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Estudo avalia mecanismos genéticos envolvidos com etiologia da doença cárie

Publicado em 01 julho 2017

Por Fernanda Carvalho

É sabido que a digestão dos alimentos se inicia com a mastigação e a ação da saliva. Além de facilitar a digestão, a saliva tem em sua composição substâncias que atuam no combate a microrganismos que podem causar doenças na boca, entre elas a cárie.

Um destes agentes químicos é a betadefensina (DEFBl), um peptídeo antimicrobiano que participa do sistema imune inato e combate diversos microrganismos cariogênicos como Streptococcus mutans, responsável pelo início da cárie. Produzido a partir de informações transmitidas pelos microRNAs associados ao gene que dá origem ao peptídeo - o microRNA constitui uma classe de RNA não recombinante com papel fundamental na regulação da expressão gênica.

Estudos têm associado variações do gene DEFBl com a vulnerabilidade da cárie dentária. MicroRNAs capazes de regular a expressão gênica também apresentam polimorfismos que seriam candidatos à uma possível regulação da concentração salivar de defensinas e impactar na experiência da cárie do indivíduo.

Desta forma, o estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense em colaboração com o Departamento de Clínica Infantil -Disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), orientada pelos professores Guthemberg Alves e Erika Calvano Küchler, fundamentada inicialmente pela Cirurgiã-Dentista, Andrea Lips, autora da tese de doutorado em Ciências e Biotecnologia da Universidade Federal Fluminense, tem como objetivo contribuir na busca por novos biomarcadores para a doença cárie, dois polimorfismos de genes de betadefensina e um do gene de miRNA202 foram associados a doença e concentração salivar de clefensinas quantificados de acordo com as diferentes experiências da cárie.

O estudo, que foi publicado na Guies Research - revista científica focada exclusivamente na pesquisa da cárie -faz parte de um projeto de pesquisa amplo que conta com a colaboração de pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal Fluminense do Estado do Rio de Janeiro.

De acordo com a pesquisadora, o estudo dos mecanismos genéticos envolvidos com a etiologia da doença cárie é uma linha de pesquisa bastante estudada nos últimos anos pela equipe, que tenta entender quais seriam os mecanismos moleculares - sobretudo aqueles de origem genética - envolvidos no aparecimento da cárie em crianças. "Com os avanços recentes sobre os conhecimentos dos microRNAs, decidimos explorar o papel dos polimorfismos genéticos em microRNAs na etiologia da doença cárie".

O trabalho que teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Rio de Janeiro (Faperj) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), considerou a existência da relação entre os níveis de betadefensina na saliva - e, portanto, maior ou menor suscetibilidade ao surgimento da cárie - com a ausência ou a presença de polimorfismo tanto no gene responsável pela produção de betadefensina (DEFBl) quanto no microRNA202, que atua na expressão daquele gene. Posto isto, a pesquisadora esclarece que o polimorfismo genético designa a existência de diferentes alelos (variações) de um mesmo gene. As formas mais comuns de polimorfismos genéticos são deleções, mutações e substituições das bases que compõem o código de cada gene. Erika acrescenta ainda que "os polimorfismos são variações nos genomas comuns na população. Essas variações são responsáveis pelas nossas diferenças fenotípicas bem como na vulnerabilidade à doença (como a cárie e a doença periodontal)".

A pesquisa, que foi segmentada em duas partes, visou primeiramente replicar os estudos entre o gene da betadefensina e a suscetibilidade à cárie na população brasileira para aferir os resultados. A segunda parte do trabalho que, segundo a pesquisadora, deu um passo adiante e surpreendeu a equipe, detectou a associação entre o polimorfismo no microRNA202 e a suscetibilidade ao desenvolvimento da cárie. Para os testes, os niveis salivares dos peptídeos de betadefensina hBD 1, hBD2 e hBD4 foram acessados a partir de amostras de saliva de 168 crianças (92 meninos e 76 meninas) entre 2 e 12 anos, da pré-escola e do ensino fundamental de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. "A pesquisa foi realizada com amostras de saliva de crianças com e sem experiência de cárie. As amostras foram utilizadas para avaliar os níveis de betadefensina salivar e também para a extração do DNA genômico, que foi utilizado para a genotipagem dos genes DEFBl e microRNA202. Os resultados foram comparados com a experiência de cárie das crianças", acrescenta Erika Küchler.

A pesquisa consistiu ainda na realização de um questionário comportamental entre as crianças para detectar, por exemplo, o número de escovações diárias, quais crianças escovavam os dentes antes de dormir, quais usavam fio dental e quais ingeriam doces entre as refeições. Os resultados foram tabulados de acordo com a divisão entre crianças livres de cárie e crianças com muitas cárie.

Por fim, foi feita uma avaliação multifatorial que considerou os resultados genotípicos de DEFBl e do micmRNA202, os níveis de betadefensina na saliva e os critérios de avaliação comportamental das 168 crianças. A análise genotipica do microRNA202 demonstrou que o seu genótipo CC estava associado a níveis menores de betadefensina hBD1 na saliva. "Os nossos resultados sugerem que polimorfismo genético em rnicroRNA202 pode estar associado à etiologia da doença cárie, por meio dos níveis de betadefensina salivar", conclui a pesquisadora.

Küchler destaca que, pelo fato do trabalho ser o primeiro a sugerir associação entre níveis salivares de betadefensina e polimorfismo no microRNA202, absorve uma grande concentração e relevância para a classe odontológica, trazendo novos resultados e métodos para auxiliar o profissional. Porém, a pesquisadora alerta: "esses resultados são os primeiros a sugerir essa associação, por isso devem ser interpretados com cautela." Conforme a especialista, a próxima etapa do estudo é replicar esses resultados em populações independentes. "Tanto nosso grupo de pesquisa, quanto outros grupos dentro e fora do Brasil, devem considerar estudar o microRNA202 na etiologia da doença cárie. A identificação dos mecanismos moleculares envolvidos com à suscetibilidade à cárie dentária poderá auxiliar na identificação de indivíduos que necessitam de abordagens preventivas mais rigorosas na prática clínica", diz.

Os resultados da pesquisa são extremamente importantes e segmentados, porém, ainda são preliminares. Erika Küchler ressalta ainda que "apesar da finalização do projeto genoma humano, pouco ainda se sabe sobre o papel dos polimorfismos genéticos nos fenótipos, principalmente, os de interesse em Odontologia".