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Esquina da América Latina em São Paulo

Publicado em 01 abril 2011

Por Luciana Oncken

São sete prédios distribuídos em aproximadamente 84 mil metros quadrados, no que o autor, um dos mais importantes arquitetos do século XX, Oscar Niemeyer, chamou de "O Espetáculo da Arquitetura". "Imensas ondas em concreto, flutuando meio que soltas no ar, cada uma com uma solução arquitetônica diferente", descreve o artista. Em conjunto, podem ser vistos, diz Niemeyer, como um jogo entre cheios e vazios. Os prédios estão distribuídos como ilhas. Pintados de branco, contrastam com o cinza do chão e o preto dos vitrais. Estão divididos nos dois lados da rua. Unidos por uma passarela.

O conjunto arquitetônico criado por Oscar Niemeyer unido à concepção cultural e científica do antropólogo Darcy Ribeiro e ao contexto histórico à época de sua criação fazem do Memorial da América Latina um espaço tão rico, tão diverso e tão único como a porção do mundo que ele representa. O Memorial tem muitas facetas. Conhecido como a esquina da América Latina em São Paulo, é um espaço para manifestações artísticas e científicas latino-americanas. Traz em seu conceito a proposta de união e solidariedade entre os povos dessa parte do continente. Inaugurado em março de 1989, num momento político de abertura significativo para a América-Latina, oprimida por anos de ditadura, vem cumprindo o seu papel de fomento à pesquisa e de divulgação de seus resultados. Coordena iniciativas de instituições científicas, artísticas e educacionais do Brasil e de outros países iberoamericanos. Faz parte de sua missão também difundir a história dos povos latino-americanos às novas gerações de estudantes. "Não existe um complexo como esse, polo de integração entre os povos da América-Latina", afirma Adolpho José Melfi, diretor do Centro Brasileiro de Estudos da América-Latina (CBEAL), que integra a Fundação Memorial da América Latina.

Chegando de metrô, ou pelo Terminal Barra Funda, a visita começa pelo portão 1. Subindo as escadas, o visitante encontra a Praça Cívica, um imenso espaço aberto de 12 mil metros quadrados para manifestações culturais. Com capacidade para até 40 mil pessoas, recebe festas típicas do continente e de várias regiões do Brasil, shows populares, festivais, oficinas e espetáculos variados. A praça reúne os prédios da Galeria Marta Traba (antigo restaurante), da Biblioteca Latino-Americana Victor Civita e o Salão de Atos Tiradentes. O prédio da recepção, apelidado de "Queijinho", também fica ali, e é ponto inicial da visita monitorada.

Um dos destaques dessa parte do Memorial é a "Mão", escultura de Oscar Niemeyer. Em sua palma, o mapa da. América Latina se esvaindo em sangue. A imagem foi inspirada na obra literária "As Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio. A obra traz a história da exploração latino-americana, levando a uma reflexão sobre quanto de sangue se perdeu diante das nações dominantes. Um processo ocorrido desde o início da colonização até os mais recentes processos de industrialização. "Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num mono bloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz", sonha Niemeyer. A "Mão" leva a momentos de reflexão e fruição estética.

Do lado oposto, atravessando uma sinuosa passarela, encontramos o Pavilhão da Criatividade, a lanchonete, a administração, o Auditório Simon Bolívar e o anexo dos Congressistas. Até tentaram deixar o Memorial mais verde, plantando 160 palmeiras Jerivá entre os prédios desse lado da rua. Arvores, plantas e gramados somam 16 mil metros quadrados ao longo dos muros. Mas as plantas somem diante dos 25 mil quadrados de área construída do complexo.

Arte e literatura com sotaque latino

Durante a semana, é bastante tranqüilo visitar o Memorial. Bom para caminhar e contemplar o complexo, visitar os espaços culturais, estudar na Biblioteca. Entrando pelo portão 1, o primeiro prédio é a Galeria Marta Traba, única no Brasil inteiramente dedicada às artes e à cultura latino-americanas. O prédio de mil metros quadrados, em formato de cilindro, é sustentado por uma única coluna central, circundado por painéis. O resultado é uma visão, de qualquer ponto da galeria, de todo o conjunto das obras expostas.

