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Especialistas explicam como se comportam epidemias pelo mundo

Publicado em 10 fevereiro 2020

Epidemias acontecem sazonalmente e, a depender do agente patógeno, podem ser muito perigosas a uma população. No inverno, com a aglomeração mais frequente de indivíduos, a probabilidade de propagação de um vírus respiratório também aumenta, desde simples resfriados a doenças mais graves.

Antônio Silva Lima Neto, gerente da Vigilância Epidemiológica de Fortaleza e pós-doutor em Arboviroses na Harvard School, detalha que a epidemias de vírus respiratórios no Nordeste do Brasil estão mais associadas à aglomeração e períodos de chuva. "Tanto que a transmissão do influenza no Nordeste tem calendário diferente do Sul", exemplifica, lembrando da pandemia do vírus H1N1, variante da gripe suína, em 2009.

Fator adicional comum às epidemias iniciadas na China, como o coronavírus, em 2020, e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), entre 2002 e 2003, é a alta densidade populacional chinesa. "O país tem vivido surtos e epidemias de vírus atípicos porque os patógenos zoonóticos passam por mutações. Ao infectarem os hospedeiros humanos, se multiplicam rapidamente", analisa o médico infectologista Rafael Mesquita, do hospital São Camilo Fortaleza.

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Análises de cientistas chineses, publicadas semana passada na revista Nature, revelam que 80% do material genético dos dois vírus é idêntico. Assim como o coronavírus atual (2019-nCoV), o vírus da Sars foi transmitido de morcegos para os humanos.

"Os dados são muito novos ainda, não são definitivos. Contudo, parecem indicar um potencial de transmissibilidade maior que Sars e Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio cujo surto ocorreu em 2013, na Arábia Saudita). Ao mesmo tempo, a agressividade do coronavírus tem sido menor, com letalidade de 2%, enquanto a letalidade de Sars e Mers foi de 9% e 30%, respectivamente", contabiliza o infectologista Guilherme Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.

Epidemias são classificadas pela forma de transmissão do agente. Têm maior potencial pandêmico também aquelas que não matam o hospedeiro rapidamente, ao contrário do que aconteceu nos dois recentes surtos do vírus ebola - o primeiro, na África Ocidental, entre 2014 e 2016, e o segundo no Congo, no ano passado.

Como o ebola tem letalidade de até 90%, é menos provável que cause pandemia, por exemplo. Além disso, o vírus não é transmitido pelo ar, mas sim por contato direto com o sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas.

Fatores podem ser creditados à relativa baixa mortalidade pelo coronavírus até agora, como o avanço da ciência nas últimas décadas e a melhor capacidade da medicina em tratar os sintomas desses pacientes. "Ainda é difícil dizer se a taxa de mortalidade vai estabilizar, aumentar ou diminuir, mas o coronavírus tem possibilidade de se tornar pandêmico, pela forma de transmissão de pessoa a pessoa, por vias respiratórias, e alta transmissibilidade", analisa Guilherme Henn, também professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Variedades de coronavírus circulam no Brasil

Variedades de coronavírus humanos menos patogênicas que as vindas diretamente de animais silvestres, como o 2019-nCoV, já circulam no Brasil. Geralmente causam resfriados comuns, embora às vezes possam provocar doenças respiratórias graves.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP identificaram quatro tipos de coronavírus humanos em 11% de um grupo de 236 crianças com 3,5 meses e problemas respiratórios internadas no HC (Hospital das Clínicas) em 2008 e 2009. "Foi uma surpresa; o coronavírus, sozinho ou associado com outra espécie de vírus, o rinovírus C, foi um indício de gravidade do caso e de necessidade de internação na unidade de terapia intensiva", diz o virologista Eurico Arruda, professor da FMRP-USP e coordenador de um estudo publicado em junho de 2019 na revista Plos One com esses resultados.

Nesse trabalho, o microrganismo respiratório mais comum foi o rinovírus (85% dos casos), seguido pelo vírus sincicial (59%), bocavírus (23%) e adenovírus (17%), com 198 crianças apresentando infecções causadas por mais de um tipo. Foram para a UTI 47 crianças, 25 receberam ventilação mecânica e oito morreram.

