Notícia

Correio da Paraíba

Esquizofrenia causa desajuste em crianças

Publicado em 29 julho 2007

São Paulo (Pesquisa Fapesp) - As vítimas da esquizofrenia legam a seus filhos o peso de uma dúvida e as dores de um estigma. As crianças crescem sem saber se herdarão ou não o grave transtorno do funcionamento cerebral que produz pensamentos desconexos, alucinações, delírios de perseguição e, em casos extremos, um completo alheamento.

Ocorre que a esquizofrenia costuma manifestar-se em apenas 13% dos filhos de pacientes, em contraste com o risco de 1% encontrado na população em geral, e demora a emitir seus primeiros sinais, que despontam principalmente na faixa dos 20 aos 29 anos. Só depois dessa fase os que têm pai ou mãe com a doença começam a respirar com algum alívio, ainda que, em casos raros, a doença possa manifestar-se mais tarde.

Estigma

Pesquisas recentes revelam, contudo, que os efeitos do estigma, resultantes do preconceito e do isolamento social, são persistentes e atingem a todos, inclusive os filhos que não apresentam a doença. Criados geralmente em ambientes desestruturados, nos quais a referência paterna ou materna é ausente ou francamente perturbada, eles não raro assumem a responsabilidade de cuidar do pai ou da mãe doentes e acumulam prejuízos em seu desenvolvimento.

Parâmetros de monitoramento

A medicina estabeleceu parâmetros capazes de monitorar os filhos de portadores da esquizofrenia na tentativa de identificar precocemente sinais da doença e estabelecer intervenções capazes de minimizar os efeitos. Já aqueles que não desenvolvem a moléstia são solenemente ignorados pelas políticas de saúde pública. "Eles sofrem desajustes em vários aspectos de suas vidas, mas é como se isso não existisse", afirma a psiquiatra Angela Cristina César Terzian, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). "Os pais portadores da doença mental e suas famílias têm uma interação complexa, mas isso não é levado em consideração na formação dos profissionais de saúde mental, nas intervenções dos serviços públicos nem nas discussões do planejamento de novas ações de saúde em nosso país."

Angela coordenou uma pesquisa pioneira no país com famílias de portadores de esquizofrenia que, além de municiar sua tese de doutoramento defendida em 2006, revelou o impacto da doença na vida dos filhos dos pacientes, traduzido em desajustes mesmo sem herdar o mal. Tal pesquisa é parte do projeto "Maternidade e paternidade na esquizofrenia: o impacto da doença na vida de pacientes e seus filhos", coordenado pelo professor Jair de Jesus Mari, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que obteve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Baixo padrão reprodutivo

Em dois artigos científicos, Angela apresentou dados preocupantes. Num dos estudos, divulgado no ano passado na Revista Brasileira de Psiquiatria, analisou as taxas de fertilidade e fecundidade numa amostra de pacientes com esquizofrenia atendida num ambulatório da Unifesp. No segundo estudo, publicado em abril deste ano nos European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, ela fez um levantamento com 489 pacientes tratados em serviços de saúde mental da Grande Cuiabá, Mato Grosso. A comparação entre os dois universos permitiu enxergar que o baixo padrão reprodutivo dos pacientes com esquizofrenia registrado em países desenvolvidos repete-se no Brasil urbano (São Paulo), mas provavelmente não se aplica à realidade do Interior.