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Pharma Innovation

Esta startup brasileira tem o sonho de criar órgãos usando bioimpressoras 3D

Publicado em 19 outubro 2021

A TissueLabs, start-up brasileira que quer “imprimir” um coração humano em laboratório, está pronta para o próximo passo nessa maratona de pelo menos duas décadas.

Depois de abrir escritório na Suíça (Lugano) e receber R$ 1,5 milhão em investimento anjo, no ano passado, a start-up conversa com quatro fundos (três deles brasileiros) para levantar US$ 2,5 milhões em um aporte semente. A rodada deve ser fechada nos próximos meses.

A TissueLabs foi co-fundada em 2019 pelo médico Gabriel Liguori, de 32 anos, que despertou para a vocação ainda criança, em virtude de uma cardiopatia congênita. A ideia da start-up veio após um doutorado em medicina regenerativa na USP e na universidade de Groningen, na Holanda.

Um dos métodos pesquisados foi a bioimpressão, que “empilha” células e cria tecidos em laboratório por meio de uma impressora 3D — semelhante àquelas que criam objetos plásticos, mas com outros níveis de precisão e controle. Espera-se que, no futuro, o método permita a “impressão” de órgãos transplantáveis, mas hoje só é possível criar poucos centímetros de tecido.

— Ainda há muitos gargalos. Não conseguimos células em escala suficiente para produzir grandes tecidos. A criação de sistemas de microvascularização é uma dificuldade ainda maior. Mas acreditamos que em 15, 20 anos, conseguiremos a escala que procuramos — explica o médico.

‘Modelo sustentável’

A sacada da TissueLabs foi transformar as ferramentas em negócio para, assim, financiar a busca pelo coração impresso no longo prazo. A start-up comercializa a impressora (TissueStart) e as “biotintas” — solução de hidrogel e células que alimenta a impressora — que ela própria desenvolveu. Essas soluções são patenteadas.

A impressora custa € 6 mil e já é usada por 50 laboratórios em 14 países. Entre eles está o recém-inaugurado Laboratório BIODESIGN, criado pela PUC-Rio em parceria com a holding de medicina diagnóstica Dasa, da família Bueno. Há também empresas, com uma start-up mexicana que usa o equipamento para produzir proteína animal em laboratório.

— Já faturamos mais que o investimento anjo que recebemos. É um modelo sustentável, que nos permite financiar pesquisas intensivas em capital. Com a rodada semente, buscamos mais um sócio estratégico, que nos ajude a desenvolver o negócio, do que dinheiro — diz Liguori, que fundou a start-up com o engenheiro Emerson Moretto e foi incluído na lista de jovens latino-americanos mais inovadores da MIT Technology Review.

A nova captação ajudará a start-up a iniciar pesquisas clínicas. Em cinco anos, o plano é lançar o primeiro produto clínico, um “biomaterial” que, injetado no pericárdio, inibe insuficiência cardíaca. Já houve estudos iniciais em ratos e, agora, o objetivo é testá-lo em porcos. Outra meta é lançar novas impressoras e crescer a equipe de 16 para 50 pessoas, com foco em estruturar seu time comercial.

— Queremos explorar o mercado americano, onde pouco atuamos hoje — afirma. — Já em novembro devemos lançar uma nova impressora. Temos outros equipamentos programados para o ano que vem, além de novas “biotintas”. Também estamos começando uma linha de serviços.

Hub de biofabricação

A TissueLabs também vai integrar um hub de biofabricação que será inaugurado pelo cantão de Ticino, região da Suíça onde Liguori e sua diretora de pesquisas estão baseados (o restante da equipe fica em São Paulo). O projeto vai reunir universidades, empresas e start-ups que atuam no filão.

— Vamos aos poucos trazendo mais pessoas pra cá. Viemos para a Suíça porque aqui é fácil de fazer negócios e nos dá acesso privilegiado ao mercado europeu — acrescenta.

A TissueLabs também vem se desenvolvendo com apoio de recursos públicos, vindos de instituições como a Fapesp. A start-up também integra a incubadora da USP. Quanto à rodada anjo, ela foi liderada pelo economista Eduardo Zylberstajn, consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).