"As formas mais graves de coronavírus sempre estiveram associadas a animais silvestres", observa Arruda. Como aquela responsável pela Sars e Mers, a nova variedade - a sétima causadora de doenças em seres humanos já identificada - parece ter vindo de morcegos, os reservatórios naturais desse tipo de organismo, de acordo com análises genéticas de centros de pesquisa da China. Transmitido às pessoas por meio das fezes de morcegos, o vírus liga-se a receptores de membranas de células de mucosas respiratórias, sofre adaptações, multiplica-se e pode infectar outras pessoas.

"O Brasil tem suas próprias variedades de coronavírus silvestres, que poderiam causar problemas se passarem de animais para as pessoas", diz Edison Luiz Durigon, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Em 2015, o biólogo Luiz Gustavo Góes, atualmente em estágio de pós-doutorado no ICB-USP, examinou 401 amostras de intestinos de 17 espécies de 202 morcegos coletadas de 2010 a 2014 em áreas urbanas (192 animais) e rurais (10) de 14 municípios do noroeste paulista, em busca de coronavírus, em colaboração com pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araçatuba e Rio Claro. Outras 199 amostras foram coletadas no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná.

Como detalhado em artigo de outubro de 2016 na revista Infection, Genetics and Evolution, Góes identificou 15 variedades silvestres de coronavírus em intestinos de oito espécies de morcegos; um dos animais examinados era um Eumops glaucinus, de pelagem preta e orelhas grandes, que tinha sido capturado por um gato doméstico antes de ser recolhido por um morador de Araçatuba e levado à Unesp.

Inteligência artificial ajuda a identificar surtos

Em 31 de dezembro de 2019, a startup canadense BlueDot disparou um alarme sobre o surto de um vírus novo na China. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos divulgaram a notícia somente em 6 de janeiro deste ano e a OMS no dia 9. Conforme a edição on-line da revista Wired, a equipe da empresa se antecipou por usar um algoritmo que vasculha notícias em 65 idiomas sobre surtos de doenças, depois filtradas e examinadas por epidemiologistas, para avisar seus clientes sobre áreas de novas doenças, como Wuhan.

Utilizando também dados de passagens áreas, que podem indicar para onde e quando as pessoas infectadas estão indo, Kamran Khan, fundador e diretor-geral da BlueDot, conseguiu prever que o vírus saltaria para as capitais da Tailândia, Coreia do Sul, Taiwan e Japão depois de emergir na China. Em 2014, a empresa captou US$ 9,4 milhões em capital de risco, tem 40 funcionários e atende órgãos do governo, companhias aéreas e hospitais.

Um braço do Google, a Google Flu Trends, faz um trabalho semelhante ao do BlueDot para detectar surtos e epidemias de gripe em 25 países. Em 2013, no entanto, o serviço sofreu um revés ao subestimar em 140% a gravidade do surto de gripe. (Carlos Fioravanti/ Pesquisa Fapesp)

TAXA DE INFECTIVIDADE

Na semana passada, a OMS divulgou uma primeira estimativa da taxa de infectividade do novo coronavírus: de 1,4 a 2,5, que corresponde ao número médio de pessoas que podem ser infectadas a partir de um único indivíduo; a taxa do sarampo, por exemplo, varia de 12 a 16.

VIROSES RESPIRATÓRIAS

Resfriados e gripes se caracterizam por quadros benignos, autolimitados (cujo fim acontece de 7 a 14 dias). Quadros de infecção por vírus mais perigosos evoluem para pneumonia e insuficiência respiratória.

Vírus como o novo corona são mais perigosos para idosos e pessoas com comorbidade, que são doenças pré-existentes. Por exemplo, hipertensão, diabetes, doenças respiratórias e imunossupressoras.

Como funcionam as quarentenas

Por Mônica Cardoso Façanha, médica infectologista da Unimed Fortaleza

Aplica-se o termo quarentena à segregação de indivíduos sadios que tenham suspeita de terem tido contato com um agente infeccioso para evitar que se torne a fonte de infecção para outros indivíduos. No século XVII, os navios que chegavam aos portos com casos suspeitos ou vindo de ares onde estava ocorrendo epidemia de peste ficavam segregados durante 40 dias, daí o uso do termo quarentena.

