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Estudo aponta a origem da indústria calçadista em Franca

Publicado em 02 maio 2006

O que teria levado à formação em Franca, cidade de aproximadamente 300 mil habitantes, de um parque industrial calçadista com cerca de 500 indústrias? Essa questão levou o historiador Agnaldo de Sousa Barbosa a realizar uma ampla pesquisa, que resultou em seu doutorado em Sociologia, defendido na Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, campus de Araraquara.
Dados da Associação Brasileira de Calçados (Abicalçados) apontam que as 500 indústrias de calçado empregam cerca de 22 mil trabalhadores, 8% da mão-de-obra do setor. A produção anual fica em torno de 30 milhões de pares, 4,5% do total do País. Grande parte da produção é direcionada para o mercado externo, o que gerou, em 2003, US$ 116 milhões em divisas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é considerado entre os melhores do País, na frente de 96% dos municípios brasileiros.
Ao contrário daqueles que acreditam que a origem da industrialização no Brasil teria sido formada exclusivamente pelo grande capital cafeeiro, ligado ao processo imigratório, para Barbosa, o desenvolvimento de Franca estaria associado ao espírito empreendedor dos pequenos sapateiros, às peculiaridades no processo de fabricação do produto, ainda hoje de forte conteúdo artesanal, e a fatores geográficos. "É inegável a pertinência das análises que vinculam a industrialização brasileira à dinamização do capital advindo da cafeicultura, mas pensamos que não deve ser essa a única explicação", afirma.
No estudo, Barbosa, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), não encontrou indícios da origem do capital cafeeiro no impulso da indústria calçadista em Franca até meados dos anos 50, quando o setor começa a se consolidar.
O pesquisador cruzou dados sobre a origem das famílias proprietárias dos cafezais e as de indústrias e mapeou as fontes dos recursos que levaram ao surgimento das fábricas de calçados. Para isso, pesquisou documentos como jornais da época, inventários, falências, processos, livros cartoriais, revistas e entrevistou empresários de indústrias remanescentes.
Diferentemente do que aconteceu com outros setores industriais, segundo Barbosa, o empresariado do setor calçadista em Franca formou-se a partir de pequenos artesãos e de comerciantes, perfil que, em grande medida, se mantém até hoje, como atesta levantamento patrimonial de 1890 a 1980, feito nos cartórios do município.
Constatou-se que mais da metade do empresariado calçadista possui riqueza de até US$ 50 mil. "Quando consideramos o conjunto dos dez principais empresários em 1950, seis deles exerceram trabalho manual e, em seis casos, a ocupação do progenitor era braçal. Tal situação não se altera muito se considerarmos as principais empresas atuais", destaca.
Para Barbosa, a contribuição da cafeicultura na indústria de calçados se deu de forma indireta. Os trabalhadores qualificados que vieram de outros países, durante o processo migratório, foram atraídos por este setor. Eles também contribuíram na construção da linha férrea que impulsionou a urbanização. Dados do estudo apontam que, de 1886 a 1920, a população da cidade cresceu mais de 300%, o que provocou a expansão dos negócios relacionados ao couro.
O cenário da formação da indústria calçadista estaria inicialmente no desenvolvimento da pecuária na região por volta de 1820, com a introdução do gado Vacum. A raça é adequada à manufatura do couro, gerando um processo semelhante ao que aconteceu, um século antes, na indústria do Rio Grande do Sul.
Outro aspecto importante para o desenvolvimento da indústria do calçado em Franca foi a localização geográfica da cidade, situada na rota comercial que ligava Goiás e Mato Grosso à capital paulista. Por ela, passavam mercadorias como arreios, sandálias e bainhas para faca que acabaram por impulsionar a economia local. "A obtenção da matéria-prima e o seu processamento na mesma região contribuíram para o baixo custo de produção, o barateamento do produto e a conseqüente receptividade do calçado francano no mercado", conta Barbosa.
O pesquisador lembra que a existência de água em abundância, em virtude dos diversos rios e córregos que circundam a região, e a forte presença de madeiras ricas em tanino, substância utilizada no curtimento do couro, são outros motivos que podem ter contribuído para a instalação dos curtumes na cidade.
A tese de Barbosa será publicada em livro pela Hucitec, em co-edição com a FAPESP, sob o título Empresariado fabril e desenvolvimento econômico: empreendedores, ideologia e capital na indústria do calçado, a ser lançado ainda este ano.