No sistema imune, existe um tipo específico de célula de defesa que atua como uma espécie de “reservista”. Ela pode, por exemplo, entrar em ação quando tumores e infecções crônicas virais levam os outros linfócitos T à exaustão, deixando-os incapazes de atuar com eficiência no combate a doenças.
Uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu avançar no entendimento dessas células. Em estudo publicado na revista PNAS, eles descreveram onde essa população específica de linfócitos T se localiza no ambiente tumoral. E revelaram que essas células apresentam fenótipo, perfil transcricional (de expressão gênica) e funções semelhantes tanto no combate a tumores quanto a vírus.
Apoiado pela FAPESP, o estudo traz resultados relevantes para o campo da imunoterapia – abordagem de combate ao câncer que se utiliza das células de defesa do próprio paciente, manipuladas em laboratório, para atacar os tumores.
“Mesmo em um ambiente onde a maioria dos linfócitos T está exausta, ainda existe um pool de células que podem ser reativadas e, assim, combater o tumor de forma eficaz. Isso abre portas para terapias que visam estimular as células de defesa exaustas – como as células CD8 T –, potencializando assim a resposta imunológica contra o câncer”, afirma Helder Nakaya, pesquisador do Hospital Israelita Albert Einstein, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e integrante do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.
No artigo, os autores demonstraram, por meio de testes com roedores e com células humanas, que os linfócitos “reservistas” (denominados PD-1+ TCF1+ stem-like CD8 T) estão localizados nas estruturas linfoides terciárias (TLS, na sigla em inglês) – uma espécie de nódulo ao redor dos tumores cuja presença está associada a uma boa resposta à imunoterapia – e não dentro do tumor.
“A partir dos resultados, é possível caracterizar esse subtipo de célula no contexto do câncer e da infecção viral crônica e entender a importância dessas estruturas linfoides terciárias como fontes para essa população de células. A descoberta da localização periférica das células PD-1+ TCF1+ stem-like CD8 T no tumor indica que as TLS podem fornecer um microambiente específico, que suporta a manutenção e quiescência [baixa atividade metabólica] dessas células”, diz o pesquisador.