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Esponjas para lavar o Mal do Século

Publicado em 06 agosto 2010

No passado, a tuberculose atingia pesadamente a população mais pobre, os mineiros e os jovens boêmios. Entre 1800 e 1950, a doença abreviou a vida de milhões de pessoas e ficou conhecida como o Mal do Século. A morte precoce levou grandes talentos da literatura e do teatro: do russo Anton Tchecov ao norteamericano Edgar Allan Poe, passando por Franz Kafka, Honoré de Balzac e D. H. Lawrence, além de muitos outros. E de Castro Alves a Noel Rosa, entre os brasileiros.

A partir de 1945, as perspectivas mudaram: com o fim da Segunda Guerra Mundial, a vacina BCG tornou-se disponível para a maioria da população e, um ano depois, foi descoberta a estreptomicina, primeira substância antibiótica eficaz contra o bacilo causador do mal, chamado Mycobacterium tuberculosis. O bacilo geralmente se instala nos pulmões e, em um a cada dez casos, desenvolve-se a doença ativa, com febre alta, suores noturnos e tosse persistente, às vezes com sangue.

Com a vacina e o remédio, os médicos chegaram a prever para este início de Século XXI a extinção da doença. Mas a previsão se revelou otimista demais, desmoronando no fim dos anos 1980, diante da epidemia de AIDS e do alto índice de tratamentos inacabados. Enquanto a AIDS debilita os pacientes e facilita o desenvolvimento da doença, a interrupção dos tratamentos fortalece os bacilos, gerando multiresistência aos medicamentos.

A somatória dos dois fatores obrigou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a se engajar numa campanha mundial, cuja meta é chegar a 2050 com apenas 1 doente por milhão de habitantes. Atualmente, são 2 bilhões de infectados e 1,4 milhão de mortes por ano (uma a cada 4.820 habitantes).

Entre as seis medidas da OMS para alcançar a tal meta está investir em pesquisas com novos medicamentos. Como a desenvolvida com base na biodiversidade brasileira pelo químico Roberto G. S. Berlinck e seus alunos de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), campus São Carlos (http://quiprona.wordpress.com). Após concluir seu doutorado sobre compostos químicos encontrados em seres marinhos, na Université Libre de Bruxelles, na Bélgica, Berlinck trouxe para o Brasil esta linha de pesquisa, ainda muito pouco explorada por aqui.

Isso foi em 1992. De lá para cá, o pesquisador manteve seu foco de interesse, buscando entre as esponjas, em especial, compostos químicos com bom potencial farmacológico. E identificou diversos alcalóides eficientes contra o bacilo da tuberculose em esponjas do gênero Aplysina, coletadas em águas rasas do nosso litoral, em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Bahia. As esponjas, vale lembrar, pertencem a uma categoria de animais marinhos costumeiramente confundidos com vegetais, porque passam a vida fixados a rochas ou a recifes de corais. Seu esqueleto poroso, macio e absorvente é usado desde a Antiguidade para esfregar o corpo durante o banho.

As espécies de esponjas identificadas por Berlinck já passaram por testes in vitro, realizados com a colaboração do pesquisador Célio Lopes Silva, especialista em Imunologia da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, e com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ainda faltam os testes de toxicidade e in vivo, mas os compostos mais eficazes são objeto de uma patente, já depositada. "O próximo passo é encontrar um parceiro, na indústria farmacêutica ou mesmo na academia, que se disponha a trabalhar na síntese destas substâncias em laboratório, pois não dá para desenvolver um medicamento com a perspectiva de extrair a matéria-prima das esponjas", conclui Roberto Berlinck.

Só dá para concordar, em gênero, número e grau. A natureza é um imenso campo de provas, onde a vida desenvolve substâncias com as mais diversas finalidades, testadas por milhões de anos de evolução. O homem deve aproveitar as dicas de direção a seguir e os atalhos de conhecimento em suas pesquisas, porém precisa construir o próprio caminho para satisfazer suas necessidades de produção em escala.