Notícia

Valor Especial

Estratégia para retomar posição

Publicado em 01 abril 2014

Por Ana Luiza Mahmeister

Recurso imprescindível para aumentar a capacidade inovadora e a competitividade de empresas de qualquer setor, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) vêm se expandindo no Brasil nos últimos anos. No entanto, o país ainda está longe de ocupar uma posição de destaque no ranking mundial de inovação tecnológica - em 2013, chegou a cair seis posições no Índice Global de Inovação, ficando em 64° lugar. A necessidade de vencer as dificuldades que impedem um desenvolvimento mais acelerado fez das TICs uma das prioridades das políticas públicas de incentivo, com a adoção de vários programas federais e estaduais de estímulo a projetos de pesquisa e desenvolvimento nas empresas, que, por sua vez, também destinam cada vez mais recursos na busca de inovações que possam posicioná-las com vantagem no mercado global.

A partir de um diagnóstico sobre as deficiências do setor, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCI) elaborou o Programa Estratégico de Software c Serviços de Tecnologia da In formação (TI Maior) para o período 2012-2015, trabalho feito em parceria com segmentos ligados a tecnologias de informação e comunicação, que, por meio de sistemas de software, hardware e telecomunicação, promovem melhorias em processos de gerenciamento, automação ou comunicação no ambiente empresarial, por exemplo, reduzindo custos e tornando as companhias mais ágeis e eficientes.

O programa do MCTI prevê a consolidação de ecossistemas digitais, a certificação e a preferência nas compras governamentais para software com tecnologia nacional, a aceleração de startups e a capacitação de jovens para o mercado profissional. Em 2013, o TI Maior atraiu investimentos privados da ordem de R$ 650 milhões de empresas como a Microsoft, Intel, EMC, SAP e Telefônica que vão gerir aceleradoras de empresas.

Outro instrumento importante de política pública é a Lei de Informática, que autoriza a concessão de incentivos como a redução de impostos para empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de inovação tecnológica. "Só no ano passado, o faturamento dessas empresas somou R$ 63 bilhões, com investimento de R$ 1,4 bilhão em P&D", destaca Virgílio Almeida, secretário de Política de Informática do MCTI.

O ministério também implanta o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis), com incentivos para P&D de etapas de montagem e fabricação de circuitos integrados. Entre os resultados estão a instalação de uma empresa brasileira de chips em Porto Alegre, a Ceitec, e a atração de duas estrangeiras: a coreana HT Micron, para São Leopoldo (RS), e a americana Smart, para Atibaia (SP).

No TI Maior, a IBM foi selecionada para receber R$ 5,5 milhões para um projeto de gerenciamento de recursos especializados de alto desempenho na nuvem. A empresa trabalha em um sistema que permite processar eventos inesperados ligados a problemas logísticos e catástrofes, movendo partes dos componentes para responder aos imprevistos de forma rápida e automática, explica Marco Aurélio Stelmar Netto, gerente de pesquisa da área de Computação em Nuvem da IBM Brasil.

A companhia também faz investimentos diretos em pesquisa no Brasil, onde abriu um dos seus dez laboratórios IBM Interactive Experience Lab, que tem investimentos globais da ordem de US$ 100 milhões. O foco é a criação conjunta entre pesquisadores da IBM e empresas clientes, trabalhando em análise de grandes massas de dados (analytics) e interfaces digitais, e tendo como prioridade o desenvolvimento de sistemas interativos que permitam às empresas prever os desejos e o comportamento dos clientes. "A meta é desenhar formas futuras de entrega de serviços aos consumidores", afirma Jesus Mantas, líder de consultoria da IBM para a América Latina.

A Microsoft também investe em centros de pesquisa e universidades no país. Por meio do Microsoft Research, a companhia mantém um acordo de cooperação para pesquisa científica e tecnológica desde 2006 com a Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), com a contratação de 74 projetos e investimentos de R$ 3,2 milhões. Um dos trabalhos envolve o desenvolvimento de um sistema de sensores que mapeia microclimas da Região Amazônica, conta Paulo Ludicibus, diretor de Inovação da Microsoft Brasil.

Para unificar diferentes iniciativas em P&D, o governo de São Paulo criou o Sistema Paulista de Inovação (Spai), com ações voltadas para parques tecnológicos, incubadoras de empresas de base tecnológica, centros de inovação e núcleos de inovação tecnológica.

Segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Rodrigo Garcia, o estado tem 34 parques tecnológicos e 28 centros de inovação. Uma das unidades foi inaugurada em março no campus da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e terá foco em ciência da vida. Para este ano, está prevista a inauguração do Parque Tecnológico do Jaguaré, voltado para o desenvolvimento de cidades inteligentes, com apoio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

A falta de um ambiente propício à inovação e a pouca articulação entre empresas, institutos de pesquisa e universidades é um dos principais problemas para o desenvolvimento do país, na opinião de Silvio Meira, fundador do Porto Digital de Recife e do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar). "O Brasil realiza pequena parte de seu potencial porque inovar e empreender aqui é caro e complicado", afirma. Autossustentável e sem fins lucrativos, o Cesar foi criado há 18 anos e trabalha sob contrato com empresas privadas. Para Meira, faltam ao Brasil institutos voltados para inovação que tenham fins lucrativos, hoje não contemplados pela Lei de Informática. Temos leis de várias idades e diferentes concepções que dificultam, ao invés de promoverem a inovação." Segundo ele, o resultado é o uso de laboratórios raros e caros de universidades federais por empresas privadas. "As linhas de financiamento acabam sendo canalizadas para centros sem fins lucrativos, impedindo que a inovação aconteça sem amarras."

