Experimentos em camundongos realizados na Universidade de São Paulo (USP) revelaram um dos mecanismos que levam à síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) induzida pela malária. Esse tipo de complicação não é diagnosticada precocemente e a mortalidade chega a 80% dos pacientes acometidos.
O estudo publicado na revista Morte celular e doença também mostraram que interferir nesse processo pode reduzir a mortalidade, abrindo caminho para estudos que busquem novos tratamentos em humanos.
Os testes foram realizados em camundongos conhecidos como DBA/2 infectados com o parasita. Plasmodium Berghei ANKA. O modelo imita vários aspectos da síndrome humana, como edema pulmonar, hemorragia, derrame pleural e insuficiência de oxigênio no sangue (hipoxemia).
No artigo, os cientistas descrevem que a apoptose (um tipo de morte celular programada) contribui para o desenvolvimento da síndrome ao facilitar a quebra da barreira alvéolo-capilar nos pulmões, onde o dióxido de carbono é trocado por oxigênio.
Porque após a apoptose, há um aumento da permeabilidade vascular devido ao contato dos eritrócitos infectados (glóbulos vermelhos) com as células que revestem os vasos sanguíneos (endotélio). Essas células separam e ampliam os “buracos” entre elas, permitindo a passagem do líquido para o meio extravascular e causando edema pulmonar.
Camundongos com SDRA apresentaram maior quantidade de apoptose tanto nas células endoteliais quanto nas células inflamatórias (leucócitos) em comparação aos animais que não desenvolveram a síndrome e aqueles não infectados com SDRA. plasmódio (controle de grupo).
Segundo pesquisas, as caspases (família de proteínas que regulam a morte celular e processos inflamatórios) são responsáveis pelos mecanismos de morte celular. Quando tratado com um inibidor de caspase, ZVAD-fmk, o grupo observou redução na apoptose e diminuição na formação de edema. Como resultado, a mortalidade dos animais doentes diminuiu – eles tiveram uma melhora na capacidade respiratória e nas lesões pulmonares.
“Não só contribuímos para a compreensão de um dos mecanismos que levam à síndrome do desconforto respiratório agudo e ao aumento da permeabilidade vascular, mas também mostramos que interferir nesse processo pode ajudar a reduzir a mortalidade em casos de malária, que é bastante alta”, disse. resume à Agência FAPESP Sabrina Epiphanio, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e líder do estudo.
As primeiras autoras do artigo, Michelle Klein Sercundes e Luana dos Santos Ortolan, eram alunas de doutorado da Epiphanios (mestrado, doutorado e pós-doutorado). O grupo, que também inclui pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), foi apoiado pela FAPESP por meio de cinco projetos.
“Não há muitos estudos na Vivo sobre este tipo de síndrome respiratória. Poucos grupos trabalham nessa área, daí a originalidade dos resultados obtidos”, diz Epiphanio, que trabalha no assunto há quase 15 anos.
A SDRA associada à malária é uma doença grave que afeta entre 5% e 20% das pessoas infectadas com malária. plasmódio, dos quais cerca de 80% morrem durante o tratamento hospitalar de terapia intensiva. A patogênese da doença, ou seja, a forma como ela afeta o organismo, ainda é pouco compreendida e não existem testes para detectar o problema em estágio inicial. Ainda existem dificuldades com estudos em humanos.
novos casos
“A síndrome respiratória aguda causada pela malária é semelhante à da COVID-19”, explica o professor.
Devido à pandemia, os programas de prevenção, diagnóstico e tratamento da malária foram interrompidos em vários países, resultando em um aumento de casos e mortes entre 2019 e 2020. Um relatório da Organização Mundial da Saúde apontou um recorde de 14 milhões de novos casos de malária e 69.000 mortes, com dois terços das mortes atribuídas a essas suspensões.
A doença é prevalente em 97 países considerados endêmicos, colocando em risco 40% da população mundial. No Brasil, 99% dos casos de malária estão concentrados na Amazônia. Segundo relatório do Ministério da Saúde, foram mais de 140 mil registros autóctones no país em 2020, sendo 80% confirmados em 37 municípios. Houve 42 mortes nesse período.
A malária é considerada uma das doenças infecciosas que mais afeta a humanidade plasmódio como patógeno, sendo conhecidos cinco tipos diferentes de protozoários. são os mais comuns falciparum – mais agressiva e para a qual foi recentemente aprovada uma vacina – e a vivax, responsável por 84% dos registros no Brasil. Todos podem fazer com que o paciente desenvolva SDRA.
A transmissão ocorre através da picada de um mosquito fêmea. anófeles, se infectado. E as manifestações clínicas são febre alta, calafrios, tremores, sudorese e dor de cabeça. Há pessoas que também sofrem de náuseas, vômitos, fadiga e perda de apetite. O tratamento é feito com medicamentos antimaláricos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que impedem o desenvolvimento do parasita.