O local realiza exposições variadas de artistas latino-americanos, mas também recebe artistas de outros continentes. Atualmente, abriga a mostra de Arte Lusófona Contemporânea, que reúne 20 jovens artistas emergentes de países de língua portuguesa, até o dia 10 de julho. Recentemente, em homenagem aos 103 anos de Oscar Niemeyer, a mostra "Mão da América" multiplicou em miniatura a escultura "Mão". Cinquenta artistas da América Latina, a maioria com alguma passagem pelo Memorial, foram convidados a fazer uma reinterpretação da obra de Niemeyer, uma oportunidade para olharem a longa história desse subcontinente e construírem novos significados poéticos a partir dessa reflexão. A exposição ficou em cartaz até o 12 de fevereiro, mas pode ainda ser vista pela internet, no Flickr da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Entrar na Biblioteca Victor Civita, ao fundo da Praça Cívica, é estar diante da maior biblioteca do mundo especializada em temas latino-americanos, com mais de 30 mil títulos. Seu interior livre dá uma aspecto leve à construção, formada por duas abóbadas apoiadas em uma longa viga central com 90 metros de extensão, criando um conjunto harmonioso com o Salão de Atos ao lado. O revestimento em vidro preto substitui o concreto. Os apoios estão do lado de fora do edifício, constituídos por duas altas colunas que se unem à viga. A simplicidade de seu interior e o ambiente arejado faz com que não haja interferência no processo de leitura e estudo.

E não são só livros que encontramos ali. Há também uma discoteca e uma cinemateca no local, em um a acervo formado por documentários, comédias e dramas da cinematografia internacional e, principalmente, da latino-americana. Destacam-se produções cubanas, mexicanas e argentinas, além da brasileira.

Mensalmente, é organizada uma mostra de filmes tendo como fio condutor a América Latina. A Biblioteca tem um auditório para cem pessoas. Nele são realizados seminários, palestras, debates e cursos. Basta acessar o site do Memorial (www.memorial.org.br) para se ter uma idéia da rica programação oferecida. Em seu saguão, são montadas exposições que muitas vezes complementam ou ilustram o que está sendo discutido no auditório.

Saindo da Biblioteca, caminha-se para o mais importante prédio, do ponto de vista da arquitetura, dessa ala do Memorial, o Salão de Atos Tira-dentes, sede de solenidades e recepções oficiais. E chamado de "o coração do Memorial". Não é para menos, a sensação, ao adentrar o espaço com pé direito de 30 metros de altura e uma luz tênue, é de estar numa catedral, uma "catedral profana", como diz Niemeyer. Constituído por uma única abóbada apoiada sobre a viga, perpendicularmente ao solo, a construção impressiona. Duas grandes colunas, nos extremos da viga, marcam a entrada. Ali, também está o parlatório, posicionado sobre o espelho d"água. De frente para entrada, o visitante se depara com a mais importante obra de Cândido Portinari, o enorme Painel Tiradentes, de 1948. E uma das poucas obras do artista que não pertencem a coleções particulares. A obra foi concluída pelo pintor em 1949, encomendada por tradicional família mineira para decorar o saguão do Colégio Cataguazes. Em 1975, foi adquirida pelo governo do Estado de São Paulo e está no Memorial da América

Latina desde a sua inauguração, em março de 1989. A obra passou recentemente por meticulosa restauração, que durou seis meses. Seis painéis em baixo-relevo, construídos em concreto aparente pelos artistas plásticos Caribé e Poty compõem o conjunto da obra.

Todos os países da América Latina

É hora de atravessar a sinuosa passarela de Niemeyer e fazer uma viagem pela arte popular dos países desse nosso subcontinente. O Pavilhão da Criatividade, construído de forma mais convencional, acolhe quatro mil peças, entre as quais: trajes típicos, máscaras, estandartes, instrumentos musicais, objetos de adorno e de uso cotidiano, obras em argila, madeira, esculturas de ferro, brinquedos, adereços religiosos e profanos. O acervo, distribuído em seus 1600 metros quadrados, foi constituído, a pedido de Darcy Ribeiro, pelo casal de fotógrafos e especialistas em arte popular Jacques e Maureen Bisilliat, em 1988. Sob o chão de vidro, é interessante observar a enorme maquete representando as festas típicas e os costumes dos países que compõem a América Latina.Os prédios dessa ala do Memorial possuem uma arquitetura mais racional, com exceção do Auditório Simon Bolivar, o complexo edifício do conjunto, dotado de duas platéias com 1600 poltronas. O local é dedicado a apresentações artísticas e à realização de congressos e convenções. O prédio é formado pelo arranjo de três abóbadas sucessivas, sendo duas apoiadas em uma grande viga de concreto. Sob a seqüência de abóbadas encontra-se abrigado o caixilho de vidro. Já passaram pelo seu palco, o Balé Nacional de Cuba, a Orquestra Filarmônica de Israel, Mercedes Sosa, Astor Piazzolla, Tom Jobim, Hermeto Paschoal, Libertad Lamarque, entre outros. O auditório também já recebeu chefes de Estado, como Bill Clinton, Fidel Castro, Hugo Chavez.

