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Jornal Folha Noroeste

Estudo da UFSCar identifica Cerrado como ambiente de proteção para ninhos de aves

Publicado em 06 março 2021

Além de comparar nidificação em ambientes fechados e abertos, pesquisa também analisou se coloração de aves atrai mais predadores

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) investigou se a coloração vistosa de algumas espécies de aves poderia atrair mais predadores e, assim, prejudicar as aves e seus ovos. Os pesquisadores queriam saber se esse fenômeno de fato acontecia e, também, qual seria a influência do tipo do ambiente, aberto ou floresta.

O estudo, publicado em plataforma online internacional, foi fruto do trabalho de iniciação científica de Gabrielle C. Pestana, realizado durante a graduação em Biologia na UFSCar, sob orientação de Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira, do Departamento de Hidrobiologia (DHb) da UFSCar. O trabalho contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A pesquisa foi realizada em 2016 no fragmento de Cerrado da UFSCar. "Parte dos ovos foram colocados em ninhos artificiais em uma área aberta do Cerrado, e outra parte dos ovos em ninhos na área de mata fechada", conta Ferreira. Os testes foram feitos com aves falsas e ovos de codorna, um método eficiente para testar predação de ninhos em campo.

"Uma ave que se assemelha ao nosso modelo e que ocorre na área do Cerrado é o Príncipe (Pyrocephalus rubinus)", explica Ferreira. Nessa espécie, o macho possui penas vermelhas na maioria do corpo, com partes escuras em torno dos olhos e nas asas. "É vermelho, provavelmente, para indicar sua qualidade para a fêmea, que prefere machos mais coloridos. Já as fêmeas geralmente são crípticas (marrons) para se camuflar na paisagem e fugir de possíveis predadores", diferencia o pesquisador. Embora só a fêmea construa o ninho - no qual são colocados de 2 a 3 ovos -, os filhotes são cuidados pelo casal. "Os estudantes colocaram no campo os ninhos artificiais, com ovos de codorna dentro. Do lado do ninho, era colocado um 'papai' vermelho ou uma 'mamãe' marronzinha", detalha o orientador do estudo. Diferentemente do que os pesquisadores esperavam, não houve diferença na predação dos ovos quando comparados a ninhos com uma ave colorida (vermelha) ou uma ave críptica (marrom).

Por fim, foi comparada a predação dos ovos por predadores entre ninhos com pássaros vermelhos e marrons, na área aberta e na área fechada. Entre os predadores dessa espécie de ave estão mamíferos, como o mico-estrela; répteis, como os lagartos; e aves maiores, que podem comer os ovos ou os filhotes. "O principal resultado foi que, na área de mata fechada, a predação dos ovos foi muito menor do que na área aberta, mostrando o importante papel das florestas na sobrevivência dos ninhos de aves de Cerrado", revela Ferreira.

A partir desse resultado, os pesquisadores analisaram o valor das áreas de Cerrado como um refúgio seguro para as aves nidificarem. "O Cerrado geralmente é visto como 'mato', digno de desmatamento e exploração. No entanto, existem várias espécies endêmicas do Cerrado, que constroem seus ninhos somente nesses ambientes. Por isso, é preciso conservá-lo", alerta o docente.

O artigo "The influence of parent body colouration and nesting habitat on bird nest predation" pode ser acessado na íntegra na plataforma Taylor & Francis Online (https://bit.ly/3aUy787). Além de Gabrielle Pestana e Rhainer Ferreira, o estudo tem coautoria de Erick Mateus-Barros, aluno de doutorado em Ecologia da UFSCar.Macho da espécie Pyrocephalus rubinus, presente no Cerrado