Notícia

Tempo Novo online

Estudo internacional vai avaliar risco de câncer com o pó preto

Publicado em 19 outubro 2020

Avaliar a contaminação por metais no corpo humano e em animais aquáticos da Grande Vitória expostos ao pó preto, incluindo o potencial cancerígeno da substância que é tão presente no dia a dia dos capixabas. São objetivos do estudo inédito que envolve pesquisadores de universidades do Brasil, Reino Unido, Austrália, França e Argentina.

Uma das articuladoras da iniciativa é a bióloga e doutora capixaba Iara da Costa Souza, que inclusive já morou em Portal de Jacaraípe. Ela, que é pesquisadora associada responsável pela administração e logística da pesquisa, é vinculada à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), instituição que está coordenando os trabalhos com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Iara explica que o estudo tem duas frentes: uma delas é analisar o impacto do pó preto de minério da Vale e da ArcelorMittal Tubarão nas células do pulmão humano, identificando metais absorvidos pelo organismo e o potencial cancerígeno. A segunda é avaliar o impacto do pó preto nos peixes e outros organismos aquáticos como camarão, caranguejo, ostras e até anfíbios. E como isso pode afetar a saúde das pessoas que consomem o pescado contaminado.

Segundo a pesquisadora o estudo foi formalmente iniciado em agosto e tem prazo de cinco anos para ficar pronto. Mas pode-se dizer que começou muito antes, uma vez que é desdobramento de outros trabalhos acadêmicos feitos por Iara em parceria com outros cientistas desde meados da década de 2000 na Grande Vitória.

Moqueca com metais

Na época Iara era vinculada ao departamento de Biologia da Ufes, onde se graduou, e desenvolvia estudo para criação de tilápias em tanques rede na baía de Vitória na região entre o Canal dos Escravos e o rio Santa Maria.

Baia de Vitória nas proximidades da foz do Rio Santa Maria e Canal dos Escravos: peixes contaminados com metais pesados e emergentes. Foto: Arquivo TN/Bruno Lyra

Foi quando acabou encontrando metais pesados como chumbo, arsênio, cádmio, mercúrio, alumínio, ferro, bário e silício em quantidade elevada no robalo, peixe nativo desse ambiente que também foi estudo na ocasião. E não foi só: metais emergentes (que ainda não limite legal estabelecidos) como titânio, bismuto e cério também apareceram nos bichos.

O robalo é um dos peixes mais servidos na moqueca capixaba. “Por causa desses metais, descobrimos que não dava para fazer piscicultura na baía de Vitória. Na minha tese de doutorado em análise ambiental forense feita na Hull University, na Inglaterra, consegui provar que os metais vinham do pó preto do minério que a Vale traz do Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais. Esse pó vai para a água da mesma forma que vai para as casas das pessoas, uma vez lançado no ar, o vento espalha e ele se precipita sobre a superfície”, explica.

O estudo sobre a presença de metais no robalo da baía de Vitória foi publicado em 2013. “Quando cai na água, o pó preto é absorvido pelas brânquias dos peixes. Vimos que os peixes sofreram impacto no músculo cardíaco e que o potencial de natação deles reduziu”, revela.

Água reduz o tamanho da

partícula e a deixa mais perigosa

Uma das premissas já conhecidas da ciência sobre o impacto de material particulado – o pó – aos humanos e animais é a de que quanto menor o tamanho da partícula, pior para a saúde. É justamente esse um dos pilares do argumento de Iara para conseguir recursos e apoio de instituições de outros países para pesquisa em terras capixabas.

“Na Grande Vitória tem muito pó preto de minério de ferro. Já existe previsão legal de controle da quantidade de poeira no ar do qual as pessoas podem se expor. Mas não existe para água e esse é um problema mundial, por isso conseguimos apoio para a pesquisa. Percebemos que o pó preto do minério de ferro presente em Vitória, ao contato com solução aquosa, se dissolve e fica muito pequeno, sendo absorvido pelas células”, detalha.

Iara morou dos nove aos 21 anos em Portal de Jacaraípe: vida dedicada à ciência. Foto: Divulgação

Esta observação, acrescenta a cientista, motivou ampliar o estudo para o sistema respiratório das pessoas que respiram o pó emitido pelas atividades da Vale no ES.

“Na Grande Vitória há muita umidade no ar. Isso provoca dois efeitos. Um é criar um efeito de cola no pó preto, que acaba ficando maior do que ele realmente é. Por isso, no monitoramento, aparece como uma poeira de partícula grande, de menor poder ofensivo. Mas ao ser respirado, já entra em contato com o muco nasal que aí em Vitória tende a ser mais aquoso por causa do ar úmido. Nessa situação, as partículas podem ficar até mil vezes menores e serem mais facilmente absorvidas”, explica.

Iara disse que já expôs células de pulmão humano ao pó preto coletado pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) na Ilha do Boi, em Vitória. E notou que 10% da substância acabou absorvida.

Em um experimento anterior realizado por Iara e seus parceiros, foram usadas células de pulmão de rato. Neste caso notou-se maior mortalidade de células expostas ao poluente em relação as que não tiveram contato. Mas este estudo ainda carece de laudos sobre a quantidade e tipo de substâncias químicas que acabaram entrando no núcleo das células.

Já o estudo iniciado em agosto deve dar mais pistas sobre o potencial cancerígeno do pó preto. “A PM2,5 (partícula pequena de poeira) já e cancerígena e fica mil vezes menor quando entra no pulmão. Por isso o pó preto, no mínimo, gera risco de câncer”, adianta.

Ela acrescenta que uma parte do estudo já comprovou que há dissociação do pó preto no meio aquoso e que a substância se transforma em nano partícula.

Contribuição para lei mais dura contra poeira

Iara disse esperar que ao final, o estudo possa dar ferramentas para o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), legisladores e a sociedade civil capixaba articularem leis mais rígidas contra a poluição por pó preto. Seja pelo impacto direto à saúde respiratória dos moradores da Grande Vitória, seja pelo impacto indireto ao contaminar pescado que depois será consumido pelas pessoas.

Moradora de Laranjeiras na Serra mostra a quantidade de pó preto acumulado na varanda de casa. Foto: Arquivo TN/Gabriel Almeida

A pesquisadora ressalta ainda que o estudo vai abranger um número maior de espécies aquáticas para montar um panorama mais abrangente da contaminação nesses ambientes e poder subsidiar a criação de um marco legal sobre a quantidade de pó preto tolerada no mar, manguezais, rios e lagoas do ES.

O título do estudo é ‘Material Particulado Atmosférico e Contaminação Ambiental: Avaliação do Impacto na Biota Aquática em uma abordagem Ecofisiotoxicológica Integrada’.

Coordena o trabalho a pesquisadora Marisa Narciso Fernandes do Departamento de Ciências Fisiológicas da UFSCar. Da Ufes, participam as pesquisadoras Lívia Dorsch Rocha e Silvia Matsumoto. Da FAPES/Vitória, a pesquisadora Hiuliana Arribavene.

Outras instituições nacionais com pesquisadores envolvidos são a UNISANTA/Santos e UNIFESP/Baixada Santista. De pesquisadores internacionais, cientistas da Universidade de Córdoba, Argentina; Universidade de Hull e Universidade de Birminghan, Reino Unido; Universidade de Montpellier, França; Universidade da Austrália Ocidental.

Artigo anterior Comunicados – 19/10/20