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‘Está realmente havendo aumento no desmatamento da Amazônia’, diz cientista ex-chefe do CpTec

Publicado em 03 agosto 2019

Por Elton Alisson, de Campo Grande (MS)  |  Agência FAPESP

Um dos mais destacados cientistas brasileiros, Carlos Nobre confirmou que os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revelam uma aumento exponencial do desmatamento da Amazônia neste ano frente ao período anterior.

A divulgação dos dados abriu uma crise entre o Inpe e o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que fez duras críticas contra o instituto e o seu diretor, Ricardo Galvão, que acabou sendo exonerado do cargo nesta sexta-feira, após três no cargo. Bolsonaro chegou a chamar os dados do Inpe de “mentirosos”.

Ex-chefe do Cptec (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) e pesquisador aposentado do Inpe, Nobre defendeu a qualidade do trabalho do instituto durante palestra na 71ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), na semana passada, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

“Os números da série anual do Prodes, que compreende o período de agosto de 2018 a julho de 2019, devem confirmar o que os dados dos últimos meses mostraram: que o desmatamento da Amazônia nos últimos 12 meses foi muito maior do que no período anterior”, disse Nobre, segundo a agência Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo).

“Temos que partir do princípio de que está realmente ocorrendo um aumento do desmatamento na Amazônia”, disse o especialista.

De acordo com Nobre, o questionamento em relação aos dados sobre o desmatamento da Floresta Amazônica é infundado.

Isso porque a margem de incerteza do sistema varia de 10% a 12%.

O Inpe deve divulgar nos próximos dias dados do Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real) para o período de agosto de 2018 a julho de 2019.

DESMATAMENTO.

Entre outubro e novembro deste ano, sairão os dados do Prodes para o mesmo período, utilizados para verificação do Deter.

O Prodes usa imagens do satélite Landsat e apresenta os dados consolidados sobre o desmatamento total apenas uma vez por ano.

DADOS.

O sistema apontou que o desmatamento na Amazônia em quilômetros quadrados aumentou nos meses de maio (34%), junho (91%) e nos primeiros 20 dias de julho (125%) deste ano, isso na comparação com o mesmo período no ano passado.

“Esses percentuais de aumento estão muito além da margem de incerteza. A probabilidade de que o desmatamento da Amazônia está aumentando está acima de 99%”, afirmou Nobre, lembrando que os “dados são públicos”.

Sem manejo, floresta pode ter 70% a mais de terras queimadas

O uso desregrado da floresta amazônica para fins de agricultura e pecuária pode aumentar em mais de 70% as áreas com alta probabilidade de queimada até o final deste século, na comparação com os padrões atualmente observados. Um desastre completo para o ecossistema.

Este cenário inclui, por exemplo, a redução da efetividade das áreas protegidas, a pavimentação de novas rodovias e o aumento do desmatamento.

É a conclusão de um estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em colaboração com o Cemaden (Centro de Pesquisa e Monitoramento de Desastres) e as universidades de Exeter (Reino Unido) e de Estocolmo (Suécia).

Intitulado “Efeitos de cenários de mudanças climáticas e de uso do solo na probabilidade de fogo durante o século 21 na Amazônia brasileira”, o trabalho foi publicado na semana passada na revista Global Change Biology.

O relatório reforça a necessidade de controlar o desmatamento da Amazônia, trabalho de observação e produção de dados do Inpe que vem sendo criticado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

De acordo com os autores, o uso planejado e sustentável da terra na Amazônia pode minimizar drasticamente a degradação florestal provocada pelo aumento de incêndios devido às mudanças climáticas.

Quando combinado com o cenário pessimista de mudança climática do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que projeta maiores emissões de gases de efeito estufa ao longo do século 21, a área com alta probabilidade de incêndios poderia aumentar em até 110%.

“Se continuarmos removendo a cobertura florestal na Amazônia, estaremos potencializando a probabilidade de degradação das florestas remanescentes, com consequências para a estabilidade dos estoques de carbono e serviços ambientais”, disse Marisa Fonseca, pesquisadora de pós-doutorado no Inpe e principal autora do estudo.

Os resultados indicam que mais de 1 milhão de quilômetros quadrados em terras indígenas ou áreas protegidas estariam sujeitas a incêndios florestais.

‘Cumprir legislação ambiental reduzirá danos à floresta’, diz pesquisador

A adoção de medidas destinadas a reduzir o desmatamento e as emissões de gases pode reduzir significativamente a probabilidade de incêndios florestais, mesmo com a intensificação das secas na Amazônia no final do século, segundo pesquisa do Inpe. O aumento da área com alta probabilidade de incêndio seria 90% menor no cenário que considera o cumprimento da legislação ambiental.