Mais da metade das vítimas de mortes violentas em Belém, Recife, Vitória e Curitiba tinham álcool ou drogas no organismo, revela estudo da USP. A pesquisa analisou 3.577 casos e aponta a necessidade de políticas públicas focadas na realidade de cada região.
Estudo da USP revela que 53% das vítimas de mortes violentas em quatro capitais tinham álcool ou drogas no organismo.
A pesquisa analisou 3.577 casos em Belém, Recife, Vitória e Curitiba, representando as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.
Homens representam 90% das vítimas, com 67% dos óbitos por homicídio e 15% por acidentes de trânsito.
Cocaína predomina em homicídios, álcool em acidentes de trânsito e benzodiazepínicos em suicídios.
A pesquisa não estabelece causa e efeito, mas aponta sinais consistentes de risco e associações entre substâncias e tipos de morte.
Diferenças regionais no padrão de ocorrências fatais sugerem a necessidade de intervenções e políticas públicas sob medida.
O estudo defende que o enfrentamento do problema seja centrado em saúde pública e redução de danos, não em repressão.
Estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) constatou que mais da metade (53%) das vítimas de mortes violentas ocorridas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo em análises feitas logo após o óbito. Foram avaliados 3.577 casos em Belém , Recife , Vitória e Curitiba , representando, respectivamente, as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. Os resultados foram divulgados na revista Toxics.
“O objetivo foi produzir dados padronizados e comparáveis sobre o papel de substâncias psicoativas em mortes por causas externas no Brasil”, conta o biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e primeiro autor do artigo.
As análises laboratoriais incluíram álcool, um conjunto de drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, com protocolos padronizados. A equipe também adotou cuidados operacionais para reduzir perdas por degradação. “Principalmente no caso do álcool, se a amostra não for armazenada de maneira adequada, a substância pode se degradar e mascarar o resultado”, explica o pesquisador.
“A associação entre a substância e a morte violenta no caso de homicídio é muito complicada, porque a gente está olhando só para a vítima, não está olhando para o agressor. Ainda assim, é possível atribuir a presença elevada de cocaína não apenas ao uso agudo da substância, mas ao contexto social e econômico em que opera o mercado ilegal, ao ambiente de tráfico, venda e compra que caracteriza o que chamamos de violência estrutural”, argumenta Bombana.
Bombana conta que o estudo foi viabilizado a partir de um convênio firmado em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) para fazer o mapeamento da relação entre uso de álcool e drogas e mortes violentas. As quatro capitais foram escolhidas pela combinação de dois critérios: magnitude do problema e relevância estratégica.
“Essas cidades foram selecionadas com base na taxa de mortalidade por causas externas e por serem pontos estratégicos da rota de tráfico de droga”, explica o pesquisador. A escolha levou em conta também o papel do país como corredor de circulação internacional: “Muitas vezes a droga vem de outros países e passa pelo Brasil para ser distribuída para os Estados Unidos , Europa , África ”.
A coleta ocorreu entre 2022 e meados de 2024. “Montamos e treinamos equipes de quatro pesquisadores em cada uma dessas cidades para colher amostras de sangue durante necrópsias. Esse material era congelado e enviado para o nosso laboratório na USP, onde tínhamos uma equipe de cinco pesquisadores para fazer as análises”, explica Bombana.
O perfil das vítimas reflete a face mais recorrente da mortalidade violenta no país: 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% morreram por homicídio. Esse último dado é especialmente relevante quando comparado aos percentuais de morte por acidentes de trânsito (15%) e suicídios (9%). No Norte e Nordeste, a porcentagem maior foi de indivíduos caracterizados como “pardos”, segundo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto no Sudeste e Sul a maioria foi composta por “brancos”.
Estudo da USP mostra álcool ou drogas em 53% das mortes violentas no Brasil
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