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O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Estudo genético poderá prevenir doenças de risco

Publicado em 27 fevereiro 2002

Por Lúcia Cunha Ortiz
Em estudo publicado na revista científica Nature (www.nature.com), pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, determinaram as diferenças gênicas entre os tumores cerebrais em especial os meduloblastomas, que crescem no ventrículo medular (cavidades do cérebro) onde se aloja o líquido cefalorraquidiano causando a morte de pelo menos 20% dos pacientes infantis com câncer. Estudos semelhantes realizados pelo Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer (www.ludwig.org.br), em São < Paulo, apresentaram resultados significativos na busca e identificação dos genes presentes nas células cancerosas da mama. O pesquisador Flávio Henrique da Silva, biólogo do laboratório de biologia molecular da (UFSCar), explica que o que os Harvad fizeram foi associar o padrão de expressão gênica detectado pela presença do RNA mensageiro, molécula molde para a síntese de proteínas, com o desenvolvimento do tumor. Para tanto foram analisados 99 pacientes com tumor cerebral, dos quais foram isolados o RNA mensageiro que sintetiza DNA a partir dele, o chamado DNA complementar (cDNA) que é usado como sonda para "hibridizar" com os 6.800 genes dispostos em uma placa de vidro. O arranjo obtido através desse procedimento é conhecido como Microarray. A concentração desta sonda, indica uma menor ou maior presença do RNA, e dependendo de sua concentração, o respectivo sinal de fluorescência no detector será diferente. Fluorescências em tons de vermelho indicam maior freqüência, e as de tons azul, menor, facilitando dessa maneira a determinação de quais genes são freqüentes. Depois disso, foi feita a associação desse padrão de freqüência com a sobrevida de pacientes, o que permitiu associar a freqüência de determinados genes com a duração da sobrevida. Segundo Silva, "esse tipo de abordagem é muito importante porque permitirá diagnosticar com precisão e com maior rapidez o tipo de câncer, e assim estabelecer qual o melhor tratamento para.os diferentes tumores, descobrindo marcadores tumorais e possíveis alvos para o ataque à doença". Em 1998, o Instituo Ludwig, coordenado pelo pesquisador Andrew Simpson, lançou um programa para descoberta gênica e compilação, o chamado Fapcep/LICR-HCGP. Em 1999 foram iniciadas as pesquisas e as seqüências colocadas à disposição da comunidade científica através de bancos de dados públicos, A técnica utilizada é denominada ORESTES, (do inglês, Open Reading Frarne Expresscd Sequcnces Tags), que colocou o Instituto brasileiro entre os maiores do mundo em número de seqüências geradas (veja imagem), mais de um milhão. Assim, o Projeto Genoma Humano brasileiro ficou atrás apenas do americano. Otávia L. Caballero, pesquisadora do Instituto Ludwig, fala sobre as seqüências geradas com a estratégia ORESTES, técnica de geração de fragmentos de cDNA, que preferencialmente são geradas a partir da porção central das regiões codificadas, e estão sendo analisados, e identificados genes previamente anotados. As seqüências de DNA estão sendo analisadas "in silico", ou seja, no computador. Como exemplo, Caballero cita o trabalho desenvolvido por Maarte Leerkcs, orientado por Sandro de Souza do laboratório de biologia computacional do Instituo Ludwig. Nele. Leekes desenvolveu um protocolo eletrônico para identificar genes ligados ao câncer de mama, onde foram identificados 99 genes candidatos a essa associação. Desse resultado, 28 já haviam sido ligados aos tumores em outras pesquisas. Submetidos aos protocolo eletrônico, 11 genes foram testados em laboratório sendo que 9 se mostraram realmente em atividade acima do normal nas células cancerosas dos pacientes, incluindo alguns genes que ainda não haviam sido relacionados à essa doença. Em outra pesquisa liderada por -Andrew Simpson, envolvendo 156 pacientes com câncer inicial de mama e com sintomas bem parecidos, verificou-se que, após o tratamento, algumas pacientes apresentavam reincidência, enquanto outros ficaram curados. Para esse caso foram estudados dois marcadores que identificam presença no grupo reincidente, facilitando assim a decisão na busca de terapias mais efetivas para pura cada caso. Para Caballero, esse tipo de estudo irá possibilitar a predição genética de riscos individuais de doenças tão ou mais graves que o câncer de mama. Fazendo um diagnóstico sobre esses estudos, Caballero conclui: "O estudo genético na prevenção de doenças de risco, permitindo um diagnóstico precoce e a facilidade de poder escolher tratamentos mais ou menos agressivos, possivelmente estará ao alcance dos médicos na próxima década, assim como o desenvolvimento de drogas tendo como alvo moléculas alteradas". Baseado em: Letters to Nature, Nature 415 (24/02/02 ) Lúcia Cunha Ortiz é repórter da revista Com Ciência (Labjor/SBPC) - www.comciencia.br