Hoje em dia, a duração da quarentena é determinada pelo período de incubação da doença. Por uma questão de segurança da pessoa que está sob quarentena e de seus futuros contatos, aguarda-se o dobro do período máximo de incubação e se a pessoa não adoecer, ela é liberada. Caso adoeça, ela ficará em isolamento pelo período em que pode transmitir a doença.

A quarentena costuma ser aplicada para o controle de doenças como febre amarela, cólera, peste, tifo e ebola. Porém, com a facilidade de deslocamento das pessoas, a grande quantidade de portadores assintomáticos ou com poucos sintomas, os períodos de incubação longos, entre outras situações, a instituição de quarentenas a grandes contingentes populacionais é utilizada em poucas situações nos dias de hoje.

A redução da velocidade de disseminação de uma doença que pode ser grave é uma outra situação em que se pode aplicar a quarentena. Em geral, esta medida não é suficiente para impedir a transmissão da doença, mas, reduzindo o número de pessoas que podem transmitir a infecção, é possível ter mais tempo para descobrir formas mais efetivas de combatê-la, um medicamento ou vacina, por exemplo.

O que preocupa sobre coronavírus

Antônio Lima é professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), com pós-doutorado em arboviroses pela Universidade de Harvard, na Inglaterra, e gerente da Vigilância Epidemiológica de Fortaleza. Sem alardes, ele admite que "é muito provável" que casos do novo coronavírus se confirmem também no Brasil. Porém, ele pondera que há outra preocupação mais conhecida dos cearenses a ser considerada para este ano: a dengue.

O POVO - Diante da grande incidência de casos sendo confirmados pelo mundo, o Brasil inevitavelmente terá confirmações do coronavírus?

Antônio Silva Lima Neto - É muito provável. Normalmente a gente trabalha com graus de probabilidade. Muito provável a confirmação de casos importados. Não colocaria como provável se estabelecer uma autoctonia, ou seja, a transmissão de casos dentro do Brasil (casos não importados).

OP - Qual o perigo hoje para as festas carnavalescas para a disseminação do vírus aqui no Brasil?

Antônio - Os vírus respiratórios têm normalmente os surtos no hemisfério norte combinados com o inverno, como está acontecendo na China agora. Eles normalmente preferem a transmissão em temperaturas baixas. Não é o caso de Fortaleza e do Nordeste. No nosso caso, a transmissão é mais associada com aglomeração e períodos de chuva. A pergunta sobre o Carnaval é por conta da aglomeração. Evidentemente, se você tem um afluxo maior, recebendo estrangeiros de vários lugares e eventualmente estejam com uma doença de transmissão respiratória, ela poderia se potencializar em grandes aglomerações. Não só no Carnaval.

OP - O que ainda não se sabe sobre esse novo coronavírus que deixa até os especialistas ainda inseguros a falar sobre a doença?

Antônio - Por exemplo, a gente não sabe perfeitamente sobre a letalidade. A gente tem esses 2%, mas tem um informe de casos na China e não sabe exatamente qual o grau de subnotificação. Isso deixa a gente um pouco ainda inseguro para falar tanto do grau de transmissibilidade quanto da letalidade e da proporção de casos graves que esse vírus ocasiona.

OP - Você se preocupa hoje mais com o coronavírus ou com a dengue?

Antônio - É difícil. A gente tem uma preocupação evidentemente com o vírus novo, a introdução do coronavírus, que tem a transmissão pessoa a pessoa, que pode ser uma transmissão explosiva e rápida. A gente tem a preocupação porque não conhece exatamente o nível de letalidade e transmissibilidade da doença, mas também há muita preocupação este ano com uma eventual epidemia de dengue causado principalmente pelo sorotipo 2. É um sorotipo que não circula aqui já há 12 anos. Nós, da Secretaria Municipal, e a Secretaria do Estado, temos já iniciada a capacitação das arboviroses, porque é uma preocupação do Estado e do município hoje. Não sei se você sabe, a maior epidemia de dengue da história do Brasil foi em 2019, mas não acometeu o Nordeste. A epidemia ficou circunscrita às regiões Centro-Oeste e Sudeste. Depois que acontece uma epidemia como essa, causada pelo sorotipo 2, que já não circula há 12 anos, normalmente se tem um deslocamento para o Nordeste. (Cláudio Ribeiro)

