Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes) online

Estudo é aposta contra o câncer

Publicado em 25 novembro 2007

Exatamente cinco anos depois de causar alvoroço e entusiasmo no mundo todo, pelo grande passo que representou na corrida internacional pela cura do câncer, um composto medicinal à base de paládio desenvolvido pelo químico Antonio Carlos Fávero Caires, da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), está prestes a entrar na fase clínica I, a primeira de quatro outras fases previstas de testes com seres humanos, antes de chegar às prateleiras das farmácias. A substância, anunciada em novembro de 2002, também está bem perto de conseguir a sua primeira patente internacional, na Europa.

A pesquisa desenvolvida nos laboratórios do Centro interdisciplinar de Investigação Bioquímica (CIIB), que já consumiu cerca de US$ 2 milhões, representa uma esperança a muitos pacientes que sofrem com câncer. Em testes com camundongos, utilizando um modelo tumoral altamente invasivo, o composto desenvolvido por Caires conseguiu inibir a metástase, ou seja, que a doença se espalhasse pelo corpo do animal, além de destruir as células malignas. Em uma população de 60 indivíduos, observou-se que 80% das cobaias tiveram melhora no quadro de saúde depois que passaram a receber doses do composto químico.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o projeto vai ganhar um novo impulso a partir do próximo ano, devido a acordos de cooperação firmados entre pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e UMC. O órgão federal, ligado ao Ministério da Saúde, incluirá o trabalho de Caires em seu Programa de Desenvolvimento de Drogas (PDD). Esse programa é financiado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e deverá ajudar a pesquisa a passar da fase pré-clínica para a fase clínica.

"Se conseguirmos concluir, através da parceria, mais esta etapa do trabalho, teremos ultrapassado um grande 'gargalo' no campo de desenvolvimento de drogas", observa Caires. O Inca já testou o novo composto em três linhagens de câncer de pulmão, para as quais ainda não existem droga comercial ou tratamento, com resultados altamente positivos. Há uma outra grande vantagem na droga descoberta na UMC em relação às usuais, feitas à base de platina: sua seletividade ao atacar apenas as células doentes, poupando as saudáveis. "O mal dos tratamentos existentes atualmente é que eles atacam indistintamente tanto as células cancerígenas quanto as normais", diferencia o químico.

A nova esperança contra o câncer é tão inédita que está muito próxima de conquistar a sua primeira patente internacional. Juízes do PCT internacional (tratado de Cooperação de patentes) com sede em Genebra, na Suíça, acabam de emitir um parecer julgando o processo desenvolvido pelo CIIB como "inovador e inventivo" em nível internacional. "Isso significa que ele supera a última tecnologia desenvolvida na área e já em uso", traduz Caires. O documento é o primeiro passo para o Escritório de Patentes Europeu reconhecer os direitos do cientista brasileiro sobre a descoberta.

Trabalho idêntico é tocado por escritórios especializados nos outros quatro continentes: África, América, Ásia e Oceania. "A cada semana, recebo quilos e mais quilos de documentos para responder", diz o pesquisador. Apesar de longo, o caminho não desanima Caires: "Quando esse composto estiver salvando vidas, teremos a nossa recompensa".