Notícia

Agência C&T (MCTI)

Estágios da dor

Publicado em 18 novembro 2007

Por Carlota Cafiero, da Agência Anhangüera (carlota@rac.com.br)

Arte no corpo
Freak show expõe o universo da modificação corporal

Suportar a dor física é algo compreensível somente quando se trata de mártires ou santos. Afinal, a qualquer sinal de dor, ingerir um analgésico parece ser a atitude mais sensata para nós. Mas, como explicar a adesão cada vez maior de pessoas à body modification (modificação corporal), termo usado para a arte de transformar permanentemente o corpo e através de métodos dolorosos? Esse assunto veio à tona com a apresentação, em Campinas, do performer, tatuador e piercer Manoel Garcia, conhecido também como Freak Garcia, que na madrugada de 10 de novembro trouxe o seu freak show para o Clube Kraft.

Em um número que durou cerca de 50 minutos, o performer sapateou, deitou e rolou em cacos de vidro, introduziu a broca de uma furadeira (com o aparelho ligado) no septo nasal (e sem sangrar), pendurou e balançou ferros de passar roupa em ganchos inseridos nas pálpebras e lábio inferior, comeu morangos flamejantes (apagando o fogo com a boca), explodiu bombas em partes delicadas do corpo e, para o grand finale, foi suspenso por cerca de cinco minutos através de quatro ganchos de aço de 4mm inseridos na pele das costas, tudo isso tendo a música clássica como trilha sonora.

Essa foi a segunda vez que Garcia trouxe seu freak show para a cidade e a primeira dentro da programação da festa Love Hurts, produzida pela também performer Bruna Guedes, com a colaboração do perfurador Felipe Espíndola, que foi quem realizou a suspensão em Garcia, utilizando agulhas americanas (que têm quase o mesmo calibre dos ganchos feito em aço inox).

A relação da cidade com esse tipo de performance existe há quase uma década. Em abril de 1998, Espíndola suspendeu um senhor de 68 anos, na verdade um performer conhecido como Schinke, vindo do Rio Grande do Sul, que tinha 90% do corpo tatuado e centenas de piercings. O perfurador considera aquela a primeira suspensão feita no Brasil. "É a única de que se tem registro em fotos e vídeo", lembra.

Espíndola, que também é performer e artista plástico, realizou até hoje 15 suspensões em outras pessoas. Ele mesmo foi suspenso duas vezes. "É preciso preparo físico e psicológico para controlar a dor. A suspensão é uma espécie de batizado, pois significa o topo da escada da mody manipulation (como ele chama a body modification). Só é suspenso o cara que está preparado para isso e por isso ele é o mais respeitado no meio", diz.

O perfurador conta que a suspensão começou nas Américas com os índios Sioux, nos Estados Unidos — lembre-se do filme Um Homem Chamado Cavalo, de 1970 — e que passou a ser praticada no Brasil a partir dos anos 90, com a cultura dos clubbers e das festas de música eletrônica. Os adeptos da body modification nas grandes cidades são conhecidos como modern primitives.

Ficção

Pesquisadora há quase dez anos do assunto, atualmente como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e professora na faculdade de moda do Centro Universitário Senac, em São Paulo, Beatriz Ferreira Pires separa a suspensão entre ritualística e performática. Ela conheceu um grupo formado por dezenas de pessoas de várias partes do mundo que se encontram no Brasil para praticar a suspensão com finalidade sagrada, dentro de um ritual conhecido como Dança do Sol, que era comum entre os índios Sioux.

Para não expor o grupo, ela não revela em que parte do País é realizado o ritual, mas afirma ter encontrado entre seus adeptos professores, médicos e dentistas. "É um ritual de agradecimento em que as pessoas fazem jejum e retiram-se para uma montanha durante cinco dias. A suspensão é realizada somente em homens", conta. "O homem vai oferecer a dor e o sangue para a mãe terra. A mulher já faz isso através da menstruação e do parto."

Para Beatriz, a suspensão e outras práticas de mody modification — que difere da body art porque produzem marcas permanentes no corpo de quem faz —, como tatuagem, piercing e implante, causam espanto talvez porque não pretendem reproduzir a forma humana nem seguir um padrão de beleza. "Você está materializando formas que existem somente na ficção."


A frase
"Estamos acostumados a ver Jesus crucificado e não nos chocamos com isso. Mas ficamos chocadas ao ver uma pessoa suspensa por ganchos, sendo que ela escolheu estar ali. Jesus não queria ser crucificado."


Beatriz Ferreira Pires
Autora do livro Corpo Como Suporte da Arte (Editora Senac)