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Estudo associa doenças crônicas com depressão e ansiedade

Publicado em 14 março 2009

Uma nova pesquisa destacou a associação entre determinadas doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, cardiopatias e diabetes, com transtornos do tipo depressão e ansiedade. O estudo foi publicado na revista Cadernos de Saúde Pública.

O objetivo do trabalho foi avaliar a prevalência de transtornos mentais comuns e verificar sua associação com determinadas enfermidades e com o número de doenças crônicas relatadas pelos pacientes, além de identificar os subgrupos dessa população com maior incidência de transtornos mentais.

De acordo com um dos autores do artigo, o psiquiatra Fábio Monteiro da Cunha Coelho, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul, tal associação merece destaque, uma vez que a literatura aponta que os profissionais de saúde podem não atentar para transtornos mentais em pacientes com múltiplas doenças crônicas - que acabam sendo o foco de atenção do clínico.

Embora não se possa estabelecer um nexo causal, outra informação relevante, apontada pelo nosso estudo, é a associação entre a polifarmácia (administração diária de diversos medicamentos) e os transtornos mentais comuns. As interações medicamentosas podem levar a uma prevalência aumentada de sintomas de ansiedade e depressão, disse à Agência Fapesp.

Os sintomas ansiosos e depressivos podem ser mais frequentes em pacientes com doenças em estágios mais graves e que, por isso, necessitam de um número maior de medicamentos, indicou Coelho.

Foram investigados 1.276 adultos com 40 anos ou mais, levando em conta variáveis sociodemográficas. Os transtornos mentais comuns apresentaram uma prevalência de 30,2% e se mostraram associados às baixas escolaridade e classe social e à faixa etária de 46-65 anos.

No estudo, as doenças crônicas não transmissíveis pesquisadas se mostraram associadas aos transtornos mentais comuns. Entretanto, o número de enfermidades apresentadas teve maior importância do que cada uma delas individualmente.

A maior incidência de distúrbios psiquiátricos foi detectada em mulheres. A situação conjugal (divorciada ou viúva), baixa escolaridade, desigualdade social e eventos de estresse ao longo da vida foram alguns dos fatores destacados.

Segundo Coelho, apesar de o delineamento do estudo não permitir inferências sobre a causalidade, pode-se pensar que há uma via de duas mãos. A situação socioeconômica desfavorecida poderia, por si só, aumentar os níveis de ansiedade e depressão e levar a hábitos de saúde precários e a um acúmulo de enfermidades.

Por sua vez, os transtornos psiquiátricos podem interferir na capacidade funcional do indivíduo, levando a dias de trabalho perdidos e menor rendimento. Tal situação contribuiria para um prejuízo na situação socioeconômica. O que percebemos é que a pobreza, os comportamentos em saúde precários, as enfermidades crônicas e os transtornos mentais comuns se aglomeram em uma parcela da população, disse.

O estudo fez parte de um projeto maior que tinha por objetivo traçar um perfil da saúde dos adultos na cidade de Pelotas. Entre as principais limitações da pesquisa, citadas pelo cientista, estão a impossibilidade de se estabelecer nexo causal entre as diversas variáveis e os transtornos mentais comuns.

Além do mais, utilizamos o diagnóstico informado de enfermidades crônicas. A literatura aponta que tais relatos tendem a ser confiáveis e que tendências de sobre ou subestimar os sintomas, no pior dos cenários, se anulariam, ressaltou.

Segundo Coelho, o estudo destaca a importância de se atentar para os transtornos mentais em indivíduos com enfermidades crônicas, principalmente naqueles que apresentam elevado número de doenças.

Para ler o artigo Transtornos mentais comuns e enfermidades crônicas em adultos, basta acessar a biblioteca on-line SciELO (Bireme/Fapesp).