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Espírito empreendedor ganha força nas Universidades públicas

Publicado em 20 agosto 2007

Por Herton Escobar, para o Estado de S. Paulo

Instituições forçam mudança cultural e incentivam parceria com o setor privado para estimular a inovação

Pesquisadores e empresários convivem tranqüilamente nos corredores, cafeterias e laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das mais importantes, ricas e produtivas Universidades do planeta. De fato, em muitos casos, eles são a mesma pessoa.

Ao contrário do que ocorre tradicionalmente nas universidades brasileiras, em que os negócios da ciência pública e da iniciativa privada ainda dificilmente se misturam, o empreendedorismo faz parte da alma acadêmica nas grandes instituições americanas.

Em lugares como o MIT, Harvard e Stanford é difícil encontrar um pesquisador que não trabalhe em parceria com o setor privado e/ou que não tenha empresa própria de desenvolvimento tecnológico.

Mais do que bem-vista, a interação público-privada é incentivada fortemente pelas instituições. No MIT, cada professor tem um dia livre por semana para fazer o que quiser.

"Se ele quiser ir pescar, ficar em casa assistindo TV, fazer consultoria ou abrir uma empresa, a opção é dele", diz o brasileiro Tony Knopp, representante do Programa de Ligação Industrial do MIT.

"O DNA aqui é empreendedor; esse é o diferencial. Todo mundo quer criar alguma coisa nova, e a parceria com o setor privado é essencial para isso."

No Brasil, o espírito empreendedor ainda aparece transparente diante do poderio científico e econômico dos países mais desenvolvidos, mas vem ganhando força nos últimos anos com a criação de escritórios de patentes e uma perceptível mudança na cultura acadêmica voltada para a inovação.

Lideranças científicas repetem à exaustão o fato de que "o Brasil produz muito conhecimento, mas transforma pouco dele em riqueza".

O que significa que muitos projetos de pesquisa saem dos laboratórios para as revistas científicas, mas poucas inovações tecnológicas saem da indústria para as mãos dos consumidores — sejam elas um novo remédio, um kit diagnóstico ou uma máquina de fazer sorvete.

Um dos principais mitos dessa transformação, segundo Knopp, é a idéia de que a universidade cria um produto e entrega-o para a indústria, que simplesmente faz um monte de cópias e coloca no mercado para ganhar dinheiro.

Quando, na verdade, a maior parte do desenvolvimento tecnológico (e portanto do custo e do risco) cabe ao setor privado.

"É fácil ter uma idéia para um novo produto. Não é nada fácil convencer 1 milhão de pessoas a comprar esse produto", afirma Knopp.

"O custo de botar um iPod no bolso de todo mundo é muito maior do que o custo de desenvolver o iPod. Quem faz o trabalho pesado é a indústria."

Parte do problema no Brasil é que as empresas ainda investem pouco em pesquisa, e a academia brasileira ainda pensa pouco em inovação. Salvo exceções, cada lado trabalha com sua própria vocação, sem interagir com as competências da outra.

Nas últimas três décadas, segundo especialistas, a atenção das universidades no Brasil esteve voltada quase que exclusivamente para a formação de alunos e a produção de conhecimento, sem muita preocupação com a transferência desses resultados para o setor produtivo.

"Estávamos tão ocupados com a pós-graduação que nos distraímos na hora de promover a transformação do conhecimento", diz o físico Oswaldo Massambani, diretor da Agência USP de Inovação.

"Não basta o pesquisador publicar e ter seu orgulho aumentado por causa disso; a ciência estimulada pelo mercado também é importante. Temos que premiar o professor que obtém uma patente, reconhecendo que isso também é produção de conhecimento."

O presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, cobra maior envolvimento do setor privado:

"A principal restrição à colaboração Universidade-empresa é o fato de haver poucos pesquisadores trabalhando nas empresas", diz. "Para que a cooperação flua é preciso haver pesquisadores dos dois lados."

Apesar da cultura acadêmica já ser mais favorável, diz Brito Cruz, ainda há uma série de entraves legais e burocráticos que também dificulta a parceria.

"A Lei de Inovação (de 2004) ajudou, abriu possibilidades. Mas, até que essas possibilidades sejam concretizadas, há muitos obstáculos reais e imaginários que precisam ser vencidos."

A lei, por exemplo, permite conciliar atividades acadêmicas e empresariais. Para isso, porém, muitos professores precisariam abrir mão da dedicação exclusiva, com redução significativa de salário.

 

"O pesquisador não pode ser penalizado por tentar ser inovador", compara o cientista Bob Langer, do MIT.

Proteção intelectual

Para ajudar os cientistas a vencer esses obstáculos, muitas das grandes universidades e institutos de pesquisa do País já criaram ou estão criando escritórios voltados para a proteção do conhecimento e a interação com o setor privado.

A Agência USP de Inovação, criada em 2005, é um dos exemplos mais recentes.

A USP é a maior produtora de conhecimento do país, com mais de 4.600 trabalhos publicados só no ano passado. Em mais de 70 anos, porém, registrou menos de 550 patentes — das quais cerca de 250 já foram ou estão sendo regularizadas pela agência.

"A quantidade de professores que têm nos procurado cresceu significativamente", diz Massambani.

