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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Estudo indica cura por tecido da gengiva

Publicado em 09 fevereiro 2010

Por Ligia Ligabue

Um trabalho iniciado há seis anos na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) começa a render frutos. A pesquisa coordenada pelo professor doutor Carlos Ferreira dos Santos, professor associado da disciplina de farmacologia da FOB/USP, descobriu conjunto de proteínas existentes no tecido do sangue da gengiva e que atua no controle de doença periodontal - que provoca o amolecimento e perda de dentes.

O estudo recebeu destaque como descoberta científica da revista norte-americana Journal of Periodontology, no ano passado. Os estudos continuam e, de acordo com Santos, caminham para o desenvolvimento do tratamento da doença periodontal, que atinge a gengiva e pode comprometer a sustentação dos dentes.

Segundo Santos, a pesquisa teve início há seis anos e foi fruto da tese de doutorado de Ana Elisa Akashi, que foi orientada pelo professor. No estudo foi descoberto que um conjunto de proteínas existentes no sangue, chamado sistema renina-angiostensina (SRA), que atua no controle da pressão arterial, também está presente no tecido da gengiva. Essa descoberta foi destacada pela revista especializada norte-americana.

De acordo com Santos, em suas teses, os estudantes testarão algumas hipóteses, entre elas, a busca de evidências do papel da SRA durante o início e evolução da doença periodontal - que pode amolecer o tecido de sustentação e levar o paciente a perder seus dentes. "Há evidências de que drogas utilizadas para baixar a pressão arterial atenuam a doença. Isso foi verificado em animais, mas ainda não foi publicado", ressalta Santos. "Agora, queremos ver o que acontece em humanos. Se também ocorre esse efeito protetor na gengiva humana", observa.

Próximas etapas

Por isso, a pesquisa continua com a interação com médicos, já que o medicamento para controle de pressão é prescrito por esses especialistas. Esta semana, o doutor norte-americano Daniel Thomas Brozoski, juntou-se ao grupo para também auxiliar o trabalho.

Ele permanecerá no laboratório da disciplina de farmacologia, sob supervisão do professor Santos, durante dois anos com bolsa de pós-doutoramento concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Porém, ainda há um longo caminho até o desenvolvimento do tratamento para a doença periodontal. Uma das perspectivas a ser analisada é a maneira como o remédio será aplicado. "Outra possibilidade que vislumbramos é o desenvolvimento de sistemas de liberação lenta de medicamentos apenas nos tecidos bucais", observa Santos, lembrando que isso já existe na aplicação de flúor.

O pesquisador destaca dessa forma, a absorção sistêmica do remédio que afeta o SRA diminuiria. E, consequentemente atenuaria os seus efeitos colaterais. "Com estes sistemas de liberação lenta de medicamentos, pacientes que não têm pressão alta, mas que têm a doença periodontal, também poderiam se beneficiar com as nossas descobertas", ressalta.

"Mas, temos que ter muita certeza, muito cuidado, pois será algo que pode beneficiar milhões de pessoas", pondera. Apesar dos resultados promissores, Santos avalia que é necessário realizar muitos experimentos para testar todas as hipóteses formuladas e chegar a uma aplicação clínica.

Doença periodontal

É uma doença infecto-inflamatória que atinge os tecidos de suporte (gengiva) e sustentação (cemento, ligamento periodontal e osso) dos dentes.

Ela é caracterizada pela perda de inserção do ligamento periodontal e destruição dos tecido ósseo do local.

A evolução do quadro leva à perda dos dentes, pois o comprometimento e a destruição destas estruturas levam ao amolecimento dentário.