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Estudante cria 5 mil abelhas em apartamento de 42 m²

Publicado em 28 dezembro 2015

Um estudante está fazendo um experimento inusitado no centro de São Paulo: criar 5 mil abelhas na sala de seu apartamento de 42 m². Para tornar isso possível, Celso Barbieri Jr., de 24 anos, teve de contornar alguns problemas. O apartamento não tem sacada e ele precisa manter a janela da sala fechada para que sua gata não fuja. A solução foi montar as colmeias em duas caixas de madeira que ele mantém em uma prateleira sobre a janela. Também criou um sistema de "túneis" feitos com canos de PVC - para as abelhas saírem para se alimentar -, que tem até uma entrada de madeira para simular uma árvore.

Depois, o mais difícil foi pensar em um toldo na ponta de um dos canos para evitar que as abelhas morressem atraídas pelas luzes noturnas e fossem parar nas casas dos vizinhos. "Queria ver se no centro da cidade, num lugar superárido, cercado por cimento de todo lado, daria para criar abelhas", diz. Deu certo. Além das sensíveis abelhas mandaçaias, ele cuida das pequenas jataís, ambas espécies nativas brasileiras de abelha sem ferrão. "Abro as caixas uma vez por semana ou a cada quinze dias para ver se estão botando ovos novos e se não houve invasão de mosca", conta. Se alguma abelha escapa, ele coloca de volta com a mão ou deixa que voltem à colmeia pelo cano.

A namorada Paula, com quem divide o apartamento, achou esquisito no início, mas passou a apoiar e gostar das abelhas. Os vizinhos de prédio também. Segundo Celso, as abelhas só vão onde há luz do sol e não os incomoda.

As jataís produzem um litro de mel por ano e as mandaçaias, cinco litros. Também fazem própolis, mas, em condições ideais, a produção seria bem maior. Celso não consome, pois está focado em observar o experimento.

Como tem menos de 50 enxames, ele precisou apenas fazer um cadastro técnico no Ibama e informar o objetivo da sua criação, sem precisar avisar a prefeitura ou outro órgão.

Na maior parte do ano não é preciso se preocupar em reforçar a alimentação das abelhas. Há flores suficientes na redondeza e ele fez uma hortinha vertical com hortelã, flores e pimenta perto das colmeias para elas coletarem pólen.

No inverno, coloca uma mistura de água com açúcar dentro da caixa para compensar a falta de flores.

Com as jataís, praticamente aposentou o guarda-chuva, pois o comportamento da abelhas seria um "ótimo serviço de previsão do tempo". "Quando o céu está fechado e as jataís voltam para a colmeia, sei que vai chover em uns 20 minutos, então nem saio de casa".

Celso é provavelmente a primeira pessoa a fazer tanto esforço para ter abelhas em apartamento em São Paulo, mas não é o único a querer criá-las em casa.

A fila de espera para ser guardião do grupo SOS Abelhas Sem Ferrão tem cerca de 60 pessoas - e já incluiu nomes como o chef Alex Atala, que recebeu um enxame para sua casa.

O jovem, que se forma neste ano, passou a ser um dos quatro administradores do grupo dois meses após participar de um evento que viu no Facebook. Hoje, gasta pelo menos quatro horas do dia pesquisando ou fazendo ativismo e pretende estudar o assunto em seu mestrado.

Uma das atividades do grupo é justamente resgatar abelhas sem ferrão em situação de risco em áreas urbanas e distribuí-las para interessados em cuidar delas. Não é necessário fazer curso para criá-las, mas eles dão dicas pela internet.

"Elas são inofensivas - as mais defensivas no máximo vão enrolar no seu cabelo ou tentar entrar no ouvido - e estão sumindo por causa do uso indiscriminado de agrotóxicos. São tão vulneráveis e a gente precisa delas, não tem como não se afeiçoar", afirma.

Polinização

A diversidade das abelhas é o que garante a polinização de diversas plantas e culturas agrícolas e melhora a qualidade de frutos de várias delas. Estudo realizado pela Universidade de São Paulo publicado no Journal of Economic Entomology em junho deste ano mostrou que o trabalho dos polinizadores - 90% deles são abelhas - foi responsável por US$ 12 bilhões do faturamento total de US$ 45 milhões de 40 culturas no Brasil em 2013. Entre elas estão café, soja, tomate, cacau e laranja.

"Cerca de 75% da alimentação humana depende direta ou indiretamente de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização animal", afirmou a professora Vera Lucia Imperatriz Fonseca, uma das autoras do estudo, em entrevista à revista Fapesp.

Nas cidades, explica Tereza Cristina Giannini, autora que coordenou a pesquisa, a importância das abelhas é de polinizar árvores e flores de parques e áreas verdes. Algumas árvores brasileiras só são polinizadas por abelhas nativas, por exemplo.

Preocupado com a diminuição das populações de abelhas no planeta, o empresário Alexandre Avari, de 38 anos, está há um ano na fila de espera do SOS Abelhas Sem Ferrão. Ele já cuidava de um ninho no muro de sua casa e entrou em contato com o grupo para saber como salvar três enxames do muro da casa de um amigo que ia fazer uma reforma.

Recebeu as instruções, fez o resgate sozinho e agora as abelhas do amigo estão preservadas e cercadas de flores. Mas Alexandre tem espaço para pelo menos mais duas colmeias em sua casa. "Elas estão aqui desde antes da gente, nós que somos intrusos, é uma questão de educação, se a abelha escolheu aquele lugar, quem sou eu para tirar", diz o empreendedor do ramo de inovações em tecnologia.

Por: Com informações da BBC Brasil