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Correio Popular (Campinas, SP) online

Estudo feito em campineiro mapeia origem da zika

Publicado em 18 fevereiro 2016

Por Maria Teresa Costa

O sequenciamento do material genético do zika vírus isolado de uma pessoa que desenvolveu a doença em Campinas, em uma transfusão de sangue, e do líquido amniótico de duas gestantes que tiveram bebês com microcefalia na Paraíba, indica que a linhagem do vírus que está circulando no Brasil é muito próxima da que levou ao surto da doença ocorrido na Polinésia Francesa, no Pacífico Sul, e na Ilha de Páscoa em 2013 e 2014.

“Conhecer o genoma do vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti é um dos primeiros passos para produzir reagentes imunológicos e anticorpos recombinantes que possam ser usados em métodos diagnósticos”, disse o virologista Renato Pereira de Souza, do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, que coordenou a análise do genoma do zika vírus extraído do paciente de Campinas.

Souza explicou que o fato de a linhagem encontrada no Brasil ser bastante próxima a da que circulou nas duas regiões em 2013 e 2014 não significa que o vírus tenha sido introduzido diretamente da Polinésia Francesa ou da Ilha de Páscoa. Ele pode ter “viajado” para outros locais e de lá chegado ao País. Mas é bem provável que tenha chegado ao Brasil em uma única vez. O avanço da zika levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a emitir um alerta de emergência global.

O sequenciamento do vírus isolado em Campinas identificou 10,6 mil nucletídeos, que são os blocos construtores dos ácidos nucleicos, as grandes moléculas encontradas em todas as células vivas e que constituem os genes, responsáveis pelo armazenamento, transmissão e tradução das informações genéticas. Na fita formada por esses ácidos foram encontrados apenas seis genes, capazes de produzir 10 tipos de proteínas. Muito semelhante a composição do vírus daquelas regiões do Pacífico Sul.

O paciente que recebeu transfusão de sangue com zika vírus era de Cosmópolis. Ele foi internado Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp após sofrer politraumatismo (foi baleado) e morreu em maio, vítima dos ferimentos. Ele ficou internado no HC entre fevereiro e maio de 2015 e nesse período recebeu ao menos 100 transfusões de sangue. Ainda internado, apresentou um quadro infeccioso e queda de plaquetas. Um médico do HC pediu o exame para dengue e enviou as amostras para o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, no final de dezembro passado. O resultado deu negativo para dengue, mas positivo para zika.

A partir do resultado, o Hemocentro e o Núcleo de Vigilância Epidemiológica da Unicamp passaram a fazer o rastreamento de bolsas, retroativas ao período de um mês. Dos 18 doadores identificados, um apresentou resultado positivo para o vírus zika. O Hemocentro entrou em contato com o doador e obteve a informação de que ele começou apresentar os sintomas (febre, manchas vermelhas no corpo, coceira, dores articulares, olhos vermelhos) no dia 9 de abril, após a doação. Identificaram que ele não havia saído de Campinas, que residia na região Sudoeste e trabalhava na região Sul. O resultado foi comunicado pelo Instituto Adolfo Lutz à Secretaria Municipal de Campinas no dia 28 de janeiro, confirmando o primeiro caso de zika contraído em Campinas.

Paraíba

Já sequenciamento genético do zika encontrado no líquido amniótico de duas gestantes mães de bebês com microcefalia na Paraíba, coordenado pelo virologista Amilcar Tanuri, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chegou a mesma conclusão de parentesco dos vírus. Segundo Tanuri, a diferença entre as linhagens é muito pequena — cerca de 20 nucleotídeos e apenas 1 dos 3,5 mil aminoácidos, conforme informou à Revista Fapesp. Essa diferença mínima, afirmou, mostra que o vírus está se espalhando rapidamente e que chegou ao Brasil em uma única vez.

O genoma do zika vírus sequenciado no Rio, segundo Tanuri, é muito próximo do vírus da dengue, especialmente o sorotipo 4, o que traz um grau a mais de dificuldade para a produção de testes diagnósticos que possam identificar especificamente o zika.