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Biólogo

Estratégias de lutas entre animais

Publicado em 28 julho 2020

Por Carlos Fioravanti / Pesquisa FAPESP

Estratégias de lutas entre animais: Combinação de três modelos teóricos explica as estratégias de luta entre machos da mesma espécie

Quando brigam, machos da mesma espécie não adotam uma única estratégia que define o momento de parar ou continuar, como se pensava, mas podem ir de uma para outra, de acordo com o desgaste que sofrerem, o interesse na recompensa ou a força do oponente.

Biólogos de Minas Gerais, São Paulo e da Bahia chegaram a essa conclusão depois de examinar centenas de estudos científicos e de observar lagartos, caranguejos, besouros e anêmonas se atracando em laboratório ou sapos e grilos se digladiando em matas à noite.

Ecologia Comportamental

As motivações já eram conhecidas: com o coração batendo mais rápido, os machos se pegam principalmente por causa de fêmeas com as quais poderiam se acasalar, por abrigo, por comida ou por território. O problema persistente era que nenhuma das três teorias mais usadas explicava completamente como os animais agiam durante as contendas e por que paravam, tendo ou não vencido.

Croácia Selvagem

Guerra de desgaste (WOA)

A primeira teoria, chamada modelo de guerra de desgaste (WOA), defende que um valentão decide desistir com base apenas na energia que teria de gastar, sem avaliar o oponente. “O WOA é um modelo de avaliação própria”, diz o biólogo Paulo Enrique Cardoso Peixoto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É o caso, ele exemplifica, dos machos da borboleta Hermeuptychia fallax. Eles se enfrentam sem se tocar, voando em círculos um próximo ao outro, e param quando se cansam.

Modelo de avaliação sequencial (SAM)

A segunda abordagem teórica sobre estratégias de lutas entre animais, conhecida como modelo de avaliação sequencial (SAM), pressupõe que um macho entra em uma luta depois de avaliar o tamanho e a força do rival.

“Mesmo sem ter sofrido nenhum dano, um dos participantes pode desistir se perceber rapidamente que é mais fraco que o oponente”, explica Peixoto. É como fazem os camarões-mantis ou tamburutacas (Neogonodactylus bredini).

Modelo de avaliação cumulativa (CAM)

No modelo de avaliação cumulativa (CAM), a terceira abordagem, um combatente sai de uma refrega também por decisão própria, mas com base na interação com o outro. “A decisão de sair depende dos danos que sofre”, diz Alexandre Palaoro, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Diadema, na Grande São Paulo. É assim entre os caranguejos chama-maré (Austruca mjoebergi), por exemplo.

Em 2014, com Nelson Pinto, atualmente professor no Centro Universitário UniAraguaia, em Goiânia, Peixoto e Palaoro começaram a avaliar se os três modelos teóricos realmente explicavam as lutas entre machos de 36 espécies, incluindo insetos, aracnídeos, caranguejos, moluscos, anfíbios, répteis, peixes e mamíferos.

Eles concluíram que nenhuma das três teorias explicava completamente os conflitos entre os machos da mesma espécie, que pareciam mudar de estratégia enquanto se pegavam. Então, propuseram que mais de uma abordagem conceitual poderia ser usada para indicar quando os animais decidiam sair da briga ou enfrentar o oponente.

A combinação entre os modelos teóricos funcionava melhor do que cada um deles separadamente para explicar os conflitos que cada um, isoladamente, não explicava bem, como argumentado em um artigo publicado em agosto de 2019 na revista científica Biological Reviews. As escaramuças entre animais ficaram mais claras sob esse novo olhar.

Vale a pena brigar?

Melanotes ornata, um grilo de hábitos noturnos, por exemplo, é uma das espécies cujo comportamento não era bem explicado por nenhuma teoria isoladamente, porque muda de estratégia durante a luta. De setembro a novembro de 2015, coincidindo com a época reprodutiva dessa espécie, os biólogos Gabriel Lobregat, da Universidade Federal de Viçosa, e Thiago Kloss, da Universidade do Estado de Minas Gerais, passaram noites a observar esses grilos se digladiando em meio às árvores de duas áreas de conservação do Espírito Santo.

Primeiramente, esse inseto mede o rival, colocando uma antena sobre sua cabeça e outra sobre o fim do abdômen. “Se nesse momento o grilo percebe que o outro é muito grande, ele sai da briga”, diz Peixoto, que participou desse estudo, publicado em novembro de 2019 na Behavioral Ecology. “Ser capaz de avaliar se o rival é maior ou menor e desistir antes de entrar numa fase mais agressiva indica que eles fazem avaliação mútua, como previsto pelo SAM”, comenta.

Se não desistem, os grilos se posicionam em sentidos opostos, aproximando o final do abdômen, e, com as duas pernas maiores do que as outras, empurram-se ou se chutam, dentro da estratégia CAM. As observações realizadas com os grilos em um laboratório perto da mata (vídeo abaixo) reiteraram essas conclusões. Dos 39 encontros entre os machos, 20 resultaram em ataques efetivos, dos quais seis terminaram antes que começasse a troca de chutes, com a desistência de um dos grilos.

Artigos científicos