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À Beira do Urbanismo

Estatais e petróleo no centro do Rio: uma nota

Publicado em 13 janeiro 2019

O papel da indústria do petróleo na recuperação do dinamismo imobiliário do Centro do Rio na primeira década do século XXI está competentemente analisado, e profusamente documentado, na dissertação da arquiteta e urbanista Alice Belém intitulada Novos Rumos para o Centro do Rio de Janeiro - os significados da prosperidade do petróleo (Especialização em Engenharia Urbana UFRJ 2013), que o leitor pode acessar pelo link [1].

Segundo Belém, “48% das empresas de petróleo e gás do município estão instaladas no Centro do Rio de Janeiro (..) com atividades relacionadas a Serviços, Produtos, Organização e Exploração & Produção”. Em 2008, só a Petrobrás contava 31 mil postos de trabalho no Centro, incluindo Praça da Bandeira, sendo 8,9 mil no edifício-sede (Edise) da Avenida Chile e outro tanto distribuído em edificações novas e retrofitadas, próprias e alugadas, no corredor urbano Castelo-Cruz Vermelha-Estácio - que, a propósito, reputo um aspecto ineludível do debate sobre os erros estratégicos da OUC Porto Maravilha.

Belém não deixa de observar que, apesar das privatizações, as empresas estatais remanescentes com sede no Centro do Rio representam vultosas massas de capital e expressivos contingentes de empregos, diretos e indiretos.

O papel das estatais herdadas dos ciclos desenvolvimentistas do século XX e, mais recentemente, da renovada economia do petróleo como contraponto ao impacto (1) das crises econômicas recorrentes, (2) da formação inexorável dos subcentros e, em especial, (3) da mudança da capital para Brasília em 1960 na formação de toda uma cultura urbanística da decadência e revitalização do Centro do Rio é assunto, com certeza, para um livro inteiro ou uma tese doutoral. No meu caso, quem sabe dois ou três artigos para este mesmo blog.

Um deles, com certeza, seria dedicado a debater a hipótese de Villaça, enunciada em sua obra-prima Espaço Intra-Urbano no Brasil (1998), de que “a única explicação possível para o fato de partes significativas das elites cariocas ainda usarem o centro do Rio”, fazendo dele o menos afetado dentre os centros metropolitanos brasileiros pelo abandono dos grupos sociais afluentes, “é uma só: a força da tradição e das monumentalidades herdadas do passado”. [2]

Parece-me que, no caso do Centro do Rio, ao lado da indiscutível “força da tradição” legada pela condição de capital da Colônia, do Império e da República, precisamos incluir dentre as “monumentalidades herdadas do passado”, como vetor de vitalidade econômica, a condição de sede principal do parque de empresas estatais brasileiras; e, dentre as monumentalidades construídas no presente, a circunstância de cidade-sede da indústria (cada vez menos) brasileira do Pré-Sal.

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[1] http://abeiradourbanismo.blogspot.com/2013/12/novos-rumos-para-o-centro-do-rio-de.html

[2] VILLAÇA, Flavio. Espaço Intra-Urbano no Brasil (1998), São Paulo: Studio Nobel; FAPESP; Lincoln Institute, 2001, p.292