Notícia

Correio do Povo (Porto Alegre, RS)

Estudando galáxias

Publicado em 14 julho 2019

O físico e astrônomo gaúcho Roberto Dell'Aglio Dias da Costa é um dos mais respeitados do Brasil.Tem um currículo invejável. Estudioso de evolução química de nossa galáxia, a Via Láctea, e de outras galáxias similares, é frequentemente solicitado para dar explicações sobre fenômenos da naturezas, como eclipses lunares e solares. Recentemente fez estudos sobre o eclipse total do sol, que teve no Deserto do Atacama no Chile o seu ponto mais explícito e mais espetacular. Roberto da Costa está há mais de 30anos na Universidade de São Paulo (USP),uma das universidades brasileiras que mais destinam recursos para pesquisas nesta área. Aqui, ele conta a sua história e a sua carreira de cientista  

O senhor é gaúcho, professor da Universidade de São Paulo (USP) em uma área importante da Física. Como foi a sua trajetória até chegar a esta posição?  

Sou gaúcho de Cruz Alta, terra de Érico Verissimo, mas meus pais mudaram se para Porto Alegre quando eu tinha 12 anos. Lá vivi até me transferir para São Paulo, no final dos anos 80. Fiz o bacharelado em Física na Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e foi dentro do Instituto de Física desta universidade que tive contato com a área de Astronomia, pois lá tem um Departamento de Astronomia extremamente produtivo. Assim sendo, vi a Astronomia desde o começo já como uma atividade profissional, ou seja, como Física Aplicada. Concluído o bacharelado, fiz mestrado em Física, mas já na área de Astronomia. Após o mestrado, fui convidado para fazer doutorado na USP, em São Paulo, onde tem um grande Departamento de Astronomia, que era e continua sendo o maior do Brasil em número de docentes e estudantes de pós-graduação. Concluí meu doutorado, prestei concurso na USP e aqui estou já há mais de 30 anos.  

Quais são os estímulos que o movem a se aprofundar em uma área tão importante e, ao mesmo tempo, tão desestimulada pelas autoridades?  

Discordo que a Astronomia em particular seja uma área desestimulada. Todas as ciências no Brasil sofrem com a falta crônica de recursos, isso não é de agora. O que temos atualmente é a clássica história do cobertor muito curto: não há recursos para satisfazer as demandas de todas as áreas. Mas, mesmo assim, em nível do governo federal existem participações brasileiras em consórcios internacionais de astronomia que continuam sendo honradas com regularidade, como é o caso dos observatórios Gemini e SOAR. Aqui em São Paulo, a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) tem investido vultosos recursos na área de Astronomia, tanto em projetos exclusivamente nacionais como na participação em consórcios internacionais. É claro que não existe mais a figura do polímata, aquele que estuda sobre tudo e entende de tudo, mas, em minha área de especialidade, tento sempre aprender coisas novas, esse é o impulso fundamental de um cientista. Meu grande estímulo como cientista é a curiosidade: entender como alguns aspectos da natureza funcionam. Vale lembrar que este é o atributo essencial que nos distinguiu de nossos ancestrais não humanos há centenas de milhares de anos e que continuará a nos mover em direção ao futuro. Somos uma espécie curiosa e eu sou particularmente curioso.  

Quais os seus principais objetivos como professor, cientista e astrônomo?  

Há algum estudo inédito? Estudos acadêmicos publicados em revistas especializadas são sempre inéditos. É através da publicação de novos resultados que a ciência progride. Minha especialidade é o estudo da evolução química de nossa galáxia, a Via Láctea, e de outras galáxias similares a ela. O que faço é estudar as abundâncias químicas de distintos corpos celestes e usar estes resultados para modelar como se dá a evolução dos elementos químicos em nossa galáxia. O que está por trás desse tipo de estudo é uma constatação que, por mais antiga que seja (tem cerca de um século), continua a me fascinar: todos os elementos químicos que conhecemos, que compõem nossos corpos, o chão em que pisamos, nosso planeta e todos os demais, tudo foi fabricado nos núcleos das estrelas. Elas são as únicas fábricas de elementos químicos que existem na natureza. Todo o meu trabalho tem sido no sentido de entender melhor esses processos.  

Com relação a eclipses, fenômenos que o senhor tão bem conhece, quais são os próximos que a natureza nos oferecerá?  

Algum fenômeno raro à vista? Os eclipses lunares são fenômenos que não despertam interesse científico, apesar de serem belos espetáculos, porém os solares são oportunidades raras de se estudar a coroa solar, um pálido halo de luz que envolve o Sol e que só é visível durante os eclipses solares, quanto o disco da Lua encobre totalmente o brilho intenso da fotosfera solar. Eclipses são fenômenos bem previsíveis. Existem disponíveis catálogos com todos os eclipses pelos próximos 2000 anos. Por exemplo, agora no dia 16 de julho haverá um eclipse parcial da Lua visível bem no início da noite. Em 14 de dezembro de 2020 haverá um eclipse solar total visível no sul da Argentina e do Chile, que será visível como parcial do Brasil. Mas todos os anos há eclipses solares ou lunares a observar. O Brasil tem um grande território.  

Quais são os fenômenos físicos mais visíveis e rotineiros por aqui e que despertam tanta atenção de estudiosos como o senhor?  

Como mencionei, já no ano que vem haverá um eclipse parcial do Sol visível do Brasil, mas para observar um eclipse total a partir do território brasileiro, apenas em 12 de agosto 2045. Porém, fenômenos astronômicos periódicos interessantes acontecem com muita frequência. Os eclipses solares totais são muito raros, mas os eclipses lunares são muito mais comuns, pela razão óbvia de que a sombra da Terra projetada na Lua, ou seja, o eclipse lunar, é muito maior que a sombra da Lua projetada na Terra, que configura o eclipse solar. Além dos eclipses, as chuvas de meteoros ocorrem várias vezes por ano e são bonitas de serem observadas. Além desses fenômenos, as novas descobertas reveladas com frequência pelos astrônomos profissionais são sempre fascinantes. Veja por exemplo a foto de um buraco negro recentemente divulgada, cuja obtenção demandou anos de trabalho e análise de dados, mas cujo resultado teve importância fundamental para compreender tais objetos, que são extremamente complexos. Outro exemplo são as ondas gravitacionais, previstas por Einstein em 1915 e comprovadas um século depois, em 2016. Tal resultado proporcionou uma validação crucial da teoria da relatividade geral, um dos marcos fundamentais da Física do século XX.