O próximo passo é encontrar parceiros no setor produtivo interessados em licenciar as patentes e desenvolver novas tecnologias a partir delas — com pagamento de royalties para a universidade e os pesquisadores.

Nesse momento, a Universidade trabalha com um portfólio de 30 patentes, incluindo um antibiótico de esponjas marinhas, um extrato de copaíba contra cálculos renais, uma técnica para produção de biodiesel e outra para despoluição de águas contaminadas.

A campeã de propriedade intelectual é a Unicamp, com 460 patentes registradas e 45 licenciadas em dez anos (1996-2006).

Críticos vêem conflito ético com os interesses privados

Empresas trazem exigências de lucro e sigilo que seriam icompatíveis com a missão acadêmica

A idéia de uma pesquisa financiada com recursos públicos virar produto privado de uma empresa não agrada a todos na academia. Muitos pesquisadores vêem a relação universidade-empresa como um casamento incompatível de interesses públicos e privados.

"Existe uma questão ética, sim. A Universidade pública tem que fazer pesquisa pública, pautada pelo interesse de toda a sociedade, e não pelo interesse privado de um grupo ou empresa específica", diz o presidente da Associação de Docentes da USP (Adusp), o físico Otaviano Helene.

"Empresas pressupõem lucro, e o lucro distorce a ética."

Caso uma empresa queira colaborar com a pesquisa acadêmica, o mais certo, segundo ele, é fazer uma doação para a universidade. Além dos conflitos éticos, o físico cita complicações práticas.

Enquanto cientistas na universidade trabalham tipicamente com projetos de longa duração e resultados incertos, o espírito corporativo exige resultados rápidos e certeiros.

"O relacionamento direto é muito difícil, as escalas de tempo são completamente diferentes", diz.

São críticas que ecoam pelos corredores do MIT, na voz de um de seus mais antigos e consagrados professores: o lingüista e ícone intelectual Noam Chomsky.

"Corporações não estão interessadas em financiar a economia, estão interessadas em fazer lucro. O que você acaba incentivando é ciência de curto prazo", afirma Chomsky.

Apesar de ser Universidade privada, cerca de 80% dos recursos para pesquisa no MIT vêm do governo federal. Ou seja: é dinheiro público. Outros 12% vêm de parcerias com a indústria.

Um dos principais receios é o de que, ao aceitar dinheiro de empresas, as pesquisas passem a ser ditadas por interesses privados.

Os contratos também costumam incluir cláusulas de sigilo, o que pode dificultar ou atrasar a publicação de resultados (assim que uma pesquisa é publicada, o conhecimento se torna público, o que não interessa às empresas, pois o investimento só vale a pena se tiverem exclusividade sobre a tecnologia).

"A Universidade tem obrigação de avançar o conhecimento, de ensinar. A empresa, não. A Universidade quer que todo mundo avance. A empresa não quer que seu competidor avance", diz o diretor-executivo da Agência de Inovação da Unicamp, Roberto Lotufo.

Ele defende a cooperação universidade-empresa, mas reconhece que são necessárias regras claras para que a parceria funcione. Todos os convênios na Unicamp passam por um rigoroso processo de avaliação.

Segundo Lotufo, o pesquisador precisa mostrar que o projeto está de acordo com as metas de ensino, pesquisa e difusão de conhecimento da instituição.

"Nenhuma empresa dita nada no meu laboratório. Faço parceria com empresas há muitos anos, sempre dentro das normas legais, e nunca tive problema", diz o pesquisador Fernando Galembeck, do Instituto de Química da Unicamp.

Com apoio da empresa Bunge, ele desenvolveu um pigmento branco para tintas que é mais seguro, mais durável e mais branco que os atuais.

A invenção foi patenteada e a empresa pagará royalties para a universidade e para os pesquisadores.

"Suponha que eu tivesse só publicado os resultados e não patenteado nada. Quem se beneficiaria com isso? Alguma empresa pegaria os dados e transformaria aquilo em riqueza de qualquer maneira, só que sem retorno nenhum para a universidade."

No MIT, os negócios também seguem algumas regras básicas: o pesquisador pode ter empresa, mas não pode usar os laboratórios da instituição para fazer pesquisa de interesse privado.

 

Aqueles que recebem dinheiro de empresas precisam prestar contas à universidade e não podem segurar a publicação de um trabalho por mais de um ou dois meses — tempo suficiente para entrar com o pedido de patente.

"A idéia fundamental do MIT é fazer pesquisa básica, avançar a fronteira do conhecimento", diz a diretora do Escritório de Licenciamento de Tecnologias do instituto, Lita Nelsen. "O resto não é propósito, são conseqüências muito saudáveis."

Todo cientista, segundo ela, quer ver seu trabalho transformado em algo concreto. "Se alguém faz pesquisa com câncer, é óbvio que quer ajudar a curar o câncer."

Cientistas brasileiros que já trabalham em parceria com empresas dizem que essa é a melhor maneira de cumprir o papel social da ciência.

"Interagir com o setor privado é de total interesse público", diz o pesquisador Glaucius Oliva, diretor do Instituto de Física de São Carlos da USP e do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural da Fapesp, que tem convênios com a indústria farmacêutica para o desenvolvimento de novas drogas.

"O conhecimento tem de estar antenado com a realidade, se não perde sua razão de existir."

(O Estado de SP, 19/8)