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Estudo brasileiro mostra ligação entre chumbo e comportamento antissocial em jovens

Publicado em 08 abril 2009

O trabalho de pesquisa de doutorado de Kelly Polido Kaneshiro Olympio, apresentado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e que demonstra uma importante associação entre a exposição a chumbo e o comportamento antissocial em adolescentes, foi premiado pela União Internacional de Toxicologia (Iutox, na sigla em inglês).

O estudo, realizado em parceria com pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da universidade, analisou as concentrações de chumbo presentes no esmalte dentário de 173 adolescentes residentes em bairros de baixa condição socioeconômica de Bauru, interior paulista. O trabalho teve apoio da Fapesp.

Um pacto para restaurar 150 mil quilômetros quadrados da mata atlântica - uma área equivalente ao Estado do Ceará - foi lançado nesta terça-feira (7) em São Paulo. A meta é recuperar 30% da área original do bioma até 2050. Atualmente, floresta bem preservada corresponde a 7% da cobertura original da mata atlântica, sem contar trechos que demandam proteção e cuidado especial (13%). A iniciativa pretende restaurar 10% do bioma original que desapareceu.

O objetivo foi investigar uma possível associação entre a concentração de chumbo presente no esmalte dentário, marcador biológico escolhido por refletir a exposição ao metal, de adolescentes de 14 a 18 anos de idade e o estabelecimento de comportamento antissocial.

"Verificamos uma forte associação entre exposição a chumbo e estabelecimento de morbidade psiquiátrica na amostra analisada, como problemas de socialização, quebras de regras sociais e queixas somáticas, que são problemas de saúde sem causa médica conhecida", disse Kelly à Agência Fapesp.

Os resultados corroboram pesquisas anteriores realizadas nos Estados Unidos, mas "é a primeira desenvolvida no Brasil, portanto dentro de uma realidade socioeconômica e cultural bastante distinta da norte-americana", afirmou.

Incluindo os diversos fatores de risco sociais e familiares para o estabelecimento dos problemas encontrados na análise estatística, a exposição ao chumbo se mostrou um dos fatores de risco mais importantes.

"Os vários efeitos prejudiciais à saúde causados pela contaminação por chumbo e confirmados pela pesquisa alertam para a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas que previnam a contaminação da população brasileira por esse metal", apontou.

Tal contaminação, conta Kelly, pode refletir sérias perdas individuais na inserção social e no rendimento profissional, contribuindo para prejuízos econômicos em âmbito populacional.

Poeira e tintas

O chumbo é uma neurotoxina silenciosa e devastadora em crianças. A neurotoxicidade induzida pelo metal ocorre mediante exposição, ao longo do tempo, a baixas concentrações de chumbo oriundo principalmente da poeira e tintas.

"Muitas fontes domésticas, ocupacionais e ambientais são de especial risco para a contaminação por chumbo, que está presente na poeira de regiões próximas a indústrias que o utilizam em seus processos produtivos", disse.

O metal também está presente na composição de produtos como cabos elétricos, baterias, brinquedos piratas, persianas antigas, tintas, plásticos, cerâmicas de uso domiciliar, tinta zarcão utilizada como anticorrosivo em portões de ferro e encanamentos antigos.

Segundo a pesquisadora, apenas em 2008 a legislação brasileira fixou o limite máximo de chumbo permitido na fabricação de tintas imobiliárias, de uso infantil e escolar, vernizes e materiais similares.

"Em países do hemisfério Norte, a contaminação humana por chumbo vem sendo associada à violência urbana, à redução do rendimento profissional na fase adulta e à destinação de verbas de saúde pública para a prevenção e tratamento dessa contaminação", disse.

Com informações da Agência Fapesp