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Estudo da USP cria mapa mundial da poluição do ar

Publicado em 09 setembro 2013

Da Agência Fapesp

Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) criaram um mapa da poluição atmosférica no mundo e descobriram que os países com piores índices são os com menor produção científica sobre o tema. Segundo os autores do estudo publicado na revista Nature Reviews Cancer, as nações em desenvolvimento contribuíram com apenas 5% das pesquisas já feitas sobre o tema.

Enquanto países desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá e a maioria dos europeus apresentaram os índices mais baixos de poluição, entre 5 e 20 microgramas de material particulado inalável por metro cúbico de ar (μg/m3), as nações em desenvolvimento, que estão concentradas na América do Sul, no Norte da África e nas regiões próximas à Índia e à China, ficaram nas faixas mais altas, entre 71 μg/m3 e 142 μg/m3. A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o poluente são valores abaixo de 20 μ/m3.

Para Lais Fajersztajn, principal autora da pesquisa, os resultados indicam que a ciência é uma ferramenta importante para mudar esse cenário e precisa ser fortalecida nos países em desenvolvimento por colaborações internacionais.

"Vale dizer que os dados ainda são subestimados, pois consideram regiões muito grandes e diversas. O Brasil, por exemplo, está na mesma faixa dos Estados Unidos, que é a mais baixa. Mas é uma média de todo o país, que tem lugares muito poluídos e outros pouco poluídos", afirmou Lais.

De acordo com Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP e orientador de Lais no estudo, o mapa da poluição mostra que as regiões com pior qualidade do ar são também as mais densamente povoadas.

Para fazer a comparação, o grupo cruzou os dados sobre densidade populacional e poluição atmosférica, disponíveis no site do Banco Mundial, com a base de dados Web of Science, índice de citações online mantido pela Thomson Reuters.

MAPA COMPARA ESTUDOS

O levantamento mostrou que as pesquisas sobre o impacto do ar poluído na saúde estão concentradas na América do Norte e na Europa, seguidas por China, Austrália, Brasil e Japão, e é quase inexistente na África, na Índia e nos demais países da América do Sul.

"Alguém pode argumentar que alguns desses países são tão pobres e têm tantos problemas que não teriam condições de produzir conhecimento científico sobre qualquer assunto. Então, para comparar, buscamos também as pesquisas publicadas sobre malária e sobre qualidade da água", explica.

Segundo Lais, os resultados mostraram que 20% das pesquisas sobre qualidade da água e 70% dos estudos sobre malária foram feitos nos países em desenvolvimento.

Os pesquisadores ressaltam ainda que o número de mortes prematuras causadas pela poluição do ar tende a superar o de mortes por malária e por falta de saneamento básico nos próximos anos. Segundo estimativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a exposição a poluentes vai se tornar a principal causa ambiental de morte prematura até 2050.

Câncer de pulmão 

Há evidências científicas que relacionam exposição à poluição a elevação no risco de doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e vários tipos de câncer. No artigo científico, o grupo da USP reuniu os principais estudos que mostram como poluentes aumentam o risco de câncer de pulmão.

O trabalho mais recente, publicado este ano no The Lancet Oncology, traz dados de mais de 300 mil indivíduos em nove países. Os resultados indicam que, no grupo exposto à poluição, o risco de câncer se eleva em 50% a cada 10µg/m3 inalado.

Embora o risco causado pela poluição não seja tão alto quando comparado ao tabaco, que chega a elevar em 30 vezes o risco da doença, ainda é um problema de saúde pública importante, pois toda a população está exposta.

O gráfico também indica que os benefícios da urbanização estão distribuídos de forma altamente desigual no mundo. Esse fenômeno, que Saldiva chama de 'racismo ambiental', tem grandes impactos sobre a saúde da população de países em desenvolvimento.

"Medidas de política pública são a única forma de proteger a população. É a vacina moderna. Não tem nada que os indivíduos possam fazer de forma isolada", diz Saldiva.