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Estudo comprova ligação entre estresse e cabelos brancos

Publicado em 23 janeiro 2020

Por Por Redação, com

Pesquisadores brasileiros e norte-americanos investigaram processo de embranquecimento dos cabelos e concluem que estresse leva à liberação de substância que pode danificar células-tronco regeneradoras de pigmentos.

Quando Maria Antonieta foi capturada durante a Revolução Francesa, consta que seu cabelo ficou grisalho da noite para o dia. Diz-se também que Karl Marx ficou tão abalado com a morte de seu filho de oito anos, Edgar, que seus cabelos embranqueceram em poucas horas.

Há muito tempo essas histórias são consideradas mitos da saúde. Acreditava-se que o embranquecimento dos cabelos seria apenas um processo natural de envelhecimento, no qual fatores externos exercem pouca influência.

Agora, cientistas da Universidade de Harvard em parceria com a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) o funcionamento desse processo.

Como o estresse afeta todo o corpo, os pesquisadores primeiro tiveram que identificar qual sistema corporal é responsável pela conexão entre estresse e cor do cabelo. A equipe acabou chegando ao sistema nervoso simpático, responsável pela reação de luta ou fuga do corpo.

Os pesquisadores constataram que, quando estressados, esses nervos liberam noradrenalina, que é absorvida pelas células-tronco regeneradoras de pigmentos. A noradrenalina é uma substância mensageira endógena, que atua como hormônio do estresse e neurotransmissor.

A liberação excessiva de noradrenalina leva ao esgotamento prematuro do reservatório das células produtoras de pigmento. Isso causa danos permanentes às células-tronco regeneradoras de pigmentos nos folículos capilares, de acordo com o estudo publicado nesta quarta-feira pela revista Nature.

– O estresse agudo, especialmente a reação de luta ou fuga, é tradicionalmente considerado benéfico para a sobrevivência de um animal, mas nesse caso, ele leva à exaustão permanente das células-tronco – disse Bing Zhang, principal autora do estudo.

– Entender como nossos tecidos se modificam sob estresse é o primeiro passo crítico para um tratamento que pode parar ou reverter os efeitos nocivos desse esgotamento. Ainda temos muito a aprender nessa área – disse Ya-Chieh Hsu, professora adjunta de células-tronco e Biologia Regenerativa em Harvard.

Em 2018, o pesquisador da FMRP-USP Thiago Mattar Cunha, que trabalhou na pesquisa, passou um ano como professor visitante na Faculdade de Medicina de Harvard. “Lá, eu descobri que os pesquisadores tinham os mesmos resultados que os nossos. Decidimos fazer novos experimentos nos laboratórios de Harvard para entender o porquê desses pelos brancos nos ratos”, disse ao G1.

No mesmo ano, uma equipe de pesquisadores da Universidade do Alabama, em Birmingham, e do Instituto Nacional de Saúde (NIH), nos Estados Unidos, já havia investigado como um sistema imunológico hiperativo mata certo grupo de células-tronco – os melanócitos. O sistema imunológico é ativado, por exemplo, por infecções, mas também por estresse crônico ou psicológico.

Estresse não é única causa

O cabelo consiste de várias camadas de células epidérmicas mortas que passaram por um processo de queratinização. Na raiz do cabelo, existem células responsáveis pela pigmentação da pele (melanócitos) ao lado de glândulas sebáceas e pequenos vasos sanguíneos. Os melanócitos produzem o pigmento melanina, que é depositado nas camadas córneas da haste capilar, dando ao cabelo sua cor.

A produção de melanina diminui gradualmente com a idade. Porque para poder produzir essa “tintura” de cabelo, o corpo precisa do aminoácido tirosina. Havendo muito pouco dele, as células responsáveis formam inicialmente menos pigmentos. Durante a formação do cabelo, as áreas vazias são preenchidas com pequenas bolhas de ar, os chamados vacúolos, de forma que os cabelos brancos voltam a crescer.

Uma vez grisalho, sempre grisalho?

Se o cabelo ficar grisalho devido à idade, é preciso tingi-lo ou aprender a conviver com ele. Mas se o cabelo embranqueceu devido a uma doença, experiência traumática ou dieta não saudável, ainda há esperança de que a cor antiga volte.

Uma dieta rica em vegetais fornece importantes vitaminas e minerais e equilibra a relação ácido-base no corpo. Mas não se preocupe: vinho tinto, chocolate e mirtilo também são úteis porque fornecem antioxidantes ao corpo. Esses compostos químicos endógenos fortalecem o sistema imunológico e previnem a formação de radicais livres, moléculas instáveis em que falta um elétron. Esses radicais retiram então a partícula que lhe falta das células saudáveis do corpo – que são consequentemente danificadas.

Ninguém fica grisalho da noite para o dia

As anedotas de Maria Antonieta e Karl Marx são realmente mitos da saúde, porque os pigmentos não desaparecem repentinamente do cabelo. Em vez disso, eles não são mais integrados durante o crescimento de novos cabelos.

O cabelo cresce, em média, apenas 1,2 centímetro por mês, ou seja, é um processo gradual. Com estresse psicológico ou físico severo, no entanto, a perda de cabelo geralmente ocorre. O fio cresce novamente, mas não possui mais pigmentos, na maioria das vezes.