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Estudo da Unesp aponta problemas ambientais na indústria calçadista

Publicado em 02 março 2015

Por Paulo Godoy

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos Sociais do Desenvolvimento e Sustentabilidade (Labdes), da Unesp de Franca, mostrou que, em média, até 133 gramas dos mais diversos resíduos são gerados na produção de um único par de calçado. São colas, couros, aviamentos e materiais sintéticos que muitas vezes vão para o lixo, mas que poderiam ser aproveitados como forma de evitar o desperdício e problemas ambientais.

O trabalho dos pesquisadores levou três anos para ser concluído e envolveu 55 micros e pequenas fábricas de sapato. Financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), custou perto de R$ 200 mil, mas apesar de não ter representado nenhum custo para o setor calçadista, o resultado final do trabalho não obteve repercussão entre suas lideranças.

Um dos coordenadores do projeto, o professor Elias Antônio Vieira, explicou que as dificuldades para conseguir empresários dispostos a abrir suas empresas para o trabalho dos pesquisadores foram muitas.

A primeira, no entanto, não começou na porta das fábricas, mas no cadastro fornecido pelo setor completamente desatualizado e com informações defasadas. “Eram empresas que não existiam mais, empresas que haviam trocado de endereço. Muitas tinham até mudado de ramo, mas continuam como fábricas de calçados”, disse Vieira.

Definido o número de empresas que seriam estudadas, aí o problema passou a ser com os empresários. Os argumentos para impedir o acesso dos pesquisadores eram variados e as alegações eram quase sempre de que a presença de pesquisadores na linha de produção poderia atrapalhar os funcionários.

“Nós percebemos também que no início, no primeiro contato com o dono da fábrica, nós falávamos que era uma pesquisa que analisaria a gestão de resíduos visando o meio ambiente, mas não tivemos muita aceitação”, afirmou o professor. “Depois mudamos nosso discurso, dizendo que queríamos verificar a influência dos resíduos na lucratividade e na competitividade da empresa. Aí ficou mais palatável e a adesão foi maior.”

A metodologia da pesquisa foi adotada de forma que todas as etapas de produção pudessem ser acompanhadas, como almoxarifado, corte, preparação, pesponto, montagem, acabamento e expedição. Em todos os setores, foram detectados problemas. São, como afirmou o pesquisador, setores que trabalham de forma articulada, mas sem padrões organizador.

Na conversa com o professor, dentro de sua sala no Labdes, Elias Vieira mostrou inúmeros artefatos, restos de couro, amostras de cola e até pregos.

Tudo que, segundo ele, poderia ser aproveitado, evitando que fossem parar em um aterro e, ao mesmo tempo, significando economia de materiais e, na ponta do lápis, de dinheiro.

“O que nós queremos dizer é que não se pode pensar a indústria de calçado sem pensar em toda a questão ambiental. Nossa educação, o nosso conceito ambiental precisa mudar, porque esse é um fator que influencia no resultado econômico, financeiro e social”, afirmou o professor. “Não podemos falar em meio ambiente só como forma de evitar poluição, plantar uma árvore, embora faça parte, mas avaliar como uma coisa muito mais profunda. Toda decisão que eu vou tomar na área econômica tem um pressuposto na área ambiental”, concluiu o pesquisador.