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Especialistas comentam polêmica dos uniformes femininos: "Não faz sentido"

Publicado em 29 julho 2021

Por Laura Reif

Na última semana, um dos assuntos mais comentados sobre as Olímpiadas de Tóquio foi os uniformes de atletas mulheres. Com a maior participação feminina de todos os tempos, com 49% de mulheres competindo por seus países segundo o Comitê Organizador, questões sobre a sexualização das mulheres em competições entraram na pauta. O estopim da discussão foi quando o time feminino de handebol de praia da Noruega foi multado em jogo do campeonato europeu no último domingo (18). O motivo: as atletas vestiam shorts em vez  de biquínis. O episódio reverberou na equipe alemã de ginástica artística, que se apresentou vestindo calças - em vez de collants - no treino de pódio das Olimpíadas de Tóquio 2020. Conversamos com especialistas e com a atleta Jade Barbosa sobre os casos para entender: trocar biquíni por short faz diferença na performance?

Se uma regra existe, ela precisa de um motivo. Cada uniforme é pensado para auxíliar o atleta na prática de um esporte, levando em consideração fatores como conforto e caimento, de forma a valorizar os movimentos de cada modalidade. No caso do time das norueguesas, a Federação Europeia de Handebol alegou que shorts eram "inadequados", indo contra as regras da Federação Internacional de Handebol, que determina que as atletas usem biquínis com largura lateral de, no máximo, 10 centímetros e "corte em um ângulo ascendente em direção à parte superior da perna". Para os homens, shorts são permitidos, desde que "não muito folgados" e 10 centímetros acima dos joelhos.

"Na minha opinião, não faz sentido", explica o pesquisador em Fisiologia do Esporte e do Exercício da Faculdade de Medicina da USP Bryan Saunders. "Suponho que se alguém tem a escolha entre biquíni ou short, e ela escolhe short, provavelmente é porque ela vai se sentir mais confortável assim. Sentindo-se mais confortável, a atleta pode ter um desempenho melhor. Não é uma mudança drástica, que irá mudar os movimentos dela ou inibí-los. É uma mudança de centímetros", diz.

Para a pesquisadora em Fisiologia do Esporte e do Exercício da Faculdade de Medicina da USP, Eimear Bernadette Dolan, não existe nenhuma razão científica que impeça as praticantes de handebol de vestirem shorts, mas obrigar alguém a vestir-se de forma que cause desconforto, por outro lado, pode prejudicar a performance no esporte. "Se os organizadores realmente estavam pensando do ponto do vista de desempenho, eu gostaria de fazer duas perguntas: qual o motivo desses critérios e, se eles consideram o uso de biquínis necessário para jogar vôlei, por que os homens não são obrigados a competir usando sungas?", questiona.

Segundo a especialista, o material pensado para uniformes esportivos deve ser adequado para o clima, respirável e não deve impedir os movimentos necessários para o esporte praticado. "Como na ginástica artística, as roupas precisam seguir as linhas naturais do corpo para que se possa ver claramente os movimentos das atletas", exemplifica.

Ela cita o caso dos supermaiôs tecnológicos como exemplo de roupa vetada para a prática de esportes - no caso, natação. Proibidos pela Federação Internacional de Natação desde 2010, os trajes feitos de elastano e nylon com poliuretano geram bolhas de ar no seu interior, o que facilita a flutuação dos atletas. Segundo o regulamento da federação, não está autorizado o uso de qualquer maiô que possa dar resistência ou velocidade extra durante uma competição.

"Usando shorts no lugar de biquínis isso não acontece, a roupa não irá oferecer uma 'vantagem' para uma atleta. Só irá deixá-la mais confortável e com capacidade de se concentrar no jogo e não nas roupas", analisa.