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Especialistas apontam caminhos para inovar na área de saúde

Publicado em 19 julho 2017

Os desafios para se fazer inovação na área de Saúde no Brasil foram discutidos em mesa redonda nessa terça-feira, na 69ª Reunião Anual da SBPC, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Os palestrantes apresentaram casos de sucesso desenvolvidos no Brasil que mostram que, apesar das dificuldades econômicas, culturais e políticas, as parcerias entre academia e indústria trazem mudanças e avanços significativos para a inovação no País.

A pesquisadora do Instituto Butantan, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, falou sobre a parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a empresa farmacêutica Glaxo SmithKline Brasil (GSK), que criou no Instituto o Centro de Excelência para Descoberta de Alvos Moleculares (CENTD). “Entramos nessa parceria para aprender a trabalhar com multinacionais”, disse.

O projeto tem como objetivo descobrir e validar alvos terapêuticos, baseados em nossa biodiversidade, que possibilitem a criação de novos fármacos para doenças de base inflamatória, como a osteoartrite, a artrite reumatoide, a síndrome metabólica e doenças neurodegenerativas.

Nessa parceria, a Fapesp financiou cerca de R$ 12 milhões e a GSK R$ 11 milhões. A diferença entre os financiamentos, explica Tavassi, é que o investimento da Fundação paulista foi pago de uma só vez, enquanto que a farmacêutica, desembolsa parte do dinheiro a cada seis meses, de acordo com o relatório e com os resultados apresentados. “O problema é que temos que encontrar um novo alvo a cada dois anos. Se a gente não conseguir o resultado que interessa, o projeto acaba”.

O projeto começou no ano passado e já passou a primeira fase de validação. A pesquisadora fala que o know-how do Instituto, criado há 116 anos em São Paulo e responsável pela produção de mais de 90% dos soros e vacinas do Brasil, facilitou o sucesso da parceria com o setor privado. “O projeto tem dado certo porque já tínhamos uma estrutura. O fato de o Instituto ter uma fábrica, facilita também a relação com as empresas, porque conhecemos a língua que eles falam”, disse.

As pesquisas serão direcionadas para a busca de alvos moleculares envolvidos em doenças de cunho inflamatório. Para a pesquisadora, a parceria com o setor privado trouxe lições importantes e mudanças no conceito de trabalhar no laboratório. “Aprendemos que é possível, sim, fazer uma colaboração com empresas. Eu acho que é um modelo que podemos aprender muito”, concluiu.

Outra parceria, semelhante ao CENTD é o programa SPARK-Supernova, de um grupo pesquisadores do ICB-USP e da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP), com participação da empresa Dow Química. O professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Julio Cesar Batista Ferreira, contou que o programa, criado há dois anos, é parte de uma rede que teve início no Vale do Silício, na Faculdade de Medicina da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, onde Ferreira fez um treinamento por 5 anos.

O SPARK-Supernova tem como objetivo atuar como uma aceleradora de projetos acadêmicos na área de fármacos, com potencial inovador para aplicações comerciais.

“Investir em saúde é diferente de investir em Tecnologias da Informação. É uma área que demanda uma, duas décadas de investimentos escalonados, vindos de mais de um investidor, para se chegar a um produto comercializável”, comenta.

Por conta do alto risco, e do alto investimento, a indústria farmacêutica acaba priorizando alguns produtos em detrimento de outros, conforme observou Ferreira. “O interesse da indústria farmacêutica é outro. E isso acaba matando muitos estudos importantes”.

Além disso, inovar no Brasil é ainda um processo muito truncado, ressalta ele. Ou seja, nossos centros de pesquisa têm condições de desenvolver produtos inovadores de alta qualidade, mas faltam estímulos, falta uma cultura, falta apoio. Por isso, um projeto como esse, que é parte de uma rede global, pode auxiliar na troca dos conhecimentos necessários para deslanchar produtos novos e próprios. “No Brasil, ainda estamos aprendendo a desenvolver fármacos e essa rede global facilita a interação academia indústria entre diversos países”, ressalta. “As chances de dar errado são enormes. Mas o aprendizado com essas iniciativas são imensos”.

O SPARKS-Supernova recebeu financiamentos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp em seus cinco projetos iniciais. É sediado no ICB-USP, mas, segundo Ferreira, não está vinculado a nenhuma instituição. Ferreira destacou a importância de o País apostar em diferentes iniciativas em prol da inovação. “Se aqui não for possível, vamos buscar parceiros lá fora.”

Difícil, mas válido

O professor da UFMG, Robson Augusto Souza dos Santos, que atualmente preside o conselho do Labfar Serviços, no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), ressalta que é importante que o cientista esteja muito consciente do quão desafiador é inovar. “A realidade do mercado é terrível. A gente não está preparado para entrar no mercado e nem o mercado está preparado para nos receber”, afirmou.

Santos critica o fato de a universidade não ter ainda uma visão real do que é o empreendorismo e que é importante conhecer esse mundo para lidar com as parcerias, que costumam ser bastante predatórias.

Segundo ele, vale a pena insistir. “Os esforços em inovar nessa área, logicamente trarão avanços. As iniciativas em prol da inovação são extremamente válidas”, afirmou.

Outro ponto que ele ressaltou é a importância do apoio do governo.

“O governo brasileiro precisa ter consciência de que ele é ó único parceiro que pode ajudar a desenvolver essa indústria no Brasil. Senão, vamos continuar brincando de gerar produtos na área farmacêutica”, alertou o professor.

Daniela Klebis – Jornal da Ciência