Um vídeo gravado dentro da sala de aula da Escola Estadual Rosemary de Melo Moreira Pereira, no Parque Vitória Régia, em Sorocaba, em que as crianças aparecem com as bocas fechadas por fita crepe levantou um outro aspecto além do que a diretoria da escola considerou uma brincadeira para ser postada nas redes sociais. Pais e responsáveis pelos alunos veem esse tipo de prática como um alerta de que o vídeo pode abrir margem para problemas como o bullying, por exemplo. Em consonância ao que analisou o pai de um aluno, estudiosos veem os discursos de ódio agravarem a motivação pela violência dentro das escolas.
“Abomino tal postura, mesmo por brincadeiras. Docente é exemplo para o aluno, isso só da margem para assédio, bullying, racismo, preconceito”, comentou o pai. Indignado, ele diz que “o vídeo deveria ser enviado ao conselho tutelar e à Secretaria Estadual de Educação”, disse o pai, que prefere não ser identificado para que seu filho não sofra represálias na escola.
Entre olhares e supostos sorrisinhos, as crianças foram filmadas sem que os rostos fossem preservados, já que são todos menores de idade, e com a boca coberta pelos pedaços de adesivo. As imagens mostram praticamente a classe toda, todos com fitas crepes. O vídeo circulou pelos WhatsApps dos pais.
A diretoria da escola, por sua vez, disse que não sabia do vídeo e pediu para procurar a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação. A responsável pela unidade completou a informação dizendo que se tratava de uma trend dos alunos antes da professora entrar em sala de aula. E que os alunos pediram para que ela os gravasse e que o vídeo fosse publicado pela professora em suas redes sociais, para que fosse compartilhado por eles.
O termo trend, que quer dizer tendência, representa um conteúdo digital que ganha um grande destaque e popularidade entre os usuários durante certo período.
Fortalecer o pertencimento Na visão da pesquisadora e psicóloga Marilene Proença Rebello de Souza, o retorno às aulas presenciais após a pandemia de Covid-19 trouxe desafios adicionais para o ambiente escolar, com a necessidade de fortalecer o senso de pertencimento e convivência entre os estudantes e a equipe escolar. Atualmente, Souza dirige o Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Educação Básica: Aprendizagens e Convivência Escolar, aprovado em 2024 e financiado pela FAPESP e Seduc-SP. O Centro visa levantar subsídios à formulação de políticas públicas voltadas ao aprimoramento da aprendizagem e à convivência escolar.
A ausência de um programa nacional para melhorar o clima escolar é apontada por pesquisadores como um dos gargalos no combate à violência no país. “O enfrentamento às situações de discriminação e preconceito que levam às agressões não integra o currículo escolar e o tema só aparece na agenda de secretarias de Educação quando há casos extremos”, critica Souza. Nesse sentido, ela lembra que o país conta com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para estabelecer conteúdos obrigatórios à educação básica, porém não dispõe de uma matriz curricular voltada à convivência na escola. “O trabalho de formação cidadã dos estudantes, centrado no diálogo, na participação e na garantia de direitos, não pode ser tratado como algo secundário”, defende a pesquisadora.
Professores também sofrem Estudioso das relações entre violência, tecnologia e ensino há uma década, o psicólogo Antônio Álvaro Soares Zuin, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), alerta também para o impacto da internet no ambiente escolar. Ele explica que, em situações de bullying , a violência ocorre em termos físicos e psicológicos, com a vítima sendo alvo constante das agressões.
Já no cyberbullying , ou seja, bullying praticado por meio de tecnologias digitais, uma única postagem pode permanecer na internet indefinidamente. “Mesmo que ela seja removida por determinação judicial, pode mais tarde ser repostada”, considera.
Escola que Protege Como resposta ao cenário de agravamento da violência escolar, o governo federal regulamentou em abril de 2024 o Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas, por meio do Decreto nº 12.006. O sistema consolida diretrizes para prevenção e atuação em casos de violência extrema.
O MEC também lançou, em dezembro passado, o programa Escola que Protege, para fortalecer a capacidade das instituições de ensino na prevenção e resposta às violências. “O programa atua com formação continuada de educadores, criação de espaços de convivência democrática, combate ao bullying e à discriminação, além do desenvolvimento de estratégias de monitoramento e comunicação”, detalha. A implementação da iniciativa articula o MEC a órgãos como Ministério da Justiça e Segurança Pública, MDHC e Polícia Federal.
O que diz a Diretoria de Ensino
O Porque tentou entrar em contato com a professora pelo Instagram para ouvi-la sobre a suposta brincadeira, mas, até a publicação dessa matéria, não havia respondido. A assessoria de imprensa da Diretoria de Ensino (DE) de Sorocaba disse lamentar o ocorrido e repudia toda e qualquer forma de constrangimento e vexação dentro ou fora das escolas. Uma apuração preliminar será instaurada para avaliar a conduta da professora em relação ao ocorrido. A DE e a gestão da unidade ficam à disposição da comunidade escolar para mais esclarecimentos.
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