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Estudo define valores normativos para psicodiagnóstico de Rorschach com adolescentes

Publicado em 12 fevereiro 2015

Por Diego Freire, da Agência FAPESP

Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo (USP) estabeleceu normas e referências para o psicodiagnóstico de Rorschach que podem ser aplicadas no processo de avaliação psicológica e no atendimento clínico de adolescentes no Estado de São Paulo.

Quase um século após ter sido desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach (1884-1922), o Método de Rorschach é um dos testes psicológicos mais utilizados entre psicólogos de diversas abordagens terapêuticas, tanto na clínica como na pesquisa.

Ainda não havia no Brasil normas para o psicodiagnóstico de adolescentes baseado na abordagem do sistema francês Escola de Paris de aplicação do teste.

A pesquisa "Dados normativos brasileiros do Rorschach na adolescência: atlas e dicionário", conduzida por Maria Abigail de Souza com apoio da FAPESP, forneceu parâmetros para que profissionais adotem a técnica considerando os dados normativos apresentados por 108 adolescentes paulistas, de 12 a 17 anos, submetidos ao teste.

A fim de definir valores específicos para essa população em São Paulo, os pesquisadores estabeleceram percentuais que diferenciam as respostas mais frequentes das raras e os padrões das percepções, de acordo com os diferentes pontos de análise nas manchas.

A pesquisa dará origem ao livro O Método de Rorschach em Adolescentes Brasileiros: Atlas e Dicionário. A publicação será disponibilizada aos profissionais que aplicam o teste. A iniciativa atende a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que determina que testes estrangeiros de qualquer natureza “devem ser adequados a partir de estudos realizados com amostras brasileiras, considerando a relação de contingência entre as evidências de validade, precisão e dados normativos com o ambiente cultural onde foram realizados os estudos para sua elaboração”.

Aspectos da personalidade

O Método de Rorschach é um teste projetivo: ao tentar organizar uma informação ambígua, sem um significado claro (como as manchas), o indivíduo projeta aspectos da sua personalidade.

“Trata-se de uma técnica em que se solicita ao indivíduo que diga o que vê em dez estímulos ambíguos, construídos como manchas bilaterais em torno de um eixo mediano. O conjunto de respostas elaboradas, denominado Protocolo de Rorschach, evidenciará um processo contínuo em que participam percepção e projeção e será material de estudo para o psicólogo desenvolver a compreensão do funcionamento psíquico”, explicou Souza.

Não há respostas certas ou erradas, mas sim mais semelhantes ao estímulo apresentado e mais frequentes em determinada amostra de uma população.

“É importante observar bem como as respostas foram dadas, para que o trabalho de cotação, depois da aplicação em um sujeito, seja o mais fiel possível. O Rorschach está muito presente no imaginário popular, mas de forma equivocada, como se o diagnóstico fosse feito sem critérios, de forma meramente subjetiva”, enfatizou Souza.

O psicólogo avalia a percepção do indivíduo, considerando, entre outros fatores, se a mancha foi vista como um todo ou em partes, a que aspectos foi dada maior importância (se à forma, à cor ou a uma impressão de movimento), qual a natureza do conteúdo descrito (se humano, animal, vegetal ou inanimada) e a originalidade ou banalidade da resposta – ou seja, se a percepção é comum ou rara na população da pessoa que está sendo avaliada.

“Por isso, é de extrema importância que sejam definidas normas para a validade do teste em diferentes populações, considerando características relacionadas ao meio cultural, configurando-se alguns padrões normativos para determinado grupo”, disse a pesquisadora.

A partir das respostas, o profissional procura obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo, considerando sua forma de perceber o estímulo, a atenção, o julgamento crítico, o conteúdo verbal, o simbolismo e a linguagem utilizada.

“As projeções fornecem informações importantes ao psicólogo, favorecendo a apreensão da dinâmica do conjunto da personalidade. A carência de normas adequadas aos diferentes contextos em que o teste é aplicado dificulta essa apreensão”, destacou.

Estatística

As respostas foram coletadas e classificadas em um banco de dados digital. Os pesquisadores realizaram reuniões semanais para que a cotação das respostas se desse de modo harmônico, seguindo os mesmos procedimentos e critérios de aplicação e classificação.

O tratamento estatístico dos dados foi realizado pelo psicólogo especialista em Métodos Quantitativos do IP, Vinícius Frayze David, que utilizou o programa IBM SPSS para gerar as estatísticas descritivas da amostra, avaliando ainda diferenças devidas ao sexo, à faixa etária dos adolescentes e ao nível educacional dos pais.

“Foi um trabalho minucioso de cotação de formas e de estabelecimento de valores normativos decorrentes das respostas dos adolescentes, que serão úteis não só para o conhecimento psicológico do cliente pelo profissional, mas também para os jovens que demandem um psicodiagnóstico clínico, com o objetivo de melhor orientar seu encaminhamento e tratamento psicológico”, disseSouza.

O livro com os resultados obtidos será acompanhando por um dicionário das respostas mais frequentes e um atlas com a localização dos pontos


Agência FAPESP