Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Esperança por um fio

Publicado em 18 maio 2005

"Dra. Lygia, com a aprovação do projeto da Lei de Biossegurança pela
Câmara dos Deputados, quantos pacientes sairão das filas de
transplantes?". Gelei com a pergunta feita em entrevista ao vivo, sobre
a aprovação do uso de embriões humanos para a extração de células-tronco
embrionárias. Ela sintetizava toda a expectativa que a luta por esta
aprovação gerou no último ano. Respirei fundo e respondi: ''Nenhum''.
Nenhum hoje, nenhum até mesmo nos próximos anos. Mas quem sabe muitos no longo prazo, agora que podemos trabalhar com CTs embrionárias humanas no Brasil. Talvez um certo sensacionalismo faça parte do jogo e tenha sido
importante para mobilizar a sociedade e levar os parlamentares à
aprovação da lei. Mas, agora que a poeira baixou, quais são as reais
possibilidades das CTs embrionárias?
As CTs embrionárias são o tipo mais versátil de CTs até hoje
identificadas em mamíferos. Enquanto as CTs derivadas da medula óssea ou
do sangue de cordão umbilical se transformam em somente alguns, as CTs
embrionárias possuem a capacidade de dar origem a todos os tecidos do
corpo. Desde a década de 1980 faz-se pesquisas com as CTs embrionárias
de camundongos. Trabalhando com elas, descobrimos como multiplicá-las e
transformá-las no laboratório em células da medula óssea, do músculo
cardíaco, em neurônios, entre outras. E mais: transplantadas em animais
doentes, estas células foram capazes de aliviar os sintomas de leucemia,
mal de Parkinson e até paralisia causada por trauma da medula espinhal
(daí o entusiasmo que o Super Homem, Christopher Reeve, tinha em relação
a essas células).
Em 1998 surgiram as primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas.
Porém, temos que resolver algumas questões fundamentais antes de começar
os testes clínicos injetando CTs embrionárias em humanos.
A primeira é a segurança dessas células. Injetadas em seu estado nativo
em camundongos, as CTs embrionárias podem formar teratomas. Assim, antes
de injetar estas células no paciente, devemos primeiro induzi-las no
laboratório a se transformar no tipo celular que nos interessa. Caso
contrário, no organismo elas se multiplicam e podem se diferenciar
descontroladamente, formando tumores.
Uma segunda questão é à compatibilidade entre as CTs embrionárias e o
paciente. Uma forma de garantir compatibilidade seria criar um banco
dessas células, cada uma derivada de um embrião diferente e torcer para
encontrar uma compatível. Porém, nossa experiência com bancos de medula
óssea demonstrou que isso é difícil.
Uma alternativa seria então criar CTs embrionárias geneticamente
idênticas ao paciente. Com as técnicas de clonagem, podemos criar um
embrião clonado do paciente e dele extrair as CTs embrionárias. Estas
poderiam então gerar tecidos 100% compatíveis com o paciente. Esta
técnica chama-se clonagem terapêutica, realizada pela primeira vez em
seres humanos na Coréia, em 2004.
Entretanto, apesar da clonagem terapêutica resolver a questão da
compatibilidade, ela não poderia ser utilizada em indivíduos com doenças
genéticas. As CTs embrionárias geradas a partir das células destes
pacientes também carregariam a doença. Assim, para o tratamento de
doenças genéticas a melhor alternativa é conseguir um doador aparentado,
que tem maior chance de ser compatível.
E as pesquisas com as CTs embrionárias no Brasil? Em 1999, com o
financiamento da FAPESP, nosso grupo estabeleceu as primeiras linhagens
de CTs embrionárias de camundongo totalmente made in Brasil, implantando
a tecnologia no País e a disponibilizando para outros grupos de
pesquisa. Atualmente, pelo menos cinco grupos trabalham com estas
células, estudando sua capacidade de transformação em diferentes
tecidos. Mas, para que estas pesquisas avancem no País, será fundamental
um financiamento consistente do Governo.
Em conclusão, o uso terapêutico da CTs embrionárias ainda está longe de
se tornar uma realidade, tanto no Brasil e no mundo. Agora, precisamos
pesquisar — e foi este direito que adquirimos, passando de meros
observadores do desenvolvimento de uma área promissora da Medicina para
jogadores muito competitivos. Afinal de contas, as pesquisas com CTs de
medula e de cordão umbilical no Brasil são motivo de orgulho nacional.
Agora poderemos fazer o mesmo com as CTs embrionárias.

(*) Lygia da Veiga Pereira é professora livre docente e chefe do
Laboratório de Genética Molecular do Departamento de Biologia e Centro
de Estudos do Genoma Humano do Instituto de Biociências da USP.