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São Carlos Agora

Estudo da UFSCar identifica diversidade de insetos e plantas no Mato Grosso do Sul

Publicado em 24 maio 2017

Provavelmente você já viu uma galha entomógena, mas nunca a chamou por este nome e, portanto, nem sabe disso. Galhas são estruturas formadas em plantas por crescimento celular anormal - algo como tumores -, em resposta a estímulos causados por organismos como insetos, vermes, fungos ou bactérias. No caso dos insetos, eles depositam seus ovos no tecido vegetal, que se transforma completamente a partir desse contato. Esse tecido, em qualquer parte da planta - folhas, ramos, flores e frutos -, forma um casulo, que passa a ser o local de desenvolvimento, abrigo e nutrição das fases imaturas do inseto até que chegue à vida adulta. Em sua maioria, as galhas estão localizadas nas folhas das plantas e, em alguns casos, apresentam belas formas e cores. Uma característica interessante é que as galhas são espécie-específicas, ou seja, cada tipo de galha só ocorre em uma determinada planta, e a partir da interação com uma única espécie de inseto galhador.

Uma pesquisa publicada recentemente na Revista Brasileira de Entomologia (disponível em http://bit.ly/2qdOuD9) estudou justamente a ocorrência e fez a caracterização de galhas no Mato Grosso do Sul (MS), em áreas de quatro biomas: Floresta Amazônica, Cerrado, Pantanal e Chaco. O estudo, coordenado por Maria Virgínia Urso-Guimarães, docente do Departamento de Biologia (DBio) do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), identificou 186 tipos de galhas, em 115 espécies de plantas hospedeiras de 35 famílias. A partir dessas galhas, foi possível obter e identificar os insetos indutores de 50 morfotipos de galhas. Destes, 78% integram a família Cecidomyiidae - responsável por 80% das galhas conhecidas no mundo - e foram registrados pela primeira vez no Mato Grosso do Sul. Além disso, 24 espécies de plantas, de quatro gêneros, foram registradas pela primeira vez como hospedeiras.

Além de Urso-Guimarães, são responsáveis pelo estudo também Ana Carolina Devides Castello, graduada e mestre pela UFSCar e, atualmente, doutoranda na Universidade Estadual Paulista (Unesp); Eric Yasuo Kataoka, biólogo pela UFSCar e hoje mestrando na Universidade de São Paulo (USP); e Ingrid Koch, ex-professora do DBio e, agora, docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para a pesquisa, foram realizadas coletas de galhas em oito áreas naturais do MS, sendo duas em cada um dos quatro biomas estudados, em três expedições ao longo de 2012 e 2013. Esse material foi levado ao laboratório para a descrição morfológica das galhas e identificação das plantas hospedeiras e, quando possível, dos insetos galhadores.

"Quando você encontra um morfotipo de galha nunca descrita anteriormente, é grande a probabilidade de termos uma nova espécie de inseto galhador, já que cada espécie induz uma galha própria. No entanto, da identificação da galha à descrição de uma nova espécie de inseto galhador há um longo caminho a ser percorrido. Não adianta encontrarmos o inseto galhador na natureza, porque não saberemos qual é sua galha. Precisamos, então, torcer para que haja larvas na galha e, também, para que elas se desenvolvam em pupa e obtenhamos, no mínimo, um macho adulto durante a criação em laboratório. Se encontrarmos apenas a galha, é preciso esperar até a próxima primavera e começar tudo de novo", explica a pesquisadora da UFSCar. "Para conseguirmos fazer a descrição de uma nova espécie de cecidomiídeo, é preciso que tenhamos no mínimo o conjunto de galha, larva, pupa e macho adulto, embora uma descrição completa torne desejável o conjunto completo, com machos e fêmeas. Em relação ao macho adulto, sua importância diz respeito ao fato de que, em geral, é a terminália masculina [órgão sexual] que diferencia uma espécie da outra", complementa.

DIVERSIDADE

Dentre os insetos galhadores, a família mais comum é, como visto, a dos cecidomiídeos. Em todo o mundo, são mais de seis mil as espécies descritas. No Brasil, no entanto, há apenas cerca de 500 espécies de cecidomiídeos já descritas, o que indica uma grande lacuna no conhecimento sobre esses animais e suas plantas hospedeiras. "Os insetos da família Cecidomyiidae não atacam plantas de valor comercial, o que em grande medida explica essa carência de pesquisas. Já as galhas induzidas por nematoides, em vegetais importantes para a agricultura, são super estudadas", explica Maria Virgínia Urso-Guimarães.

Urso-Guimarães integra o projeto Sisbiota-Diptera, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), juntamente com vários outros pesquisadores de 15 instituições brasileiras. O objetivo do projeto é justamente o estudo dos dípteros - ordem à qual pertence a família Cecidomyiidae - nos Estados de Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Antes da inciativa, das 170 espécies de Cecidomyiidae conhecidas no Brasil, apenas uma havia sido registrada para essa área, no Mato Grosso, por Urso-Guimarães e seu então orientador de doutorado, Dalton de Souza Amorim. Desde o início das pesquisas do Sisbiota-Diptera, 300 espécies já foram registradas para os três Estados, dentre as quais cerca de 60% são novas para a Ciência, o que indica que ainda há muita história a ser contada sobre esses pequenos mosquitos e suas obras de arte vegetal.

Redação