Um estudo inédito revela qual a receita para viver 100 anos ou mais com qualidade. Um artigo publicado nesta terça-feira (6) na revista Genomic Psychiatry mostra que o Brasil guarda o grande tesouro do mundo para desvendar e democratizar os segredos da longevidade.
O artigo de Mayana Zatz e colegas do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da analisam por que o Brasil tem um dos recursos mais valiosos. Segundo eles, trata-se da diversidade genética.
Foram revelados mais de 8 milhões de variantes genômicas na população brasileira que não existem em bancos de dados mundiais. Essa diversidade permite a descoberta de "genes protetores" que permanecem invisíveis em populações mais homogêneas da Europa ou América do Norte.
“O DNA dos superidosos brasileiros possui sequências genéticas e variantes de imunidade que não aparecem em outras populações do mundo, o que faz do Brasil um tesouro genético para entender o envelhecimento e a resistência a doenças”, destaca Zatz.
Lugares considerados como “zonas azuis” da longevidade, a exemplo de Japão e ilhas da Grécia, Itália, Costa Rica ou Califórnia ganharam descrédito por falta de confirmação e dados imprecisos.
Na verdade, o Brasil possui algo que nenhum outro país tem, afirma o artigo. Desde a colonização portuguesa em 1500, atravessando a migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados e as fases de imigração europeia e japonesa, o país obteve o que os autores descrevem como “a maior diversidade genética do mundo”.
Miscigenação brasileira
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), o Brasil possui cerca de 37 mil centenários e pode se orgulhar do de possuir uma vida longa. De acordo com estudos do próprio grupo de Zatz e também de outras equipes, aproximadamente 70% da população brasileira apresenta miscigenação.
“Esse percentual varia entre as regiões do país. Mas São Paulo, por exemplo, é altamente miscigenado”, acrescenta ela. O Brasil possui três dos 10 supercentenários do sexo masculino mais longevos do mundo. Esse número inclui o homem mais velho vivo, nascido em 5 de outubro de 1912.
Entre as mulheres, as supercentenárias brasileiras estão entre as 15 mais longevas do mundo, à frente até de países mais populosos e desenvolvidos, como os Estados Unidos, de acordo com a LongeviQuest, empresa especializada em checagem de dados de centenários. A idade secular e o fato de serem miscigenados são os únicos pontos em comum entre eles, que vêm de todas as regiões e estratos sociais do país.
“Alguns deles nunca receberam atendimento médico decente nem puderam se dar a luxos como adotar a chamada dieta mediterrânea (a base de vegetais, azeites e peixes). Alguns têm até sobrepeso ou não comeram o que se considera adequado”, afirma Zatz
O estudo abrange mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários validados (totalmente documentados), vindos de várias regiões do Brasil, com origens sociais, culturais e ambientais heterogêneas.
Segundo os pesquisadores, a pandemia de covid-19 em 2020 foi desafiadora para entender essa variedade biológica. Antes mesmo da disponibilidade de vacinas, pesquisadores acompanharam supercentenários brasileiros que sobreviveram à doença. Eles apresentaram níveis elevados de anticorpos e proteínas de defesa natural, demonstrando uma resistência superior à média da população.
Próximos passos
A pesquisa destaca a importância de integrar genomas brasileiros em estudos internacionais para avançar na medicina de precisão. De acordo com Zatz, o conjunto da função robusta de células imunes, sistemas de manutenção proteica preservados e integridade fisiológica geral faz dos supercentenários um modelo excepcional para o estudo da resiliência biológica.
A busca agora é de mais investimento no estudo dos supercentenários do Brasil e a inserção de seu genoma em consórcios internacionais de pesquisa.