrienne Orr e Lonita Lohse.

De acordo com Hermes-Lima, o estudo analisou células do cérebro, do fígado e do tecido adiposo marrom (BAT, na sigla em inglês) de esquilos, mas só neste último – o tecido responsável pelo reaquecimento do animal ao despertar – foram verificados danos causados por radicais livres.

- Apesar dos danos em nível molecular, o animal segue vivendo normalmente. Trata-se de um estresse oxidativo fisiológico, ou natural. O estudo é o primeiro a mostrar que o despertar da hibernação em mamíferos causa esse processo - disse à Agência FAPESP.

Segundo ele, o processo de hibernação não corresponde exatamente ao que é imaginado pelo senso comum. Os animais não dormem ininterruptamente durante todo o inverno, mas despertam e adormecem sucessivamente durante o processo – depois de uma ou duas semanas de sono contínuo, passam dois ou três dias acordados..

Ao despertar, os animais passam, abruptamente, de uma temperatura corporal de cerca de 2ºC para 37ºC. A grande necessidade de calor necessária para isso desencadeia uma intensa atividade mitocondrial.

De acordo com o professor da UnB, os resultados do estudo reforçaram uma hipótese que formulou no início da década de 1990 de preparação para o estresse oxidativo. Segundo a hipótese, os animais em hibernação, com baixa taxa metabólica e falta de oxigênio, investem suas forças metabólicas no aumento das defesas antioxidantes para o momento da difícil transição de estado. Ou seja, os esquilos possivelmente acumulam uma reserva de antioxidantes para se manter ilesos quando forem submetidos ao estresse oxidativo na hora de acordar.

Segundo Hermes-Lima, o avanço do conhecimento sobre a hibernação tem grande interesse biomédico, pois poderá ajudar a compreender os mecanismos de neuroproteção envolvidos no processo.

- Queremos aprender as lições dos animais para se proteger em situações de baixa taxa metabólica e estresse provocado por condições do ambiente. Esses estudos podem ser importantes para solucionar problemas em humanos que envolvem radicais livres e causam dezenas de doenças. Sabemos também que várias doenças cardíacas seguem um padrão semelhante ao que ocorre com o organismo de animais em hibernação - disse.

As informações são da Agência Fapesp