Entrevista completa:

Como o Ceará se preparou para o coronavírus

Nota técnica da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) foi publicada para orientar profissionais de saúde sobre o novo coronavírus. O material, preparado ainda no fim de janeiro, quando das primeiras suspeitas no Brasil, descreve padrão de notificações, coleta de amostras, critérios clínicos e epidemiológicos, atendimentos e medidas de prevenção e controle.

Até a quinta-feira, 6, nenhum caso de coronavírus havia sido confirmado na América Latina, mas a prevenção é decisiva em alertas internacionais de saúde. Como a transmissão do vírus ocorre por contato com a saliva de quem está doente, a recomendação padrão é aumentar a higiene: lavar as mãos, usar álcool em gel, ficar em casa se estiver doente, cobrir nariz e boca com lenço de papel ao tossir ou espirrar; e limpar e desinfetar objetos muito usados.

Protocolo

Os casos são considerados suspeitos quando há febre, histórico de contato com infectado ou viagem recente à China e pelo menos um sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar, batimento das asas nasais). Com essas características, a pessoa deve procurar uma unidade de saúde e relatar os sintomas e histórico de viagem.

O período de quarentena é de até 16 dias, isolado. ”Se aparecerem sinais de doença gripal, como febre e tosse, será feita coleta de secreções oral e nasal, testes para influenzavírus e envio de amostras”, explica o infectologista Fernando Chagas, médico do Hapvida.

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Essas amostras são enviadas ao Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), para testes de vírus respiratórios mais comuns, como Influenzas e Rhinovírus. Após resultado negativo desses exames, as amostras seguem aos laboratórios de referência para realização de análise de metagenômica, que identificará ou não o novo coronavírus. São estes Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, no Rio de Janeiro), Instituto Adolfo Lutz (São Paulo), e Instituto Evandro Chagas (Pará).

No Ceará

Por ter ampla capacidade de atendimento com profissionais especializados para situações de risco à saúde pública, o hospital São José, em Fortaleza, é a unidade de referência para receber eventuais pacientes com casos do novo coronavírus, para isolamento e tratamento.

A Sesa segue protocolos e medidas de prevenção previstos no Plano de Contingência Nacional do Ministério da Saúde, que, por sua vez, segue recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), já que a epidemia de coronavírus foi declarada emergência de saúde internacional. No Brasil, foi publicada, no último dia 3, a portaria que declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) em decorrência da doença.

Assim, o País aumenta nível de alerta com as fronteiras e para o surgimento de casos entre seus cidadãos e turistas. “Mecanismos internos são criados para prevenir a entrada do microorganismo no território, precaução antes de o vírus chegar. Além de protocolo, como critérios para a quarentena e exames compulsórios, dentre outros. O Brasil saiu na frente e, surpreendentemente, antecipou-se antes de termos casos confirmados”, analisa o infectologista Guilherme Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.

O médico Mozart Rolim, coordenador da UTI do Hospital São Camilo, exemplifica preparativos em unidades de saúde particulares. Ele diz que em uma situação de epidemia, o hospital prepara-se para a identificação diferenciada dos casos, em emergência, enfermaria ou UTI. “Temos seis leitos com isolamento respiratório com filtro de de pressão negativa, e estamos construindo mais quatro até o final de fevereiro”, contabiliza.

SAIBA MAIS

A OMS estimou que os custos para combater a epidemia de novo coronavírus chegam a mais de US$ 675 milhões. O valor será destinado às operações internacionais de combate à doença e ao fortalecimento dos sistemas regionais de saúde.

Os sintomas do coronavírus se parecem muito com os de uma gripe comum: febre, tosse, falta de ar e, em casos mais graves, pode evoluir para pneumonia, síndrome respiratória aguda grave ou insuficiência renal.

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