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Estudo indica subnotificação de mortes por Covid entre pessoas pobres no Brasil

Publicado em 12 agosto 2020

Por Júlio Bernardes | Jornal da USP

Trabalho de pesquisadores brasileiros e do Reino Unido aponta aumento exponencial de casos da SRAG durante a pandemia do novo coronavírus

Um estudo elaborado entre pesquisadores do Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) levando-se em conta os três primeiros meses (março a maio) de disseminação do novo coronavírus (Covid-19) pelo mundo mostra que é bem real a possibilidade de uma enorme subnotificação de casos no Brasil, sobretudo envolvendo a população mais pobre.

O trabalho se baseia no fato de que houve um aumento de 2,3 vezes nos registros de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) com origem desconhecida no Brasil desde que a pandemia se instalou por aqui, em comparação com os casos confirmados de Covid-19, e em outros anos quando não havia a doença. O trabalho ainda diz que a pandemia evoluiu mais rapidamente no Brasil do que na Europa e mostra qual foi a porta de entrada do novo vírus em terras brasileiras.

Com relação à subnotificação, os pesquisadores observaram que as pessoas que recebem diagnóstico de Covid-19 vivem em regiões onde o Censo aponta que há renda mais elevada do que as diagnosticadas apenas com SRAG no primeiro mês da epidemia no Brasil.

“O resultado sugere que o número de casos notificados pode estar substancialmente subestimado, particularmente em regiões de menor nível socioeconômico. Para (se chegar a essa conclusão), foi feita uma análise geoespacial na região metropolitana de São Paulo, que incluiu a geolocalização dos casos de Covid-19 e comparou com a renda média das pessoas de acordo com sua região censitária (do censo demográfico)”, ressaltou William Marciel de Souza, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, primeiro autor do artigo.

Sobre a forma como o vírus se espalhou, os pesquisadores também trabalharam para chegar à conclusão de que a disseminação por aqui foi mais rápida do que na Europa.

“Com base nesse cálculo (levando-se em conta o número básico de reprodução conhecido como R0), foi comparado o do Brasil e de outros países muito afetados pela Covid-19, como Espanha, França, Reino Unido e Itália. Observou-se que no Brasil duas pessoas infectadas transmitiam o vírus para outras seis, e nos países europeus, duas pessoas transmitiam para outras cinco. Este resultado indica que a epidemia no Brasil foi mais acelerada no primeiro mês”, continuou Marciel de Souza.

Porta de entrada

O outro fator estudado pelos pesquisadores da CADDE foi relacionado à porta de entrada do novo coronavírus no Brasil, com base no histórico de viagens dos pacientes no primeiro mês da pandemia. Os casos importados vieram principalmente dos Estados Unidos (28,6%), Itália (24,4%), Reino Unido (10,5%) e Espanha (8,3%).

“As primeiras notificações da Covid-19 foram registradas nos maiores centros populacionais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, que possuem aeroportos internacionais, que foram provavelmente a porta de entrada do vírus por aqui. Em seguida, observou-se a disseminação da doença para municípios do interior do Brasil, afirmopu o professor da FMRP.

Para ele, essas três situações reforçam as medidas de testagem em massa, além da necessidade de distanciamento social para que se controle o problema no país. “Estas informações podem ser subsídios importantes para a tomada de decisões dos responsáveis de saúde pública. A pesquisa mostra uma necessidade urgente de diagnóstico universal, rastreamento dos contactantes e medidas coordenadas de distanciamento social para conter a transmissão do vírus”, completou.

A pesquisa foi uma iniciativa do CADDE e contou com um equipe multidisciplinar de virologistas, epidemiologistas, clínicos, sociólogos e estatísticos de instituições brasileiras (USP, Ipea, UFMG, Fiocruz, UFGD, Famerp) e estrangeiras, como a Universidade de Oxford e o Imperial College London (Reino Unido).

O trabalho foi desenvolvido com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e apoio das agências de financiamento internacional britânicas MRC e Wellcome Trust. O artigo intitulado Epidemiological and clinical characteristics of the Covid-19 epidemic in Brazil foi publicado na revista especializada Nature Human Behaviour, em 31 de julho.