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Estudo da USP revela álcool e drogas em mais da metade das mortes violentas no Brasil (131 notícias)

Publicado em 30 de maio de 2026

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Um estudo da USP aponta que álcool ou drogas estão presentes em 53% das mortes violentas no Brasil, revelando um cenário complexo.

Um estudo recente conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) trouxe à tona um dado alarmante sobre a realidade da violência no Brasil: mais da metade (53%) das vítimas de mortes violentas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo. A pesquisa, que analisou 3.577 casos em Belém (Norte), Recife (Nordeste), Vitória (Sudeste) e Curitiba (Sul), oferece um panorama crucial sobre a complexa relação entre o uso de substâncias psicoativas e a letalidade no país, com implicações significativas para a saúde pública e a segurança.

Os resultados, divulgados na revista Toxics , são fruto de um esforço para padronizar e comparar dados sobre o papel dessas substâncias em mortes por causas externas. A iniciativa busca subsidiar políticas públicas mais eficazes, considerando as particularidades regionais de um país de dimensões continentais.

Metodologia e o alcance da pesquisa da USP

O biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP) e primeiro autor do artigo, destacou que o objetivo central foi gerar dados robustos e comparáveis. Para isso, as análises laboratoriais incluíram não apenas álcool e drogas ilícitas, mas também medicamentos psicoativos, seguindo protocolos padronizados.

A equipe de pesquisa adotou rigorosos cuidados operacionais para minimizar a degradação das amostras, um fator crítico, especialmente para o álcool, que pode mascarar os resultados se não for armazenado adequadamente. O estudo foi viabilizado por um convênio firmado em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), visando mapear essa relação.

As quatro capitais foram estrategicamente selecionadas com base na magnitude do problema, considerando as taxas de mortalidade por causas externas e sua relevância como pontos na rota do tráfico de drogas. A coleta de dados ocorreu entre 2022 e meados de 2024, com equipes treinadas para colher amostras de sangue durante necrópsias, que eram então congeladas e enviadas para o laboratório da USP para análise.

O perfil das vítimas e a presença de substâncias em mortes violentas

A pesquisa traçou um perfil das vítimas que reflete a realidade da mortalidade violenta no Brasil: 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais, e 67% morreram por homicídio. Em comparação, acidentes de trânsito representaram 15% das mortes e suicídios, 9%. A distribuição étnica também variou, com maior porcentagem de indivíduos pardos no Norte e Nordeste, e brancos no Sudeste e Sul.

Entre todas as vítimas, 53% testaram positivo para ao menos uma substância psicoativa. As mais detectadas foram cocaína (30%), álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). A cocaína predominou significativamente nos casos de homicídios, enquanto o álcool foi a substância mais encontrada em mortes por acidentes de trânsito. Já os benzodiazepínicos prevaleceram em suicídios, levantando questões sobre uso medicamentoso e vulnerabilidade.

Entre o risco e a causalidade: o debate sobre a violência

Embora o estudo seja transversal — uma “fotografia” da realidade em um dado momento — e não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito, ele revela “sinais consistentes de risco”. A presença elevada de cocaína em homicídios, por exemplo, é atribuída por Bombana não apenas ao uso agudo da substância, mas ao contexto social e econômico do mercado ilegal, ao ambiente de tráfico e à chamada violência estrutural.

A análise dos registros policiais associados aos homicídios mostrou que cerca de 85% das mortes foram causadas por ferimentos de arma de fogo. Este dado é contextualizado pelo pesquisador com a flexibilização das regras para compra e porte de armas no período da coleta, um cenário que, segundo ele, contribui para o padrão de letalidade observado. No caso dos suicídios, a presença de benzodiazepínicos sugere que o uso dessas substâncias pode atuar como um gatilho para a concretização da ideação suicida.

Em um sentido mais amplo, o consumo de substâncias pode levar o indivíduo a se expor a ambientes de maior periculosidade, como em homicídios, ou a agir de forma mais arriscada, como em acidentes de trânsito, configurando um ciclo de vulnerabilidade e violência.

Desafios regionais e o caminho para novas políticas

O estudo também evidenciou a heterogeneidade do problema no Brasil. Recife apresentou maior prevalência de mortes associadas ao álcool, enquanto Vitória e Belém tiveram maior concentração de mortes ligadas a drogas ilegais. Curitiba, por sua vez, mostrou o álcool preponderando sobre as drogas ilegais. Essa diversidade reflete as especificidades sociais, culturais, sanitárias e de segurança de cada região.

Para Bombana, essa heterogeneidade deve pautar intervenções sob medida, subsidiando políticas públicas focadas na realidade local. O pesquisador defende que o enfrentamento do problema seria mais efetivo se centrado na saúde pública e na redução de danos, em vez de na repressão. Ele cita o exemplo de Portugal, que, após a descriminalização, observou uma diminuição no número de usuários, pequenos delitos, homicídios e overdoses, embora reconheça as enormes diferenças contextuais entre os dois países. O estudo foi conduzido pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina (FM) da USP, com apoio da FAPESP.