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Estudo correlaciona fissura labiopalatina e má oclusão com apneia obstrutiva do sono

Publicado em 01 março 2018

As fissuras labiopalatinas constituem a malformação congênita de maior prevalência na espécie humana. Um levantamento epidemiológico realizado no Estudio Colaborativo Latino Americano de Malformaciones Congénitas (ECLAMC), na América Latina, indica uma prevalência de 1 a cada 1. 000 nascimentos que ocorrem por uma falha na fusão entre os processos faciais embrionários durante o primeiro trimestre da gestação. Na Odontologia, a Ortodontia e a Cirurgia Bucomaxilofacial desempenham papel fundamental na reabilitação desses pacientes, e a totalidade dos casos necessita de tratamento ortodôntico, logo, boa parte possuem indicações de cirurgias ortognáticas.

Pensando nisso, um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório de Fisiologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a University of North Carolina (UN C), de Chapel Hill, nos Estados Unidos, investigou a ocorrência de apneia obstrutiva do sono em adultos com fissura labiopalatina e discrepância maxilamandibular do tipo classe III.

Além disso, avaliou também as dimensões faríngeas da população e sua correlação com a apneia do sono. O trabalho intitulado "Pharyngeal Dimensions and Obstructive Sleep Apnea in Individuais with Cleft Lip/Palate and Class III Malocclusion" foi desenvolvido pela aluna de doutorado, Letícia Dominguez Campos, do Programa de Pós- Graduação em Ciências da Reabilitação do Centrinho de Bauru e orientado pelas docentes da USP, Ivy Suedam e Inge Trindade, coordenadoras da Unidade de Estudos do Sono do Laboratório de Fisiologia do HRAC-USP Apresentado no 16° Congresso Brasileiro do Sono - realizado em novembro de 20 1 7, em Joinville (SC) -, o estudo recebeu o prêmio de melhor trabalho na área clínica.

De acordo com a Cirurgiã-Dentista, com pós-doutorado em Fisiologia Oral junto ao HRAC/USP- Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação e professora associada do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais e da S chool of Dentistry da University of North Carolina (UNC), USA, Ivy Suedam, "a etiologia das fissuras orofaciais é complexa e multifatorial, envolvendo fatores genéticos, ambientais e a interação de ambos. As fissuras podem acometer, individualmente ou em concomitância, o lábio superior, o processo alveolar superior e o palato duro e mole. O processo reabilitador, complexo e altamente especializado, requer uma equipe interdisciplinar, composta por médicos, Cirurgiões-Dentistas e fonoaudiólogos, entre outros, que v1sa reparar a anatomia e a função das estruturas malformadas".

Desdobramentos e conclusões

Segundo a pesquisadora, a ideia do estudo surgiu "a partir de uma queixa clínica comum entre os pac1entes do HRAC, Hospital da USP especializado na reabilitação das anomalias craniofaciais, a de que respiram mal durante a nol.t e e te" m um sono ruim, fragmentado por pausas na resp1raçao e permeado por momentos de ronco", adiciona a especialista. Em síntese, I vy conta que parte substancial desta linha de pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). "Isso é algo que temos muito orgulho de dizer, pois ter bolsas como essas, em especial, representa um selo de qualidade".

"O estudo avaliou, por meio dos exames de polissonografia e de tomografia computadorizada, a qualidade do sono e as características anatomofuncionais das vias aéreas superiores dos pacientes com fissura labiopalatina, que, frequentemente apresentam discrepância maxilamandibular do tipo classe III de Angle. Adicionalmente, parte da pesquisa que simulou o fluxo aéreo nas imagens 3D foi desenvolvida nos Estados Unidos, na University of North Carolina, onde, por meio de uma técnica denominada fluidodinâmica computacional, simulou-se o fluxo aéreo nas imagens tridimensionais", declara Ivy.

Sobre os resultados, a pesquisa indicou que 26°/o dos indivíduos com fissura labiopalatina apresentaram apneia sendo que, na população geral brasileira, a prevalência desta condição, para a mesma faixa etária, é de 7°/o (TUFIK et al., 2010). “Além disso, o grupo que apresentou apneia possuía dimensões faríngeas significantemente menores do que os indivíduos sem apneia.

De uma maneira geral, pudemos observar também uma maior resistência ao fluxo aéreo inspiratório nas vias aéreas dos apneicos. Assim, os resultados sugerem que a presença da fissura labiopalatina, associada à discrepância maxilomandibular, constitui um importante fator de risco para ocorrência da apneia obstrutiva do sono", complementa a orientadora. No que se refere ao prêmio, a professora comemora: "o estudo premiado é parte de um projeto maior e representa para a equipe de pesquisa do Laboratório de Fisiologia do HRAC-USP motivo de grande orgulho, pois atesta a qualidade dos trabalhos que veem sendo desenvolvidos, a qualidade dos alunos que nos cercam, e representa uma dose extra de incentivo para continuar nossos estudos. Sem contar que associa conhecimentos clínicos à tecnologia de ponta, sempre com beneficio direto aos nossos pacientes". Ivy observa ainda que os desdobramentos da pesquisa já estão acontecendo.

"Um grande estudo está em andamento no qual estão sendo avaliados o sono e as dimensões das vias aéreas superiores de pacientes com outras anomalias craniofaciais associadas às fissuras labiopalatinas, como a Síndrome de Treacher Collins, mostrada no filme Extraordinário, e as Craniossinostoses Sindrômicas. Este estudo está, mais uma vez, sendo desenvolvido em colaboração com a UNC, em especial, com dois pesquisadores Amelia Drake, Otorrinolaringologista e Luiz Pimenta, Cirurgião-Dentista, ambos coordenadores do Centro Craniofacial da UNC Sebooi o f Den tistry e da UN C School of Medicine".