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Estudo alerta para estratégias de controle da Leishmaniose baseadas no uso de bactérias

Publicado em 07 agosto 2014

Na agricultura, bactérias causadoras de doenças em insetos (as chamadas bactérias entomopatogênicas) são utilizadas com frequência para a eliminação de pragas. Diferentemente dos inseticidas químicos, elas atuam de forma mais direcionada, agindo apenas contra determinadas espécies, e não representam risco para a saúde das pessoas. Por estes mesmos motivos, a estratégia é considerada uma possível arma também para o combate a insetos transmissores de doenças. No entanto, um estudo divulgado na revista científica Parasites and Vectors, sugere que essa abordagem pode ser contraindicada para enfrentar a leishmaniose. A pesquisa aponta que a presença do parasito Leishmania, causador da enfermidade, pode proteger os insetos transmissores da doença contra uma infecção bacteriana potencialmente letal. Os resultados, que pela primeira vez constataram que a infecção pela Leishmania pode ser vantajosa para o inseto, foram obtidos por cientistas das universidades de Lancaster e Liverpool, na Inglaterra, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e das universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e do Piauí (UFPI).

 

“Nossa descoberta reforça a necessidade de cautela no desenvolvimento de estratégias de controle do vetor da leishmaniose. Ao utilizar uma bactéria para combater os insetos, pode-se favorecer aqueles que carregam o parasito. Assim, mesmo que o total de vetores diminua, o percentual de infectados vai crescer, aumentando a chance de disseminação da doença”, afirma o pesquisador Fernando Genta, do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos do IOC/Fiocruz e um dos autores do artigo.

 

No estudo, os pesquisadores utilizaram flebotomíneos da espécie Lutzomyia longipalpis, principal inseto responsável pela transmissão da leishmaniose visceral no país, além de atuar na transmissão da forma cutânea da doença. Um grupo desses insetos foi alimentado com sangue infectado pelo parasito Leishmania mexicana. Algum tempo depois, eles ingeriram uma solução contendo a bactéria Serratia marcescens, que possui alta letalidade para estes insetos. O segundo grupo recebeu apenas a solução com a bactéria. Comparando os dados, os cientistas verificaram que os flebotomíneos infectados pela Leishmania tiveram uma taxa de sobrevivência cinco vezes maior: 56% contra apenas 11% no grupo sem o parasito.

 

Ação probiótica

 

O coordenador da pesquisa, Rod Dillon, da Universidade de Lancaster, afirma que, uma vez estabelecida no intestino dos insetos, a Leishmania passa a atuar como os micro-organismos probióticos, conhecidos por regular a flora intestinal, beneficiando a saúde. “Nós estávamos avaliando o uso de bactérias para impedir a propagação da leishmaniose, mas verificamos que a Leishmania funciona como um tipo de probiótico e reduz a mortalidade dos insetos”, declara.

 

De acordo com Fernando, os resultados alteram a forma como os cientistas percebem a interação entre o parasito e o vetor. “A Leishmania sempre foi vista como um parasito que prejudica o flebotomíneo. As fêmeas infectadas põem menos ovos e têm dificuldade de se alimentar. Porém, esse pode ser um mal menor em comparação a uma situação em que o inseto esteja combatendo uma bactéria entomopatogênica”, avalia.

 

Do ponto de vista evolutivo, a proteção conferida aos insetos pela presença da Leishmania pode ser um estímulo para que uma parcela da população de flebotomíneos seja mais suscetível à infecção pelo parasito. “Em áreas endêmicas para leishmaniose, geralmente apenas 1% dos insetos são infectados. A longo prazo, esta característica pode ser interessante para o flebotomíneo, pois permite que a espécie sobreviva no caso de disseminação de uma bactéria entomopatogênica”, esclarece.

 

Casos são frequentes no Brasil

 

O Brasil é um dos seis países que concentram mais de 90% dos casos de leishmaniose no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta 1,3 milhão de pessoas anualmente, causando cerca de 30 mil mortes. A forma mais frequente da patologia é a leishmaniose tegumentar americana, que provoca lesões na pele (leishmaniose cutânea) e, com menor frequência, nas mucosas do nariz e da boca (leishmaniose mucocutânea). Já o tipo mais grave da doença é a leishmaniose visceral – também conhecida como calazar –, que afeta os órgãos internos, especialmente o fígado, o baço, os gânglios linfáticos e a medula óssea.

 

A infecção pode ser causada por diferentes espécies de parasitos do gênero Leishmania. Além do homem, podem ser infectados animais silvestres e domésticos, sendo que os cães são os mais frequentemente envolvidos na propagação da doença. Os insetos transmissores (flebotomíneos) contraem o parasito ao sugar o sangue de bichos ou pessoas doentes e propagam a infecção ao picar outros indivíduos. Embora exista tratamento para a infecção humana, o parasito não é eliminado dos animais com medicamentos. Por isso, cães e outros bichos podem se tornar reservatórios do parasito e é recomendada a eutanásia dos animais diagnosticados.

 

Atualmente, não existem estratégias para combater os insetos transmissores da leishmaniose. Na forma adulta, os flebotomíneos medem cerca de 2 milímetros e encontrar suas larvas e pupas na natureza é muito difícil. Nas áreas endêmicas da doença, são indicadas medidas de proteção, como uso de repelentes, utilização de mosquiteiros e instalação de telas nas janelas, para evitar o contato com os insetos.

 

Agência FAPESP