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Revista Amazônia

Estudo aponta relação entre vitamina D e perfil da microbiota intestinal (1 notícias)

Publicado em 10 de abril de 2017

Por Karina Toledo, da Agência FAPESP

Um estudo brasileiro divulgado na revista Metabolism sugere que os níveis de vitamina D circulantes no organismo podem influenciar o perfil da microbiota intestinal e, consequentemente, o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e metabólicas.

Como ressaltam os autores, o artigo apresenta apenas indícios sobre a existência dessa relação – o que ainda precisa ser confirmado por investigações mais aprofundadas.

“Já se sabia que a vitamina D é importante para a homeostase do sistema imune. O que nosso estudo acrescenta é que essa relação ocorre, pelo menos em parte, pelas interações com a microbiota intestinal”, afirmou Sandra Roberta Gouvea Ferreira Vivolo, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e coordenadora da pesquisa apoiada pela FAPESP.

As conclusões estão baseadas na análise dos dados de 150 voluntários entre 20 e 30 anos (91% do sexo feminino) que estão cursando ou já concluíram a graduação em Nutrição. Como explicou Vivolo, essa pesquisa transversal é um desdobramento de um estudo maior do tipo longitudinal conhecido como Nutritionists Health Study (NutriHS), que acompanha desde 2013 os hábitos de vida de uma amostra específica de estudantes de Nutrição e nutricionistas.

“É oportuno avaliar nutricionistas, pois são indivíduos aptos a responder questionários técnicos, especialmente relacionados à alimentação. Além disso, são pessoas muito ligadas a questões de alimentação e saúde, o que pode influenciar o hábito alimentar”, disse Vivolo.

De acordo com a pesquisadora, o primeiro passo foi descobrir se existia uma relação entre ingerir uma quantidade maior de alimentos ricos em vitamina D e apresentar um maior nível do nutriente na circulação sanguínea.

“Essa associação pode parecer óbvia a princípio, mas não é. A literatura científica é controversa sobre o assunto, pois apenas 20% da vitamina D existente no organismo humano é proveniente da dieta. A quantidade ideal recomendada só é alcançada por meio da exposição ao sol – algo cada vez mais raro no meio urbano – ou pela ingestão de suplementos”, comentou Vivolo.

Após dosar a concentração do nutriente no sangue dos participantes e avaliar o padrão alimentar, o grupo concluiu que de fato havia uma associação entre maior ingestão de alimentos ricos em vitamina D e níveis circulantes mais elevados. As principais fontes alimentares na amostra foram: ovos, leite e seus derivados.

Com base nesses resultados, a população estudada foi estratificada em três grupos: o primeiro com níveis insuficientes de vitamina D; o segundo com concentrações intermediárias, dentro do mínimo recomendado; e o terceiro grupo com as concentrações mais altas, no qual estavam inseridos participantes que faziam uso de suplementos polivitamínicos.

O passo seguinte foi comparar o perfil de saúde dos três grupos, levando em conta fatores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, pressão arterial, glicemia e sensibilidade à insulina.

“Em nenhum desses aspectos notamos diferença significativa. Observamos apenas que os participantes com maior nível de vitamina D circulante apresentavam no sangue uma quantidade menor de lipopolissacarídeos (LPS)”, contou Vivolo.

Como explicou a pesquisadora, as moléculas de LPS estão presentes na superfície de algumas bactérias do tipo Gram-negativas do trato intestinal. Vale ressaltar que grande parte das bactérias Gram-negativas são patogênicas, enquanto a maioria das Gram-positivas não o são – algumas delas são até mesmo consideradas benéficas para a saúde humana.

“Esse dado nos possibilita levantar a hipótese de que os indivíduos mais suficientes de vitamina D tenham uma composição mais saudável da microbiota intestinal – o que teria, por sua vez, um impacto benéfico no risco cardiometabólico”, avaliou.

Segundo Vivolo, a molécula de LPS é considerada imunogênica, ou seja, ela é capaz de induzir uma resposta inflamatória no organismo. Níveis sanguíneos mais altos dessa substância, portanto, favoreceriam o desenvolvimento de um estado de inflamação subclínica (crônica, de baixo grau e sistêmica), fator que tem sido associado em diversos estudos ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas, entre elas o diabetes.

“A composição da microbiota intestinal tem sido associada ao desenvolvimento de doenças – não apenas as infecciosas como também aquelas que têm relação com uma inflamação de pequeno grau. É possível que a vitamina D tenha alguma participação nesse processo, mas ainda é muito cedo para apontar uma relação de causa e consequência. Para isso, seria necessário fazer um estudo de intervenção, ou seja, comparar grupos que ingerem diferentes quantidades do nutriente por um longo período e observar o impacto na microbiota”, disse a pesquisadora.

Censo microbiano

Em busca de mais pistas que permitam comprovar a hipótese levantada, o grupo coordenado por Vivolo realizou uma espécie de censo bacteriano em amostras de fezes dos participantes do estudo. Por meio de técnicas de sequenciamento do DNA e auxílio de métodos estatísticos, o grupo conseguiu identificar, entre os trilhões de microrganismos presentes, os filos e os gêneros mais frequentes em cada grupo de voluntários.

“Em apenas alguns dos gêneros identificados observamos relevância estatística. Por exemplo, nos participantes com mais vitamina D foram menos abundante os gêneros HaemophilusVeillonella – ambos de bactérias Gram-negativas. Por outro lado, esses mesmos voluntários tinham mais bactérias do gênero CoprococcusBifidobacterium – ambos de bactérias Gram-positivas”, comentou Vivolo.

Após ajustar a análise considerando fatores que podem enviesar os resultados, como sexo e idade dos participantes, além da estação do ano em que foi feita a análise (o que pode influenciar o nível de vitamina D em função da exposição solar), o que restou de mais significante, segundo Vivolo, foi a associação entre maior nível de vitamina D e maior abundância dos gêneros CoprococcusBifidobacterium, ambas consideradas benéficas para a saúde humana. As chamadas bifidobactérias são classificadas como probióticas, ou seja, favorecem uma flora intestinal mais saudável. Estudos indicam que elas ajudam a controlar o crescimento de bactérias nocivas e minimizam sintomas de alergias e inflamações.

“A análise dos resultados nos permite especular que a relação da vitamina D com a microbiota é um caminho de duas vias. Encontramos evidências tanto de que o nutriente pode interferir na composição da flora intestinal – uma vez que a vitamina D é uma espécie de guardiã do organismo favorecendo a homeostase do sistema imune – como também do oposto, ou seja, de que um determinado perfil de microbiota poderia influenciar o nível de vitamina D circulante. Análises longitudinais e de intervenção são necessárias para testar essas hipóteses”, afirmou Vivolo.

O artigo Gut microbiota interactions with the immunomodulatory role of vitamin D in normal individuals pode ser lido em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0026049517300112.

Agência FAPESP