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Especialista prevê 180 mil mortes no País pela Covid-19 até o início de setembro

Publicado em 17 julho 2020

Por Eduarda Esteves

Mais de 180 mil pessoas devem morrer da Covid-19 até o início de setembro no Brasil, segundo projeção de Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto. A estimativa feita pelo especialista, que integra o grupo Covid-19 Brasil, formado por pesquisadores de diferentes instituições de pesquisa, leva em conta as medidas de relaxamento estabelecidas pelos governos estaduais e a falta de rastreamento dos casos pela escassez de testes .

“Se nada diferente for feito, em nossas simulações lá para o começo de setembro devemos estar chegando aos 180 mil óbitos e eu me pergunto qual o número de mortes que vai dar uma sensibilidade ao governo federal? Eu fiquei impressionado quando a gente chegou aos dez mil óbitos no Brasil. Hoje estamos chegando perto dos 80 mil, como se estivéssemos lavando louça”, lamenta o Domingos Alves.

Para ele, um dos principais erros cometidos é apenas informar a população de que há leitos e respiradores disponíveis nas estruturas hospitalares. “Isso traz a sensação de que os brasileiros podem adoecer tranquilamente. Mas, não se discute efetivamente a diminuição de óbitos e de casos e essas estratégias”, diz o professor.

Ele explica que para alcançar essa redução real, é preciso testar, rastrear e isolar. O pesquisador destaca ainda que a Organização Mundial de Saúde recomenda que se faça de dez a 30 testes por caso confirmado. “Isso foi o que a Europa fez para diminuir as infecções pelo novo coronavírus. Mas, no Brasil, a gente faz 1,7 testes por caso e isso é basicamente porque só testamos as pessoas que estão internadas”, avalia.

Dois milhões de casos em menos de um mês

Na quinta-feira (16), o Ministério da Saúde divulgou que o vírus atingiu 2.012.151 de pessoas no Brasil desde o início da pandemia e causou 76.688 mortes. Atualmente, 639.135 pacientes estão em tratamento.

No último dia 19 de junho, a menos de um mês, o País alcançava a marca de 1 milhão de casos confirmados. O crescimento é tão rápido que, ainda de acordo com os dados do governo federal, a doença já atingiu 97,6% das cidades brasileiros. Apenas 133 municípios, dos 5.570, não tiveram um caso da Covid-19 registrado oficialmente.

Domingos Alves justifica que há relação entre a crescente dos casos e a flexibilização feita pelos governos e municípios. O professor acredita que com a interiorização da doença, o efeito “boomerang” pode piorar ainda mais o cenário das capitais brasileiras. “Os casos avançam ao interior e podem retornar ainda com mais força aos centros”, diz.

Para a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), o pico da doença é previsto para agosto no Brasil. Integrantes da instituição reforçam a necessidade das medidas de isolamento que salvam vidas e de uma mensagem mais consistente à população.

Em contrapartida, o pesquisador diz que falta liderança do governo federal que se mostra “negacionista” com a pandemia. “Até o fim de semana devemos chegar aos 80 mil óbitos e não houve nenhuma sinalização concreta de apoio aos estados e municípios, que por sua vez, sentindo os efeitos econômicos da pandemia começaram a criar planos de relaxamento na tentativa de recuperar a economia”, avalia.

O grupo Covid-19 Brasil estima que, por causa da subnotificação, os dados reais de casos no País estão em torno de nove milhões. Os brasileiros ocupam a vice-liderança dos rankings mundiais de mortes e de casos de coronavírus, de acordo com a contagem da Universidade Johns Hopkins. No topo das listas, os Estados Unidos acumulam mais de 136 mil vítimas fatais e 3,4 milhões de contaminações.

No dia 15 de julho, o Paíis completou dois meses sem um ministro da Saúde definitivo. Desde que Nelson Teich se demitiu, em 15 de maio, o general Eduardo Pazuello comanda a pasta de forma interina. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ainda não escolheu um nome para substituir o militar.

Estado com mais mortes do Brasil, São Paulo já retoma atividades

O governador de São Paulo, João Doria, afirma que o estado está entrando em uma fase de platô da pandemia do novo coronavírus , o que indica a situação de um pico contínuo, com estabilidade de indicadores.

"Estamos ingressando numa fase de platô no estado de São Paulo, depois de um longo período enfrentando o pico. Agora, não apenas na capital, como em todo o estado de São Paulo, estamos ingressando no platô. Isso não significa relaxamento, distensão total e absoluta. Significa atenção redobrada para mantermos o platô em todo o estado de São Paulo e o controle sobre a doença", disse em coletiva de imprensa no último dia 10 de julho.

O professor pontua que não existe platô em São Paulo. "É aritmética simples, o estado não atingiu um platô porque esse é um índice observado quando se olha para um gráfico de número de casos acumulados e ele para de crescer. Essa análise foi utilizada na Europa quando o número de casos parou de crescer, ou seja, começaram a diminuir. Os casos em São Paulo seguem crescendo até o momento porque o número de casos no interior é maior, como em Ribeirão Preto e Campinas", alerta Domingos Alves.

Caminhos possíveis para a redução dos casos

Investir em estratégias de vigilância em saúde para identificar e isolar pessoas com sintomas da Covid-19 e seus contatos próximos, manter as escolas fechadas pelo menos até o fim deste ano, realizar campanhas para conscientizar a população sobre o uso de máscaras e distanciamento social, até que se tenha uma vacina eficaz.

Essas medidas foram apontadas pelos participantes do debate virtual “Quatro meses de pandemia da Covid-19 no Brasil: balanço e perspectivas para o futuro”, promovido pela Agência FAPESP e pelo Canal Butantan na última terça-feira (14).

“Alguns dirigentes têm usado o platô como argumento para relaxar as medidas de isolamento social. Mas, na realidade, o platô é a assinatura do fracasso das políticas de contenção. Toda curva epidêmica que se preze tem de atingir o pico e começar a cair. Mas, como há evidências de que a adesão ao isolamento está diminuindo, muito provavelmente a curva de novos casos vai se manter. Na cidade de São Paulo, por exemplo, ela deve se estabilizar em 17 mil novas infecções por dia até, possivelmente, novembro”, avaliou Eduardo Massad, professor e pesquisador da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Embora muitos tenham a falsa sensação de que estamos em um momento de inflexão da curva epidêmica no Estado de São Paulo, a realidade é que o número de novos casos ainda deve continuar aumentando pelo menos até outubro, considerando o nível de isolamento atual – entre 45% e 50%. A queda só deve ocorrer de fato a partir de novembro e isso se não houver alguma mudança na tendência”, concluiu Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan.