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Secretaria de Ensino Superior (SP)

Estudo do Bird mostra que Brasil perde em inovação para países como China e Índia

Publicado em 15 setembro 2008

De acordo com os autores, o Brasil tem muita produção científica (artigos) e poucas patentes

O Brasil está ficando para trás na comparação com outros países em desenvolvimento quando se trata de produzir conhecimento novo e de convertê-lo em resultados práticos. A conclusão é de um estudo inédito do Banco Mundial (Bird), divulgado no último dia 11 em seminário promovido pela Fundação Lemann. O estudo aponta os fatores da deficiência brasileira na área: ensino básico precário, que resulta em profissionais pouco qualificados, universidades distantes do setor produtivo e voltadas mais para conhecimento teórico do que prático e tradição de importar e adaptar tecnologias, em vez de criá-las.

"O Brasil está publicando pesquisas em um ritmo bastante aceitável, tendo hoje 2% dos artigos científicos de revistas e jornais internacionais. Mas o número de patentes é baixo, 0,18% das patentes internacionais são brasileiras", explica Alberto Rodriguez, um dos principais autores. ela primeira vez na história do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) uma universidade ocupa o topo do ranking de registros de patentes no país. No entanto, a recordista nacional em patentes é justamente uma universidade: a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com 191 pedidos de 1999 a 2003. Em segundo lugar ficou a Petrobras, com 177, seguida pela Arno, com 148.

"Há a necessidade de que a pesquisa feita na universidade e nos laboratórios seja mais voltada para aplicações práticas e menos para a teoria. E há excessiva falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento por parte do setor privado, que precisa se envolver mais."

Segundo ele, enquanto outros países em desenvolvimento, como China, Índia e Coréia, estão se transformando em produtores de conhecimento graças a investimentos na formação de pesquisadores em áreas tecnológicas - e, com isso, alavancando suas economias -, o Brasil segue dependente de seus bens naturais, crescendo em um ritmo menor. "Apenas 19% dos estudantes de ensino superior no Brasil estão nas áreas de ciências e engenharias. No Chile são 33% e, na China, 53%", afirma o relatório.

De acordo com levantamento feito pelo Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Universidade estadual Paulista (UNESP) com base em dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), as universidades hoje representam 0,78% do total de depositantes de patentes no país - que conta com cerca de 50 mil pesquisadores.

A assessora da pró-reitoria de pesquisa da UNESP, Tânia Regina de Luca, reconhece a necessidade de as universidades investirem em inovação para a sua incorporação pelo setor produtivo, além da transformação do conhecimento científico em conhecimento técnico e gerencial. "Não podemos negar que isso contribui para o crescimento econômico do País", avalia. "Temos de manter relações próximas com as indústrias, mas não podemos deixar de lado a autonomia das universidades, a nossa preocupação é com o conhecimento pelo conhecimento, com a pesquisa livre, e às vezes a empresa está mais preocupada com a gestão do conhecimento para gerar lucro."

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), um dos motivos que explicam o descompasso entre indústria e academia é a falta de doutores trabalhando em pesquisa nas empresas. "A universidade muitas vezes não tem com quem dialogar na empresa porque ela não faz pesquisa e há poucos doutores", avalia Cruz.

"Concordo com o relatório quando ele aponta que precisamos ter algumas universidades de excelência, com padrão de pesquisa internacional, e isso está na contramão da nossa política educacional, que não valoriza a excelência e prega a homogeneização", afirma.

Petrobrás e Embraer são exemplos positivos

Na avaliação do Banco Mundial, o Brasil tem exemplos positivos em termos de produção de conhecimento tecnológico avançado, que merecem destaque internacional. O pesquisador Alberto Rodriguez cita o caso da Embraer e da Petrobrás, empresas nacionais que, segundo ele, têm feito esforços para criar conhecimento novo. O problema é que esses casos não são suficientes para que o Brasil cresça fortemente. Além de serem poucos, de acordo com Rodriguez, não é possível perceber seu impacto nas cadeias produtivas. "A gente imagina que a Petrobrás produza um deslanche de inovação em todas as suas empresas distribuidoras. Isso acontece em algumas, mas não em todas." (M.R.)

Adaptado de O Estado de S. Paulo.