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Estudo inédito da Unesp revela subtipo de Salmonella enterica

Publicado em 22 março 2017

Cientistas da UNESP do Laboratório PASIQUIBAC na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara, liderados pelo Prof. Cristiano Gallina Moreira, publicaram o artigo Multilocus Sequence Typing of Salmonella Typhimurium reveals the presence of the highly invasive ST313 in Brazil, disponibilizado online no último dia 10/3 na revista científica Infection, Genetics and Evolution.

O estudo foi fruto da parceria com os cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), sob a reponsabilidade da Profa. Dra. Juliana Pfrimer Falcão, o Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, além do Instituto Adolfo Lutz de Ribeirão Preto e a Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro participaram com a cessão das linhagens.

O trabalho revela de maneira inédita a presença de um subtipo mais invasivo e mais resistente de Salmonella enterica sorovariedade Typhimurium no Brasil até o momento somente descrito na literatura como existente na África Subsaariana. De forma surpreendente para vários especialistas da área em demais países.

Ao contrário de outros subtipos de Salmonella typhimurium, que em humanos provocam gastroenterite, com febre, náuseas, vômito e diarreia, essa variação da bactéria consegue quebrar a barreira do epitélio gastrointestinal e disseminar-se na circulação sanguínea, provocando infecção sistêmica e aumentando em 25% os casos de morte como relatado em estudos anteriores. “Este novo relato é filogeneticamente extremamente interessante, porém muito preocupante em termos de saúde pública”, avalia Cristiano.

A pesquisa surgiu da tese de doutorado defendida por Fernanda de Almeida na USP de Ribeirão Preto em 2016 e cada grupo de cientistas ficou responsável por uma área. A equipe coordenada pela Professora Dra. Juliana Pfrimer Falcão reuniu e identificou através de estudos moleculares as amostras, além de estudar a epidemiologia das linhagens, contando também com a colaboração da aluna Amanda A. Seribelli.

O laboratório PASIQUIBAC da UNESP colaborou com um todo seu conhecimento na área de patogenicidade bacteriana e sinalização química em bactérias, onde o Professor Cristiano e o doutorando Patrick da Silva pesquisaram a patogenicidade das bactérias, ou seja a capacidade que estas novas linhagens tem em desenvolver seus mecanismos específicos pelos quais são capazes de provocar doenças. “No caso específico do tipo clonal ST313 isto é muito preocupante, devido a sua virulência descrita na literatura por colaboradores nossos nos EUA e também agora pelo nosso grupo com amostras isoladas aqui no Brasil”. O Professor Cristiano ainda acrescenta: “Já temos resultados preliminares com colaboradores de outras localidades do estado de São Paulo, onde acreditamos que estas linhagens de ST313 estão disseminadas em demais pacientes hospitalizados, o que é um problema muito sério”.

Outro problema que o Prof. Cristiano aponta é sobre a dificuldade de se identificar o subtipo no país, problema que para o grupo pode estar relacionado à não obrigatoriedade de notificação de casos esporádicos de Salmonella no Brasil, apesar de raramente serem reportados surtos alimentares pelas autoridades competentes. Sem isso, há poucos dados disponíveis para análise e o acesso a estes é muitas vezes difícil. “Muitos casos esporádicos infelizmente passam desapercebidos, sem sua devida identificação e servem de alerta para a sociedade, até mesmo despertando interesse de pesquisadores e especialistas da área nos EUA e Europa sobre este importante relato aqui do Brasil”, alerta o pesquisador.

A pesquisa aponta ainda mais um problema, a falta de notificação. Segundo os pesquisadores, é o uso indiscriminado de antibióticos de amplo espectro contra diferentes linhagens e diferentes espécies bacterianas. Durante um período a medicação funciona, mas, com o passar do tempo, os organismos unicelulares se tornam resistentes e o remédio pode deixar de surtir efeito. Nesse cenário, a situação sai do controle antes que os centros de pesquisa consigam concluir de que forma a bactéria atua especificamente.

Os pesquisadores do PASIQUIBAC pretendem agora realizar ensaios in vivo para melhor compreender os mecanismos do ST313 no hospedeiro, e assim desvendar nuances da relação patógeno-hospedeiro, desta forma maiores investimentos junto às agências de fomento possibilitarão continuidade a estas pesquisas, inicialmente a mesma foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Laboratório PASIQUIBAC, sob a responsabilidade e coordenação do Prof. Cristiano G. Moreira, que finaliza “Estamos sempre abertos a novas colaborações e dispostos a melhor entender estes detalhes da patologia de enterobactérias, bem como estudar a prevalência destas amostras bacterianas que apresentam risco à nossa sociedade”.

Com informações da Unesp