Esse conceito, afirma Meira, não é mais válido internacionalmente. Em países como os Estados Unidos, a inovação surge em pequenas empresas, que são compradas pelas grandes. "Só o Yahoo comprou 38 empresas em 12 meses." Para ele, é necessário um conjunto de mudanças para que os recursos sejam direcionados a quem tem competência para inovar, seja quem for. "Hoje as empresas são obrigadas a aplicar 4% do faturamento à pesquisa, enfrentando uma malha legal complicada, e os investimentos nem sempre dão o retomo esperado." Meira diz que um dos equívocos da legislação é que as empresas brasileiras podem destinar recursos de inovação para qualquer lugar do Brasil - exceto em Manaus, onde são obrigadas a investir somente na região. Para ele, a inovação é estimulada pelo mercado mundial, e não acontece em ambientes fechados ou mercados protegidos. "Não é com financiamento, mas com investimento. Com mercado fechado, preço alto e baixa competição, não há incentivo para inovar."

A Totvs, que tem fábricas de softwares no Brasil, decidiu abrir um centro de P&D em Montain View, no Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos. "Precisávamos estar no olho do furacão em termos de inovação no mundo e participar do DNA da região", afirma o presidente da empresa, Laércio Cosentino. A decisão também seguiu a lógica econômica. "Quando se compara o custo gasto em um laboratório no exterior com a produtividade, vale a pena desenvolver lá fora", avalia. Entre as áreas de interesse do centro estão a internet das coisas (interligação entre máquinas) e a análise de informações de negócios em nuvem (business analytics).

Outra empresa que tem a internet das coisas entre as prioridades é a Intel. "Investimos em ecossistemas baseados na tecnologia que faz a conexão entre equipamentos por meio de sensores", explica Max Leite, diretor de Inovação da empresa. A Intel tem programas com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Paraná e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná em áreas de criptografia e melhora de eficiência energética. Entre as iniciativas estão o Sinav (Sistema de Informação Nacional Automotiva), que, baseado em sensores, permite o emplacamento eletrônico de veículos, centralizando informações e evitando fraudes; e o Posto do Futuro, desenvolvido com a Petrobras, que entrou em operação no ano passado no Rio de Janeiro. O sistema, segundo o diretor da Intel, conecta diversos equipamentos de abastecimento e manutenção dos automóveis, oferecendo a cada cliente soluções individualizadas, a partir de um cadastramento prévio.

INFORMATION AND COMMUNICATION TECHNOLOGY

By Ana Luiza Mahlmeister

UNITED WE GROW MORE

PPPs drive innovative initiatives

Brazilian Information and Communication Technology (ICT) has been growing in recent years, but the country is still far from ranking high in technological innovation. It even fell six positions on the Global Innovation Index in 2013, to 64th. The need to overcome difficulties impeding more agile development made ICTs one of the priorities of public incentives policy, with the adoption of a number of federal and state programs to stimulate research and development (R&D) projects inside companies which, in turn, are also increasingly investing in innovative projects.

One of the federal government's initiatives is the Strategic Software and IT Services Program (TI Maior) for the 2012-2015 period, which aims to consolidate digital ecosystems, certification and preference in governmental purchasing for software with national technology, accelerator programs for start-ups and professional job training for young people. Last year, TI Maior pulled in R$ 650 million in private investments from companies like Microsoft, Intel, EMC, SAP and Telefônica, which will create company accelerators. Another important public policy instrument is the Lei de Informática, also called the "Lei do Bem" [The Benefit Law], which stipulates incentives like the reduction of many taxes for companies that invest in innovative technology R&D.

IBM was selected through TI Maior to receive R$ 5.5 million for a project for management of specialized high performance cloud based resources. The company also invests directly in research inside Brazil, where it opened one of its ten IBM Interactive Experience Labs, upon which the company spends US$ 100 million globally. The focus is co-creation between IBM researchers and clients, prioritizing development of interactive systems that allow companies to foresee client needs and behavior. "The goal is to design future consumer service delivery plaforms," affirms Jesus Mantas, leader of IBM consulting for Latin America.

Microsoft is another corporation that invests in research centers and universities in Brazil. Through Microsoft Research, it has held a cooperation agreement for scientific and technological research with FAPESP (The São Paulo Research Foundation) since 2006 with contracts for 74 projects and investments of R$ 3,2 million. One of the projects involves development of a system of sensors that map microclimates in the Amazon region, says Paulo Ludicibus, director of Innovation at Microsoft Brasil. And Intel has programs with the Campinas State University (Unicamp), Federal University of Paraná and PUC Paraná in cryptography and energy efficiency improvement. "We invest in ecosystems based on technology that makes the connection between equipment through sensors," explains Max leite, director of Innovation at Intel

In São Paulo, the state government created the Sistema Paulista de Inovação (SPAI), which aims to bring together different R&D initiatives. The program unites programs related to tech parks, tech-based incubators, innovation centers and innovation technology nuclei.