Apesar da recuperação ao longo do tempo, a floresta ainda não é a mesma com uma margem inferior de espécies que varia de 31,3% a 50,8%, dependendo se foi mais ou menos atingida.
Apesar da recuperação ao longo do tempo, a floresta ainda não é a mesma com uma margem inferior de espécies que varia de 31,3% a 50,8%, dependendo se foi mais ou menos atingida.
Um estudo conduzido no município de Querência, em Mato Grosso, uma das áreas da Amazônia mais impactadas pelo desmatamento nas últimas décadas, analisou os efeitos das secas e das queimadas em regiões sob forte pressão da atividade agrícola.
Após 22 anos de pesquisa, os resultados contrariam a chamada tese da savanização, defendida desde os anos 1990, que previa a substituição da floresta por vegetação típica de savana, como gramíneas e arbustos. Em vez disso, os cientistas observaram que áreas degradadas pelo fogo e pela seca voltaram a ser ocupadas por espécies florestais.
Segundo o pesquisador Leandro Maracahipes, da Universidade de Yale, apoiado pelo Instituto Serrapilheira, a floresta demonstrou alta capacidade de regeneração. No entanto, essa recuperação depende de condições específicas, como a interrupção dos incêndios e a preservação de áreas de vegetação nativa próximas, que funcionam como fonte de sementes e abrigam animais responsáveis pela dispersão.
A pesquisa teve início em 2004, em uma área de 150 hectares, inicialmente mapeada para identificar a fauna e a flora originais. O território foi dividido em três partes de 50 hectares: duas sofreram queimadas — uma a cada três anos e outra anualmente até 2010 — enquanto a terceira permaneceu intacta.
Logo após os incêndios, foi registrado um empobrecimento significativo da biodiversidade. A perda de espécies chegou a 20,3% nas áreas queimadas todos os anos e a 46,2% nas queimadas periódicas. Em 2012, uma tempestade ainda agravou os danos, provocando a morte de cerca de 5% das árvores.
Com o passar do tempo, no entanto, a vegetação começou a se recuperar. O fechamento do dossel reduziu a presença de gramíneas, especialmente nas bordas, e o ambiente voltou a apresentar características mais próximas de uma floresta. Ainda assim, a recomposição não foi completa: a diversidade de espécies permanece entre 31,3% e 50,8% menor do que a original.
Os pesquisadores destacam que a floresta regenerada apresenta maior vulnerabilidade. As novas espécies tendem a ter madeira menos densa e casca mais fina, o que as torna mais suscetíveis a novos distúrbios, como incêndios e eventos climáticos extremos.
Além disso, as mudanças climáticas, com secas mais intensas, aumentam a pressão sobre essas áreas em recuperação. Embora as espécies consigam manter o acesso à água durante o processo de regeneração, os cientistas alertam para a necessidade de ampliar a restauração de áreas degradadas.
Nesse contexto, a região antes conhecida como “Arco do Desmatamento” passa a ser vista também como “Arco da Restauração”, destacando o potencial de recuperação da floresta, desde que haja condições adequadas de conservação e manejo.