Cátedra da Unesco

Temas comuns aos países da América-Latina são o destaque das ações promovidas pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBE-AL), que tem como diretor o professor Adopho Melfi, geólogo, membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo desde 1977, com rica produção científica e diversos trabalhos publicados nas mais importantes publicações científicas do mundo. "Existem outras instituições que estudam a América Latina em países da Europa, nos Estados Unidos, mas não existe um centro complexo como esse", explica o professor.

O CBEAL foi concebido por Darcy Ribeiro. "Ele queria uma Cátedra que fizesse a interface entre as três universidades públicas do Estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento", conta Melfi. A partir desse trabalho, foi possível criar um espaço que apoiasse e incentivasse os estudos acadêmicos que tenham como tema a América Latina, fazendo uma integração entre as atividades intelectuais e científicas do Estado. "Houve um período áureo, na criação do Memorial, que foi retomado há alguns anos", ressalta o diretor db CBEAL. Somente em 2006, foi instituída a Cátedra Memorial da America Latina. Hoje, Melfi conta que existe uma rica atividade e o Centro Brasileiro de Estudos para a América Latina vem cumprindo o seu papel de fomento à pesquisa pioneira e à reflexão sobre importantes processos latino-americanos. "O centro recebe, hoje, acadêmicos e estudiosos de todo o Brasil, da América Latina e de outros países, tendo sempre como foco de estudos o subcontinente" completa.

Em 2009, transformou-se em Cátedra Unesco Memorial da América Latina. As três universidades paulistas articulam uma rede de apoio que incluem universidades latino-americanas e empresas" privadas. "Trata-se de um programa de pesquisa e docência desenvolvido semestralmente por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, de comprovada competência em suas áreas", explica o geólogo. E realizado, anualmente, um grande curso, que dura de quatro a cinco meses. O programa tem como objetivo promover o desenvolvimento de temas relevantes, mediante estudo sistemático das realidades culturais, históricas e políticas dos países latino-americanos. Todo curso resulta numa publicação. O tema deste ano é "Doenças Negligenciadas na América Latina", ministrado pelo professor Erney Felício Plessmann de Carmargo. Entre as endemias e doenças negligenciadas: doença de Chagas, esquistosomose, malária, tuberculose, filariose, oncocercose, mansonelose, micoses superficiais e profundas, arborviroses e novas viroses, além de doenças exóticas e doenças em progressão.

Memorial virtual

Desde 2009, a maior biblioteca de temas latino-americanos, Victor Civita, pode ser consultada pela internet de qualquer parte do planeta. Pelo site da Fundação Memorial da América Latina (www.memorial.org.br), dá para fazer um passeio virtual pelo complexo arquitetônico e por suas áreas internas. E para acompanhar o dia a dia e a programação desse grande espaço, é só seguir o Memorial no Twitter ou no Facebook. Fotos das exposições são postadas no Flickr da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A entrada do Memorial no mundo virtual é uma forma de aproximar os países latino-americanos e mostrar sua identidade e evolução para o mundo.

Serviço:

Biblioteca Victor Civita

Horário: de segunda a sexta, das 9h às 18h; aos sábados, das 9h às 15h. E-mail: bla@memorial.sp.gov.br Galeria Marta Traba

Horário: de terça a domingo, das 9h às 18h.

E-mail:galeria@fmal.com.br

Biblioteca Virtual

http://www.bvmemorial.fapesp.br

Facebook: Habla Memorial

Twitter: http://twitter.com/hablamemorial