Notícia

Jornal do Commercio (PE)

Esperança para C&T

Publicado em 07 agosto 2007

Por Anderson S. L. Gomes

A comunidade científica pernambucana vive tempos de ansiedade esperançosa. Esperança por conta da eleição de Eduardo Campos para governador, ele que foi um brilhante ministro de Ciência e Tecnologia. E também pela confirmação, no inicio deste ano, da continuidade do físico pernambucano Sergio Rezende à frente do MCT. Ansiedade porque as definições para o setor de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) no Estado estão custando muito a ser apresentadas.

Nos últimos oito longos anos o investimento estadual e apoio à C,T&I foi praticamente restrito à importante área de tecnologia da informação e comunicação (TIC), com amplos, decisivos e apropriados investimentos no Porto Digital como seu carro chefe. Por decisão política, outras áreas de C,T&I foram relegadas a segundo plano, mesmo aquelas onde Pernambuco sempre teve lugar de destaque. Isso só não levou a uma situação calamitosa porque o Estado tem um estoque de cérebros e competência, construído ao longo dos últimos 30 anos, que consegue captar recursos de fontes externas necessários ao andamento da pesquisa científica e tecnológica. Foi desse estoque de talentos, gerados principalmente nas instituições de ensino superior e pesquisa do Estado, que saíram as cabeças pensantes que formam outros talentos e alimentam o sistema produtivo baseado no conhecimento para Pernambuco e o País. Mas estoque acaba, se não for devidamente renovado.

Pernambuco foi o primeiro Estado do Nordeste a criar uma Secretaria Estadual de C&T, em 1987, e também o primeiro a ter uma fundação de apoio à pesquisa, a Facepe, criada em 1989. Ambas criadas pelo avô do governador. Entretanto, como pode ser verificado no relatório de 2006 da Facepe, praticamente todos os indicadores absolutos de investimentos, e conseqüentemente resultados tangíveis, por parte do Estado declinaram nos últimos anos. O orçamento executado em 2006 foi um dos menores da região, cerca de R$ 3 milhões. Corresponde ao ridículo valor de mil reais por doutor/ano. Foram os investimentos do governo federal que garantiram apoio a centros de pesquisa no Estado, obtidos por pesquisadores, individualmente ou em grupos. Esta captação poderia ter sido maior, pois parte dos recursos federais requeriam contrapartida estadual! A própria UFPE, onde se concentra a maior capacidade de RH em C,T&I no Estado, tem obtido menos recursos em projetos institucionais, quando comparados a outras instituições nordestinas.

É neste momento, em 2007, que a esperança ressurge. Vem-nos à mente a visão que teve o ex-governador Miguel Arraes, de saudosíssima memória, quando criou, no seu governo de 1987-1990, as bases institucionais para C,T&I que possibilitaram a Pernambuco dar um grande salto em muitas áreas do conhecimento. E mais, na gestão de 1995-1998, foi possível criar programas que atendiam ao desejo do ex-governador de ver o conhecimento transformado em benefícios para a sociedade. A feliz coincidência é que participaram daquele governo Eduardo Campos, como secretário da Fazenda, e Sergio Rezende, como secretário de C&T. Anos depois, ambos tornaram-se titulares do MCT, com atuações reconhecidas pela eficácia e ações concretas. Eduardo Campos agora governa nosso Estado e Rezende continua no MCT. O atual secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Aristides Monteiro, foi o coordenador da campanha do atual governador, conhece bem o Estado e as propostas para a atual gestão. Na Facepe, principal órgão executivo de C,T&I para o Estado, além do diretor Científico, Arnóbio Gama, ser um químico com experiência em órgãos de fomento, o atual presidente é profundo conhecedor dos problemas e possíveis soluções para a C,T&I e TIC no Estado. Sua indicação não podia ser menos emblemática, visto que Diogo Simões é filho do saudoso e primeiro presidente da Facepe, Sebastião Simões, que com Sergio Rezende (então diretor científico da Facepe) iniciaram aquela que por anos foi considerada a segunda Fundação mais atuante no País, sendo a Fapesp, de São Paulo, a primeira. E o Estado ainda conta com a presença de Lúcia Melo na presidência do CGEE, órgão de planejamento do MCT, ela que foi secretária de C&T no 2º governo Arraes e presidente da Facepe no 3º governo.

Com gestores altamente qualificados em posições-chave, a comunidade científica está esperançosa e aguardando definições para a área de C,T&I, muitas já planejadas, mas ainda não concretizadas. A retomada de investimentos é uma delas, mas não é a única. A infra-estrutura de comunicações no setor científico (acesso à internet) precisa dar um salto de qualidade e velocidade. O Parqtel precisa retomar a evolução que teve entre 95 e 98, proporcionando ao Estado uma alternativa em hardware tão viável quanto é o Porto Digital. Outras ações são esperadas, como a retomada da importância da Facepe na articulação e operacionalização das ações de C,T&I para o Estado, com orçamento digno e um livro branco de C,T&I, nos moldes do documento produzido pelo MCT anos atrás, que tem sido extremamente útil nas diretrizes da ciência, tecnologia e inovação para o Brasil. Diz o ditado que a esperança é a última que morre. Prefiro dizer que ela é a primeira que renasce. A esperança não pode ficar no sonho, precisa ser transformada em realidade e realizações.

Anderson S. L. Gomes é professor associado no Departamento de Física da UFPE.