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Especialistas começam a colher resultados de pesquisa em arquipélago submerso a 1,1 mil km do RS

Publicado em 09 setembro 2019

Por Matheus Beck, G1 RS

Porção de cerca de 150 mil km² tem quase o tamanho do Uruguai e há uma década é explorado cientificamente. Local a 2 mil metros de profundidade é rico em minérios. Expedição explorou cientificamente a área em janeiro e fevereiro

Maior do que o Uruguai e a 1.108 quilômetros do Rio Grande do Sul, a Elevação do Rio Grande, nome dado às ilhas submersas no oceano Atlântico de cerca de 120,5 mil km² (a oeste) e 180 mil km² (a leste), começou a ser explorada em 2009, mas somente nos últimos meses a ciência começou a medir seu valor. E ele pode ser inestimável, pois indica a autonomia econômica do Brasil na exploração de alguns minérios.

Os resultados da expedição Rio Grande Rise I, realizada em janeiro e fevereiro de 2018 por uma equipe do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) com navio Alpha Crucis, começaram, agora, a ser conhecidos. A elevação fica entre 600 e 2 mil metros de profundidade e é cheia de terraços marinhos com canais fluviais, cavernas e dunas. O que mais surpreende os pesquisadores, entretanto, são as formas rochosas encontradas.

Foram achadas rochas cristalinas, tipicamente formadas no continente, como granito e gnaisse. Montanhas submersas com características semelhantes à da Serra do Mar, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O que pode levar a crer que, em algum momento, a costa brasileira e a elevação formaram uma mesma porção de terra na superfície.

“São pesquisas ainda não publicadas”, diz o professor Luigi Jovane. “Mas as idades das rochas que encontramos são iguais.”

Litoral do RS é o ponto mais próximo da ERG

Esta pode ser, portanto, a peça que faltava para conectar os continentes da África com a América do Sul. Se as regiões Norte e Nordeste se encaixam perfeitamente com o Golfo da Guiné, o mesmo não ocorre com a parte sul do continente, que apresenta distinções da costa da Namíbia e da África do Sul.

“Não esperávamos encontrar (rochas cristalinas) nessa profundidade nem nessa distância do continente. Mas ainda precisa de mais investigação para afirmar que é um continente submerso. A área pesquisada ainda é pequena e precisamos ampliá-la”, explica a doutoranda em Oceanografia Geológica Mariana Benites, que participou das viagens.

De acordo com estas novas pesquisas, pode-se supor que a Elevação do Rio Grande, um dia, fez parte da Gondwana, o supercontinente que reunia a maior parte das zonas de terra que hoje constituem os continentes do hemisfério sul, incluindo Antártida, América do Sul, África e Oceania. Porém, com a elevação da temperatura da Terra e os movimentos das placas tectônicas, que separaram os continentes africano e americano, ela começou a se deslocar e submergir.

Exploração econômica precisa ser consciente e sustentável

Mas por que a Elevação ganhou tanto destaque atualmente? Porque ela pode significar autonomia econômica para o Brasil na exploração de alguns minérios.

O governo conseguiu, junto à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISBA), em 2015, o direito de investigar por 15 anos as possibilidades de exploração econômica das terras raras. A incumbência recaiu sobre o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

Como as crostas de ferro e manganês das rochas da elevação são ricas em elementos químicos como níquel, cobalto, molibdênio, platina, titânio e telúrio, entre outros, o país pretende explorar o local, já que possui riquezas em concentrações que nem a Amazônia possui.

“Esses elementos têm um valor tecnológico fundamental”, alerta o professor Frederico Brandini, titular do departamento de Oceanografia Biológica da USP e responsável pela pesquisa de R$ 8,8 milhões financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp) junto ao Natural Environment Research Council (NERC). “Só que essas reservas devem acabar. Onde vão explorar de novo? Nos oceanos. Logo, quem tem (terras raras como esta), tem a vantagem.”

Em depósitos marinhos, precisa-se retirar menos do que em relação ao continente para se obter a mesma quantidade. A mineração no fundo do mar, entretanto, é desaconselhada, pois eleva uma “nuvem de poeira turva” prejudicial aos organismos bentônicos (seres vivos como corais e esponjas) e até bactérias que ali habitam. Pelo menos enquanto não há tecnologia estabelecida para minimizar o impacto ambiental.

“Antes de começar a explorar, tem que estudar para que seja economicamente viável. Senão, pode prejudicar outros ecossistemas. Isso é para mais uns 20 anos”, projeta Brandini.