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Diário de Santa Maria online

Estantes virtuais

Publicado em 01 junho 2010

Por Diário de Santa Maria Online - 01/06/2010

A digitalização de livros aumenta no mundo. No Brasil, as bibliotecas na Internet contribuem para a democratização da informação As publicações impressas ainda não sucumbiram ao mundo virtual. Prateleiras de bibliotecas e livrarias continuam abarrotadas e nem o anúncio do sedutor iPad (aparelho multimídia que permite a leitura de livros digitais) fez caírem os índices da lista dos mais vendidos do New York Times. Mas há, sim, uma batalha travada silenciosamente na galáxia do livro impresso.

Enquanto se debate se e-books vão substituir o papel, uma indústria paralela se prepara para digitalizar a maior quantidade de livros possível e discute sobre a ligação entre tecnologia e acesso à informação. Disponibilizar o conhecimento na web é democratizar a informação, mas como fazê-lo? E nesse campo de batalha há pelo menos duas frentes bem definidas. De um lado está a lógica comercial, que aceita o risco de burlar os direitos autorais. Do outro, as instituições que defendem o objeto e seu autor.

Nos Estados Unidos, a Google passou por cima das leis de direitos autorais e digitalizou 12 milhões de livros. O que não está em domínio público fica indisponível na web, mas permanece integralmente armazenado nos discos rígidos da empresa para futura comercialização. Em Paris, a Biblioteca Nacional da França (BNF) criou o Gallica, sistema online com mais de 1 milhão de livros e documentos. O Brasil ainda engatinha nessa trilha.

O projeto mais expressivo no país é o da Universidade de São Paulo (USP). A instituição disponibilizou na web 1,2 mil volumes da coleção de 40 mil títulos doada por José Mindlin em 2006. A biblioteca digital intitulada Brasiliana pode ser consultada por qualquer pessoa com acesso à Internet e é um braço de projeto mais amplo que envolve a construção de um prédio para receber o acervo de Mindlin.

A iniciativa de digitalização conta com financiamento de R$ 1,8 milhão do Ministério da Cultura e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Quase nada se comparado aos 14 milhões de euros (cerca de R$ 31 milhões) anualmente destinados ao projeto da francesa Gallica. Na país do presidente Nicolas Sarkozy, toda compra de equipamentos audiovisuais implica o pagamento de imposto reservado para a digitalização do acervo da BNF.

Em outras cidades - Para montar a Brasiliana, a USP tem um scanner robótico único na América Latina. Com braço mecânico, o equipamento pode digitalizar 2,4 mil páginas por hora.

"Não estamos conseguindo essa meta porque temos livros raros, delicados. Tenho conseguido colocar três livros novos por dia", revela Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana.

A intenção é disponibilizar todo o acervo livre de direitos autorais, aqueles livros que já estão em domínio público.

Também em São Paulo, a Mario de Andrade, maior biblioteca pública do país, amarga a falta de políticas sólidas para o livro na era digital. Entre 2000 e 2006, a instituição conseguiu disponibilizar apenas 200 obras raras e 4 mil do acervo de 3,3 milhões de itens.

"É pouco. Mas temos projetos para digitalizar livros raros sobre o Brasil, são projetos que mandamos para a Fapesp", conta a bibliotecária Joana Moreno de Andrade, responsável pela seção de obras raras.

No Rio de Janeiro, a situação traz um alento. Desde 2006, a Biblioteca Nacional (BN) tem laboratório próprio e equipe de oito pessoas para digitalização. O financiamento vem de instituições estrangeiras, como a Unesco e a Mellon Foundation, e a brasileira Finep.

"A digitalização tem dois objetivos: acesso e preservação", diz Angela Bitencourt, coordenadora da Biblioteca Digital da BN.

A Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE/UnB) não tem projetos de digitalização do acervo físico de 500 mil livros. A Biblioteca do Senado Federal é a única da cidade engajada em um programa informatizado. É possível consultar em rede 180 das 4 mil obras raras da instituição.

"Nossa capacidade varia de acordo com a qualidade dos documentos. Obras raras têm de ter manuseio cuidadoso, mas fazemos de 6 a 7 mil páginas por mês e o projeto começou em agosto de 2009", conta o bibliotecário André Luiz Lopes.